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Sul21 – Miguel Rossetto: A omissão dolosa de Leite e o RS em último lugar

24 fevereiro, quarta-feira, 2021 às 7:30 pm

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Carteira na mão1

Carteira na mão

Sul21 – Não são boas para o Rio Grande do Sul as notícias nesta “página infeliz da nossa história”. Com pouco destaque, quase escondido, alguns jornais divulgaram no último final de semana que o RS obteve o pior desempenho econômico entre todos os estados do país em 2020. Infelizmente, a pandemia da Covid atingiu a todos, mas alguns foram capazes de se proteger melhor. Nós, não. Não é que fomos mal, fomos o pior. 

É o que diz o IBC, o índice do Banco Central, chamado de prévia do PIB. Nossa queda foi de 4,7%. O Brasil em 2020 caiu 4,1%. Na região sul, o Paraná teve queda de 0,9% e Santa Catarina, -1,6%. Alguma manifestação do governador Leite? Do Secretário de Desenvolvimento (sic) Econômico, Rodrigo Lorenzzoni? Silêncio, nenhum comentário. Alguma iniciativa? Nada. Uma dolosa omissão.

Nosso estado colhe o que foi semeado pelos governos Bolsonaro e Leite, e que muitos gaúchos chegaram a acreditar que poderia ser o melhor. Se as políticas do governo federal são desastrosas para a economia nacional – mais de 700 mil empresas fechadas e 14 milhões de desempregados – a omissão dolosa do governador – “não tenho nada a ver com isso” – e sua equipe, em relação à economia gaúcha, é desastrosa. O resultado é esse, o Rio Grande do Sul com o pior desempenho econômico entre todos os estados. São quase 600 mil gaúchos desempregados.

A seca é uma obra da natureza (cada vez mais agredida pela ação humana) e tratar de seus efeitos é responsabilidade dos governos. Aqui a estiagem é mais um reflexo das más escolhas deste governo danoso ao Rio Grande. Abandono dos agricultores – já anunciado quando extinguiram a SDR – e ausência total de qualquer política, seja de prevenção – como irrigação, qualificação de zoneamento agrícola, técnicas de produção alternativas – ou medidas de proteção aos produtores atingidos na sua renda – como agilidade no seguro agrícola, financiamentos e fomento no tempo certo. 

Outra vez, silêncio do governador em relação ao veto de Bolsonaro a medidas aprovadas pela Câmara de Deputados – a Lei Assis Carvalho, de auxílio federal aos produtores. Leite também se omite e definha a Emater, enquanto que no Paraná e Santa Catarina a extensão auxilia a agricultura familiar.

Nosso estado construiu ao longo de anos de trabalho a terceira indústria de transformação do país duramente atingida pela crise nacional e ausência de iniciativas positivas por parte do governo estadual, a exemplo do que ocorre em outros estados. Perdemos posição industrial em relação à região Sul e ao Brasil. 

Em outros estados, governos e setor econômico se articulam em busca de crescimento e desenvolvimento. Aqui, convivemos com um discurso que “não há nada a se fazer, mas tudo será melhor no futuro”. O que não contam para os pequenos e médios empreendedores é que, enquanto nada é feito para quem precisa, algo está sendo feito para quem menos precisa.

Enquanto aqui é destruído o Polo Naval de Rio Grande, em Itajaí/SC, um consórcio brasileiro-alemão vai construir quatro fragatas para a Marinha Brasileira. Se o governador não quer os empregos do Polo Naval, então mostre como conseguir empregos de igual qualificação. Qual reação à liquidação do Polo de Rio Grande? Nada, silêncio, omissão.

A destruição da CEITEC pelo governo Bolsonaro, conquista do RS em 2000, empresa pública única na América Latina a projetar e produzir chips, semicondutores, com profissionais altamente especializados e base para a ampliação de uma rede avançada de tecnologia e produção em microeletrônica em articulação com os Polos Tecnológicos do UNISINOS, PUC, UFRGS e outros. Alguma palavra ou frase do governador Leite e sua equipe? Nada. O mesmo silêncio, a mesma ausência.

A desestruturação da cadeia leiteira do RS, com enorme capacidade de expansão e geração de trabalho e renda em quase todas as regiões do estado e a perda de participação relativa para Santa Catarina e Paraná. Alguma palavra, frase do governador Leite e sua equipe? Alguma alternativa é apresentada para geração de trabalho, de emprego para as diversas regiões do estado? Nada! Sempre o silêncio, sempre a dolosa omissão.

A ausência de um projeto de desenvolvimento econômico para o RS é gritante e as perdas que são enormes aparecem no brutal desemprego, no empobrecimento do nosso povo, no pior desempenho econômico.

Os tempos são de desafios gigantescos e é preciso construir o futuro a partir das experiências mais exitosas no enfrentamento de crises econômicas, dos lugares que melhor souberam preservam suas indústrias, sua capacidade de produção de conhecimento e tecnologia, o trabalho e o emprego, o meio ambiente; experiências que melhor conseguiram distribuir a riqueza produzida socialmente e afirmar uma comunidade com mais igualdade.

Aqui no RS vivemos experiências importantes nos governos Brizola, Colares, Olívio Dutra e Tarso Genro, que devem ser revisitadas e atualizadas para esses novos tempos. Governos que a seu tempo foram capazes de ocupar o espaço de autonomia dos estados para desenvolver agendas de desenvolvimento econômico eficientes. 

De alguma forma, por exemplo, todos compreenderam a importância da indústria para o nosso desenvolvimento e elaboraram políticas industriais ativas que foram capazes de desenvolver novas atividades na indústria de transformação gaúcha.

O atual governo esgotou e nada tem a oferecer. Testado, falhou na oferta das novidades anunciadas em campanha e desonrou promessas feitas. Sobrou a insistência na agenda fracassada e conhecida das privatizações, da redução dos investimentos e gastos públicos em nome de um estúpido ajuste fiscal contra o povo.

É hora de fortalecer a resistência e de pensar o recomeço, de reconstruir e transformar o Rio Grande e o Brasil a partir das nossas ainda enormes capacidades de trabalho e realização.

 

Miguel Rossetto é ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, ex-ministro do Trabalho e Previdência e ex-vice-governador do RS.

 

Fonte: Sul21