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Sul21 – Mauri Cruz: Os novos desafios do Fórum Social Mundial. É preciso ouvir todas as outras vozes

5 dezembro, terça-feira, 2017 às 5:06 pm

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FSM 2018

FSM 2018

É inegável a contribuição do Fórum Social Mundial na reconstrução do pensamento e das práticas políticas da esquerda, anticapitalistas e de enfrentamento do neoliberalismo. Nascido num cenário de negação do ideário de esquerda, em 2001, o FSM conseguiu aportar novas ideias e, principalmente, uma cultura política radicalmente horizontal, não hegemônica e de profundo respeito à diversidade.

É, igualmente inegável, que as recentes experiências de governos democráticos e populares na América Latina se alimentaram nas ideias que foram gestadas nos primeiros Fóruns Sociais e se fortaleceram quando, seguindo a ideia da ampla participação,  abriram brechas no sistema para um diálogo democrático com os movimentos sociais, uma verdadeira janela histórica que gerou a expectativa de estarmos construindo uma possibilidade real de enfrentamento ao capitalismo, com o empoderamento da sociedade civil organizada sem abrir mão de uma democracia plural.

Há muito que se estudar para entender o que ocorreu e está ocorrendo em nosso continente. Esta janela histórica, certamente, foi possível pelas dinâmicas do próprio capitalismo internacional, mas também porque, com sua metodologia inovadora, o FSM apresentou um forma de reunir e dar visibilidade a centenas de experiências que estão na base dos próprios movimentos sociais e nem sempre são reconhecidas e valorizadas.

É preciso reconhecer, também, que as políticas implementadas neste período na América Latina promoveram mudanças profundas na base das nossas sociedades, mas não foram capazes de alterar as estruturas de acumulação capitalista. A opção pelo desenvolvimentismo permitiu a incorporação de milhões de pessoas a condições mínimas de cidadania, representada pelo acesso à alimentação, à moradia, à saúde, à educação, à mobilidade e à distribuição de renda. Todas essas, condições objetivas para se ter cidadania numa sociedade centrada no poder do capital.

Por outro lado, foi esta opção, pelo desenvolvimentismo, que fortaleceu as grande cadeias econômicas nacionais e internacionais, implementou programas e projetos que consolidaram a transição capitalista e fortaleceram o empoderamento do grande capital. Esta é uma contradição que precisa ser compreendida para ser superada. Não há como alterar as relações de poder do capitalismo mantendo o atual modelo de desenvolvimento.

É preciso reconhecer que nossas experiências ocorreram e ocorrem no atual estágio do capitalismo, onde a economia e a riqueza mundial estão nas mãos de poucas pessoas e o sistema promove uma corrida acelerada pela eliminação da soberania dos países sobre seus territórios, suas riquezas naturais, sua moeda, sua cultura e costumes, representando o que Ladislau Dowbor descreve em seu recente livro“A era do capital Improdutivo” [1].

Frente a este cenário, a retomada da ofensiva neoliberal não tem encontrado obstáculos. O neoliberalismo retornou ao continente com todas as forças e tenta varrer da história nossas experiências. Boaventura de Sousa Santos está certo ao afirmar em recente artigo que o momento atual é talvez mais importante do que aquele em 2001 quando o FSM nasceu [2]. A construção de alternativas é o maior desafio para aqueles que sonham e constroem um outro mundo possível.

Isto significa que, assim como em 2001, o Fórum Social tem uma tarefa histórica que é reunir os movimentos, organizações, redes e plataformas que resistem contra os retrocessos e que constroem no dia-a-dia as alternativas ao capitalismo para, juntas e juntos, refletirmos sobre o que fazer, reafirmar o que está dando certo, fazer autocrítica dos erros, criar estratégias, ações e agendas comuns que possam fortalecer os setores democráticos e populares. Não podemos alimentar qualquer tentativa de divisão dos movimentos que buscam enfrentar o crescimento do conservadorismo mundial. E a única forma de se avançar na unidade é aprofundando as práticas democráticas.

