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Sul21 – Tarson Núñez: A educação no Brasil e as causas do pesadelo atual

4 março, quinta-feira, 2021 às 5:29 pm

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Escola vazia

Escola vazia

Sul21 - Uma das vantagens de se ter uma formação em história é que a gente aprende a olhar as coisas com perspectiva. Nos permite perceber que se as coisas são como são, hoje, é por causa de toda uma trajetória anterior, que estabelece as bases objetivas e cognitivas para situação atual. 

Pensei nisso porque venho percebendo em muitas pessoas uma certa perplexidade frente a realidade brasileira. Realmente é difícil de entender e aceitar que estamos vivendo em um país onde a truculência impera, a ciência e a razão são desprezadas, onde a ganância e a competição de todos contra todos são apresentadas como virtude, onde as instituições se transformaram em um faz-de-conta, no qual os que detém o poder atuam segundo seus interesses pessoais, corporativos e mesquinhos.

Em função dessa perplexidade, que também me atinge, comecei a refletir sobre as causas desta situação, tentando ir um pouco mais fundo na compreensão deste processo. Porque evidentemente não se trata de um fenômeno pontual, isolado. O fato de que a presidência da república esteja sendo exercida por uma pessoa de valores profundamente autoritários, de trajetória medíocre na política e com todo um histórico de conexões com redes ilegais e ações corruptas não resulta simplesmente de uma eleição aleatória. O atual presidente só chegou lá porque é o resultado e representa um processo social mais amplo e complexo.

Pois no Brasil atual estas características de autoritarismo, individualismo, violência, amoralidade e ganância não se resumem a uma pessoa. Elas são hegemônicas também no Congresso, no Judiciário, no mundo corporativo empresarial, nas instituições da segurança, nos meios de comunicação, em grande parte das igrejas neopentecostais. 

Nosso problema não é só o presidente. Seria possível iniciar aqui uma lista interminável de pessoas parecidas que ocupam papéis de destaque em nossa sociedade, mas é melhor não pessoalizar o assunto. Mas não custa lembrar que o desembargador que humilha o guarda municipal, o empresário que superfatura venda de respiradores, a pastora que manda matar o marido seriam exemplos recentes e evidentes.

Então é o caso de se pensar quais são os processos sociais subjacentes que formaram as ideias e os valores de todo este contingente de pessoas. O que me levou, de imediato, a pensar na questão da educação. Logo depois da família, a educação é o principal mecanismo de socialização dos indivíduos em nossa sociedade. Na escola é que aprendemos não apenas os conhecimentos necessários para a vida em sociedade, mas também muitos dos valores que carregamos pelo resto da vida. 

Por isso me botei a pensar sobre como relacionar à situação que vivemos com o tema da educação. E é aí que o olhar histórico me ajudou a constatar que no fim das contas estamos vivendo hoje os resultados de processos intimamente relacionados com a história recente do sistema educacional brasileiro.

E não se trata de ficar na análise mais simplista, ainda que correta, de que a educação não é prioridade, que o ensino é ruim, que os professores são mal pagos e que não há verbas. Tudo isso é verdade, mas o tema aqui é outro. As pessoas que hoje exercem o poder no Brasil, tanto nas instituições públicas como privadas, são em sua maioria gente que está na casa dos 50/60 anos. Tanto no mundo corporativo como nas instituições públicas esta tende a ser a faixa de idade da maioria dos que ocupam os cargos decisivos. É interessante olhar então para como foi, e quando se deu, a formação dessas pessoas. E olhando assim creio que é possível identificar algumas características interessantes.

Uma pessoa que está hoje entre os 50/60 anos iniciou sua vida escolar nos anos 60/70, em plena ditadura militar e sob a égide da então chamada “Reforma da Educação”. Foi um momento em que o sistema escolar anterior sofreu profundas mudanças. O modelo de escola anterior era muito mais tradicional e conservador, mas tinha um projeto mais universalista e humanista. 

A reforma, impulsionada nos marcos do Acordo MEC/USAID, desestruturou este modelo em favor de uma abordagem muito mais instrumental e tecnocrática, onde o conhecimento é fragmentado e voltado para a formação de mão-de-obra. As humanidades, filosofia, literatura, artes saíram dos currículos, em detrimento de uma suposta educação técnica somada altas doses de “educação moral e cívica”. 

E, para além desta dimensão do conteúdo e da metodologia, é importante lembrar que imperava também nas escolas o autoritarismo, vigilância a repressão e o medo. Então já na primeira infância e nos anos formativos da personalidade e das capacidades profissionais futuras dessas pessoas temos aí alguns elementos importantes.

Essas pessoas, que tiveram sua formação básica em plena ditadura, chegaram ao secundário e à universidade nos anos 80/90. Chegaram com deficiências na educação de base, com uma formação humanística precária e acostumadas à relações autoritárias, na educação e fora dela. 

