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ZH – Gabriel Galli: Jean Wyllys agiu certo em proteger a própria vida

24 janeiro, quinta-feira, 2019 às 10:44 pm

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Jean

Jean Wyllys

O deputado federal do PSOL/RJ, Jean Wyllys, anunciou nesta quinta-feira (24) que não se sentia mais seguro para exercer a função para o qual foi democraticamente eleito. Informou em entrevista à Folha de S. Paulo que abriria mão do mandato por medo de ser morto, após anos de ameaças, a impunidade com a morte da vereadora Marielle Franco e sentir-se sem direito a andar livremente no seu próprio país.

Durante anos, Jean foi o único deputado federal assumidamente gay. Priorizou a defesa dos direitos humanos, dos LGBTs e de outras populações vulnerabilizadas, se tornando uma referência para uma parte importante do movimento LGBT. Como gay e ativista, me causa revolta e desconforto que nossa representatividade no Congresso Nacional seja restrita a 0,19% das 513 vagas ocupadas. Isso não é à toa. O preconceito nos afasta da política. Jean foi, talvez, uma das principais vítimas da cruzada conservadora que aconteceu nas últimas eleições.

Notícias falsas diziam que ele queria alterar trechos da Bíblia, obrigar crianças a fazer cirurgias de redesignação sexual, que defendia o casamento de pessoas com animais e a pedofilia. Basta uma visita aos perfis dele nas redes sociais para ver a violência e os numerosos comentários homofóbicos e racistas depositados lá diariamente.

 É necessário ter muita força para tolerar. Jean teve, por oito anos. Mas chega um momento (ou vários) na vida de nós LGBTs em que precisamos decidir o quanto vale a pena arriscar o pescoço para lutar por uma sociedade menos preconceituosa. Nem sempre conseguimos. Jean agiu certo em proteger a própria vida.

A notícia divulgada esta semana, de que parlamentares de direita decidiram “dividir” a responsabilidade de monitorar os deputados do PSOL e do PT, entre eles o próprio Jean, para que pudessem fazer um embate corpo a corpo, parece simbolizar este momento político. Este, em que um opositor não é apenas alguém que precisa ser contestado, mas um inimigo que deve ser aniquilado. Nossa democracia está em risco.

 

 

 Gabriel Galli é jornalista e ativista por direitos humanos da população LGBT

 

 

Fonte: GaúchaZH