Desde 2001, quando da primeira edição do FSM em Porto Alegre, trava-se uma permanente discussão de qual deveria ser o papel dos Fóruns Sociais no enfrentamento ao neoliberalismo e no processo de superação do capitalismo. Como não poderia deixar de ser, cada liderança, cada rede de movimentos, cada organização, cada segmento tem sua própria resposta para essa pergunta. E, não raro, a resposta é aquela que já está sendo dada no âmbito de sua própria atuação. Cada uma e cada um vê a sua resposta como a única correta. Parece que nos esforçamos para dar razão ao baiano Caetano Veloso que cunhou a celebre frase de que narciso acha feio o que não é espelho

O FSM nasceu entorno da ideia de que outro mundo é possível. Este outro mundo não é apenas pós capitalista. Ele também precisa ser radicalmente democrático. E não há democracia sem igualdade de condições econômicas e sociais. Por isso, não é possível uma democracia real no capitalismo. E também não há democracia sem autonomia de vontades, sem o direito de escolhas, sem o respeito às diferenças. Por isso, um modelo de igualdade imposta não serve como modelo de democracia. Igualdade e liberdade são irmãs siamesas da democracia.

Dezessete anos, na luta da classe trabalhadora mundial é muito pouco tempo e, por isso, desacreditar tão cedo nos processos do FSM parece uma opção inadequada. Não obter respostas prontas aos desafios metodológicos e políticos de como construir unidade respeitando as diferenças não é motivo para desistir. É complexo mesmo. Afinal, reunir milhares de pessoas representando culturas políticas distintas para construir uma visão coletiva sobre como enfrentar o neoliberalismo e construir uma transição de superação ao capitalismo e fazendo isto de forma horizontal e democrática não é mesmo uma tarefa fácil.

Como diz Oded Grajew em recente artigo [3], não podemos fazer isto abrindo mão da inovação metodológica que é a marca dos Fóruns Sociais, a metodologia horizontal, autogestionada e de profundo respeito a autonomia de cada organização, cada movimento, cada território. Não há uma única saída. Não há um único modo de superarmos o capitalismo. É preciso reconhecer que os Fóruns Sociais Mundiais iniciaram uma nova cultura política na esquerda mundial, onde não há uns saberes melhores do que outros. Não há legitimidades maiores que outras. É a soma das diferentes lutas e resistências articuladas em torno de valores e princípios éticos que podem enfrentar um sistema excludente.

Precisamos ampliar nossas capacidades de escuta. É preciso aprender a ouvir as outras vozes. Os movimentos de mulheres têm nos apontado caminhos. As resistências indígenas têm nos dado exemplos. As juventudes de periferias têm trazido melodias e novas formas de luta e organização. Os movimentos de periferias têm nos dado exemplos.

O Fórum Social Mundial de Salvador será mais uma rica oportunidade de vivenciarmos um esforço coletivo na construção das unidades possíveis. A metodologia proposta, incorporando novidades como um Assembleia Mundial de Mulheres como agenda exclusiva, a Assembleia Mundial dos Povos, Movimentos e Territórios em Resistências e a Ágora dos Futuros, é mais um passo nesta longa jornada da classe trabalhadora e na trajetória dos Fóruns Sociais rumo a um outro futuro possível. Vamos nos despir de nossas verdades e vivenciar os processos, acreditando que a soma do coletivo sempre é bem mais que uma verdade individual.

 

 

Maui Cruz é advogado socioambiental, especialista em direitos humanos, professor de pós graduação em direito à cidade, mobilidade urbana e gestão de organizações sociais. Membro da Diretoria Executiva da Abong e integrante do Conselho Internacional do FSM.

 

[1] DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. Por quê oito famílias tem mais riqueza do que a metade da população do mundo? São Paulo, Autonomia Literária, 2017, 320p.

[2] DE SOUSA SANTOS, Boaventura. A reinvenção do Fórum Social Mundial. Carta Capital, 16 de outubrode 2017.

[3] GRAJEW, Oded. Um outro mundo continua possível? O Fórum Social Mundial não pode ceder as velhas práticas que centralizam e verticalizam o poder. Carta Capital, 2 de dezembro de 2017, pgs 34 e 35.

 

Fonte: Sul21