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Sul21 – Vicente Rauber: O Rio Grande precisa do gás!

18 abril, quinta-feira, 2019 às 4:45 pm

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Gás

Gás

Sul21 - “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.”
Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler.
 

“A SULGÁS é deficitária e não tem condições de realizar os investimentos necessários”! Quantas vezes já ouvimos esta frase, dita e repetida pelos defensores da privatização ou federalização da empresa. No último fim-de-semana (12/13/14-4-19) a Direção da Empresa publicou no Jornal do Comércio o Relatório de Gestão e Balanço do exercício de 2018. Vamos a alguns dos aspectos centrais:

– Lucro Líquido do exercício: R$ 73 milhões (R$ 72 milhões em 2017);

– Ativo/passivo (porte da empresa): R$ 376 milhões, tendo um Patrimônio Líquido (Total de direitos menos total de obrigações) de R$ 177 milhões e reservas acumuladas de lucro de R$ 46 milhões;

Endividamento: R$ 17 milhões no curto prazo (com vencimento em 2019) e R$ 33 milhões no longo prazo (com vencimentos após 2019), num total de R$ 50 milhões;

– Liquidez: 3,54, ou seja, para cada Real que a empresa deve, há sustentação de 3,54 Reais de Patrimônio Líquido. Considerando este indicador e considerando que a empresa opera com um produto rentável de grande utilidade e demanda reprimida, tendo amplo espaço para expandir-se, qual o banco que negará empréstimos para obras futuras?

– O Lucro líquido do exercício (R$ 73 milhões) representa 41% do Patrimônio Líquido e 19% do Patrimônio Total.

Numa análise completamente simplificada podemos dizer que, caso os sócios tivessem que aportar os recursos para constituir novamente a empresa no seu todo, recuperariam o capital empregado em aproximadamente 5 anos. Qual empresa que possui este desempenho?

Portanto o argumento usado para vender/federalizar a empresa é fake! Podem usar e assumir outros argumentos como, por exemplo, dizer que o “estado não deve participar de atividades econômicas, ainda que estas sejam estratégicas”.

Quem afirma ser a SULGÁS deficitária e ineficiente, certamente não só não conhece a situação da empresa, como desconhece a situação brasileira e gaúcha do GN – Gás Natural -, cuja distribuição é prerrogativa dos estados em suas respectivas áreas. No caso do RS a concessionária deste serviço é a SULGÁS, empresa de ações de capital fechado, tendo o Estado 51% e a Petrobras 49% das mesmas.

Mas é necessário que o GN chegue aos estados para a sua distribuição. Quando o Brasil praticamente dispunha somente do gás boliviano – 30 milhões de m³/dia – vinha para os estados do sul – Pr, SC e RS – 8 milhões de m³/dia. Registre-se que esta é a capacidade (já esgotada) do ramo Sul do Gasbol (Gasoduto Bolívia-Brasil).

Hoje, graças ao Pré-Sal, a produção própria pode alcançar algo em torno de 70 milhões de m³/dia, além da possibilidade de importação através de duas estações de GNL (Gás Natural Liquefeito), no RJ e Ba. Ou seja, o País dispõe da possibilidade de oferta de mais de 100 milhões de m³/dia. E quanto GN é destinado aos três estados do sul? Os mesmos 8 milhões de m³/dia!

Então, esta é a questão central a ser resolvida, para o que há necessidade de mobilização muito maior do Governo do Estado e da sociedade gaúcha. Pode ser resolvido através de uma estação de GNL (gás mais caro), um novo gasoduto, no caso a implantação entre SP e RS do “Gasoduto do Chimarrâo” e ainda a produção própria através de biodigestores, tanto no meio rural como urbano. A SULGÁS conhece estes projetos e poderá ser importante instrumento para auxiliar na viabilização de sua implantação. De pouco adianta a empresa acelerar a implantação de redes internas no Estado se não temos GN para distribuir!!!

Mesmo com toda esta restrição de disponibilidade do GN, a SULGÁS possui, desde o seu início um crescimento constante de suas redes, tendo aumentado em 5% em 2018, chegando a 1.145,5 km. A quantidade de clientes, ainda muito pequena em decorrência da pouca disponibilidade de GN, também tem crescimento, alcançando 48.835 residenciais, 1.043 comerciais e 149 industriais.

A questão central nem é a gestão da empresa; se ela não fosse boa, teria que ser assim tornada, como é obrigação de qualquer serviço público. O GN é o melhor combustível do planeta, sua poluição no uso é muito pequena, sendo um excelente substituto do óleo combustível e outros derivados de petróleo, lenha, carvão mineral e uso (inadequado) da eletricidade para aquecimento de água e outros. Também é matéria prima e combustível na indústria petroquímica. Quem possui desenvolve-se muito mais e promove mais qualidade de vida. É estratégico em qualquer modelo de desenvolvimento.

Aliás, a energia é estratégica para todos os países; não por acaso motivo de renhidas disputas e guerras.

Por sua vez, eletricidade é a grande alternativa energética do presente e do futuro! Imagine-se todos – ou grande parte – dos veículos locomovendo-se com motores elétricos, zero efluentes e muito pouco ruído. Cidades com muito pouca poluição e praticamente sem ruído de veículos, será uma das maiores conquistas da atual era, a natureza e a vida agradecerão!

Já, o carvão mineral é e continuará sendo a principal reserva energética do planeta (maior que o petróleo). É a principal fonte primária da produção de energia elétrica no mundo, em torno de 38%, dominante na China e Europa. Hoje, em qualquer parte do mundo realiza-se sua mineração e uso de forma sustentável, com pouco impacto ambiental. Isto acontece muito pouco aqui no RS, justamente onde localizam-se 90% das reservas do Brasil. Este é o real problema que temos a enfrentar e ter como instrumento uma CRM fortalecida e ampliada é essencial.

Portanto, a energia, em suas diferentes modalidades, é completamente estratégica política, econômica e socialmente, e, como tal, deve ter controle público.

 

 

 

Vicente Rauber é ex-conselheiro de Administração da SULGAS, CEEE, CGTEE, ONS, ASMAE; ex- presidente da CEEE, ex-diretor da Petrobras/Refap e ex-consultor da Petrobras/INNOVA, especialista em gestão e planejamento energético e ambiental.

 

 

Fonte: Sul21