E os anos 80/90, quando essa geração começa a realizar sua formação profissional e os inícios de sua inserção profissional, foram os anos do auge do neoliberalismo. Foram os anos nos quais o establishment político brasileiro abandonou de vez um projeto de nação e aderiu alegremente aos princípios do individualismo, da competição, do privatismo. O mercado, o sucesso, o dinheiro eram as balizas que mediam o valor de cada um. Eram os anos em que os heróis eram os yuppies de Wall Street.

Alguém pode argumentar que os anos 80/90 foram anos de muita agitação na universidade, de questionamento, de movimento estudantil, de redemocratização. É verdade, mas é importante também se dar conta que esses movimentos transformadores e libertários sempre foram relativamente minoritários. 

Em um ou outro momento pontual estes movimentos tiveram impacto de massa, mas na grande maioria das escolas e universidades, especialmente nas instituições privadas (70% da rede universitária da época) os estudantes críticos eram uma minoria. A maioria estava lá só para estudar, e os professores eram hegemonicamente conservadores, divididos entre defensores do saber convencional, da autoridade e das tradições e os defensores do livre-mercado, do neoliberalismo, das privatizações, do desmonte do Estado. Esta é a matriz ideológica hegemônica naquele momento, ainda que do ponto de vista político as forças democratizantes estivessem ganhando terreno na sociedade e na política.

Essa mesma geração chega então à maturidade nas duas primeiras décadas do novo século. Um momento em que a sua formação de base, que carregava as heranças do autoritarismo, e sua formação profissional, que era orientada pelos valores capitalistas e pelo projeto neoliberal, entra em choque com as mudanças trazidas pela política. 

As eleições deste período refletiam a potência de um projeto transformador que vinha impulsionado pelos setores populares que ganharam força com a democracia. Os Direitos Humanos e a justiça social se tornam os vetores em torno do qual se constituía um projeto para o país. Mas as classes médias e altas, pilares desta elite que se formava, apenas assistia meio perplexa a democracia em construção.

A frágil hegemonia política das forças democráticas colocava em cheque os valores e o universo intelectual que formou esta geração. E ainda que as mudanças ocorridas tenham sido tímidas e limitadas, naquele momento parecia que tudo aquilo que constituía a base dos seus valores estava sendo colocado em cheque. 

De uma hora para outra as empregadas domésticas passaram a ter direitos, os pretos e os índios tem que ser respeitados, os pobres disputam as vagas nas universidades e os lugares nos aeroportos. O mundo está fora do lugar. A autoridade patronal, o racismo, o machismo, o autoritarismo e a liberdade absoluta dos mercados sofrem questionamentos, e tudo aquilo que se constituía a base da formação dessa geração passa a ser criticável.

Muitos dos agentes públicos e privados que protagonizaram os movimentos que levaram a direita ao poder, jornalistas nos grandes meios de comunicação, políticos, juízes, empresários, promotores públicos têm este perfil conservador. Iniciaram suas carreiras profissionais e sua vida pública no início dos anos 2000 e viram sua formação e seus valores serem questionados e criticados. O valor da autoridade, a primazia do mercado, o individualismo “meritocrático”, a insensibilidade social eram questionados em um momento político em que a sociedade se democratizava.

Conheço muitas pessoas de direita que expressam verbalmente uma certa sensação de opressão naquele período, ainda que de fato nunca nenhuma delas tenha de fato sofrido algum efeito objetivo em termos de uma real opressão. Mas, especialmente para aqueles que nesta geração tinham uma situação socioeconômica favorecida, a indignação contra o desafios à ordem anterior é muito nítida. Por isso, no momento em foram criadas condições favoráveis para a emergência de um projeto conservador e autoritário, ele surge com tanto vigor.

Portanto é possível identificar, no percurso da formação da classe média e das elites intelectuais brasileiras, que em alguma medida os valores autoritários e antidemocráticos já estavam presentes, latentes, esperando uma oportunidade de se manifestar. E também é possível perceber que os tímidos avanços democráticos do breve período dos governos populares apareceram, para estes setores, como ameaças ao seu status social e político.   Este ressentimento forma a base política que sustentou o golpe e que hoje vai minando a frágil democracia brasileira.

É claro que esta minha reflexão não esgota o conjunto complexo de causas que nos levaram à situação atual. Este processo tem muitas outras dimensões que devem ser consideradas. Mas me parece que em alguma medida ajuda a compreendê-la, para além das aparências. E, além disso, sinaliza para alguma esperança. Quem sabe as novas gerações, que já tiveram sua educação fundamental no período democrático e que passaram pela universidade em um momento de maior reflexão crítica, não vão ser capazes de impulsionar uma mudança positiva?

 

Tarson Núñez é cientista político.

 

Fonte: Sul21