Central Única dos Trabalhadores

ZH – Fabricio Carpinejar: Professores são mendigos do Estado

27 novembro, quarta-feira, 2019 às 12:24 pm

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Cpers na praça3 (2)

Cpers na praça3 (2)

ZH - Como resgataremos a educação gaúcha diminuindo ainda mais os direitos e os salários dos professores? Qual a mágica? Humilhar e constranger como exemplo de inspiração? Onde funciona tal metodologia? É o exercício criativo do anti-Piaget? 

Os professores, sabidamente, já formam a tabela mínima dos servidores, escanteados como categoria secundária, pano de fundo da miséria intelectual, soldados rasos do funcionalismo público. Babás que cuidam de nossos filhos recebem mais do que os professores ensinando os nossos filhos. 

Agora o governador pretende tirar garantias do plano de carreira, em vez de salvaguardar reajustes? 

Não chega o endividamento a que os mestres foram forçados nos últimos anos, obrigados a viver de empréstimos e adiantamentos do 13º, na situação de indigentes, com os salários parcelados e atrasados há inacreditáveis 47 meses. Trata-se da normalização do abuso. 

Como despertar respeito e empatia do estudante se é subtraída do educador a própria dignidade? Como ele dará aula sem a mínima decência financeira? É uma exploração que extrapola a lógica da democracia. 

Que tal cobrar contribuição previdenciária dos mortos, além dos inativos? Não seria uma milagrosa economia? Que máquina estatal é essa que tira de quem não tem? Impõe-se uma infelicidade maior para parecer que a tristeza anterior não era tão grave? Piora-se a realidade para forjar saudade do que já era ruim? 

Escolas estão sendo fechadas, turmas vêm sendo extintas, temporários em licença-saúde são demitidos, e ainda se discute a legitimidade da greve? 

A manobra do projeto não é para pagar o piso nacional, o que nunca foi feito, mas retirar os adicionais por tempo de serviço e as gratificações na aposentadoria. É aquele típico aumento de fachada para diminuir na prática. Significa encurtar a toalha da mesa em guardanapo. Significa pedir ao defunto encolher para entrar no caixão menor. 

Como alguém vai desejar ser professor no Rio Grande do Sul se a diferença salarial entre o profissional com ensino médio e o educador com doutorado pode ficar em insignificantes 7%? A ideia é gerar novos profissionais com essa tábua rasa de salvação? 

Haverá um aumento considerável de candidatos, sem dúvida, com a perspectiva de passar a carreira inteira para conquistar 7% de promoção, até o fim dos dias. Já vejo filas gigantescas se formando para o magistério. 

Diante de tantas vocações cortadas, não duvido que se corte também o cartão-ponto dos grevistas. Assim como vejo que haverá um tempo em que ninguém mais entenderá a ironia. A dificuldade de interpretação de textos daí não será culpa dos professores, mas sim resultado dessa extinção em longo prazo da categoria, proposta pelo senhor governador.

 

Fabrício Carpinejar é jornalista, poeta, cronista e colunista de Zero Hora

 

Fonte: Zero Hora (ZH)