Central Única de Trabalhadores

Sul21 – Margarete Moraes: Verão quente em Porto Alegre

8 fevereiro, quinta-feira, 2018 às 8:17 pm

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Caminhantes

Caminhantes

Sul21 - As quase 100 mil pessoas que passaram por Porto Alegre entre os dias 22 e 25 de janeiro, por ocasião do julgamento do presidente Lula no TRF4, encontraram uma cidade  triste e feia, com as ruas servindo de moradia para tantos que já perderam tudo, uma cidade crivada de lixo e de desesperados ambulantes. Muito diferente do que aconteceu quando do Fórum Social Mundial, pois além do sentimento de injustiça e frustração  com a farsa do julgamento montado em nossa cidade, levaram para a casa,percepção acentuada de que  é preciso resistir contra a insegurança e a ausência de futuro, aqui e no Brasil.

Nos canteiros e praças,  constataram a grama alta; nas ruas e calçadas, lixo espalhado e ausências de calçamentos; ônibus sucateados e o trânsito entregue ao salve-se quem puder: uma cidade sem resquícios de presença de autoridade institucional. Mesmo assim, apesar de tanto desamparo e descuido, foi possível voltar a encontrar nas pessoas a Porto Alegre de Um Outro Mundo Possível, acolhedora e politicamente animada e organizada, lembrando as gestões da Administração Popular. Porto Alegre da memória e da história,

Uma parcela da população  acordou do marasmo  e  abraçou os visitantes de todas as etnias, partidos,  culturas  e crenças,  camponeses e trabalhadores,  juventude de todas as idades, de homens, mulheres e crianças. Em comum, já havia a certeza do golpe  jurídico-parlamentar-midiático  instituído desde que  derrubaram, com falsas alegações, a presidenta Dilma Roussef.

Nos dias que correm, ao vermos uma senhora, indicada pelo próprio pai a ser Ministra do Trabalho, em um iate, cercada  por empresários ,  compreendemos as dificuldades que a presidenta  Dilma deveria ter no diálogo formal com aqueles que se assenhoraram do poder e hoje demonstram desprezo pelo sentimento de  bem estar popular.

A Tenda da Cultura  no cenário da Esquina Democrática – espaço da luta contra a ditadura militar, em tempos de torturas, presos, mortos e desaparecidos políticos- composta por expressões de múltiplas linguagens, recebeu entre outros,  o grupo Oi Nóis Aqui Traveiz, com o espetáculo Antonio Conselheiro que  tomou conta da esquina, e deslumbrou a quem por ali passava. O acampamento da Via Campesina meticulosamente preparado no Anfiteatro Pôr do Sol por trabalhadores do campo, lutadores por terra e justiça social, e o Encontro das Mulheres com a presença da presidenta Dilma Roussef no Auditório Dante Barone (depois  transferido para a Praça da Matriz, por inusitada falta de luz na região), conquistou outra dimensão humana e política.

Na Fetrafi,  juristas e  artistas, incluindo os  ex ministros  Ana de Hollanda,  da Cultura, Eugenio Aragão, da Justiça e Celso Amorim, das Relações Exteriores, avaliavam o momento político,  compartilhavam idéias e ideais de justiça e de esperança, após um momento de bastante silêncio  e emoção quando ouviram a voz de Ana de Hollanda nos versos escritos por Cecília Meirelles e musicados por Chico Buarque de Hollanda para o Romanceiro da Inconfidência.

O dia 23 de janeiro culminou com um ato político jamais visto na história dessa cidade. Nem em 61 na Legalidade, nem em 64, no Golpe Militar viu-se algo semelhante.  Lula se fez presente, acompanhado por políticos democráticos e de esquerda, sobretudo por representantes de movimentos sociais e sindicais, por pessoas de todos os extratos sociais, etnias e idades que foram chegando na paz,  a pé, de ônibus ou de avião, plenos de muita firmeza e serenidade formando uma só voz que dizia “ Lula estamos juntos”.

Ao final, o presidente brasileiro mais reconhecido e considerado do mundo, com títulos honoríficos das mais renomadas  Universidades, aquele que mais avançou para acabar com a fome no Brasil, que  instituiu Escolas e Universidades, desenvolveu políticas de Ciência, Educação e Cultura de modo universal, recuperou a economia, sem ser proprietário de  qualquer triplex, e sobre quem não conseguiram provar nenhuma forma de enriquecimento ilícito , estava tranquilo e decidido a projetar  o Brasil do futuro.

Na Borges com a José Montaury, acompanhado de 100 mil pessoas, o retirante nordestino preferiu dar  lições de democracia, direitos, compromisso social, verdade, coerência, estatura e  dignidade. As pessoas saíram com o coração preenchido e a alma lavada. Sem se conhecerem , muitos  se abraçavam  solidariamente.

Momentos densos, tensos e, no final, de muita desilusão se sucederam  no dia 24. No Acampamento da Via Campesina  se reforçava o sentimento de que sem crime comprovado, a condenação do presidente foi política, agravada  pela audácia de um ex- retirante nordestino, sem diploma de curso superior estabelecer o maior programa mundial contra a fome, levar  água para os estados da seca, sem sangue azul, ser amado pelo povo e respeitado pelas autoridades internacionais.

O pecado  de Lula foi o de ter contrariado a Casa Grande e dado voz,  vez e diploma para a senzala e assim como Nelson Mandela e Martin Luther King também foi julgado e condenado pela defesa das causas sociais. Getúlio Vargas, Leonel Brizola e João Goulart  buscaram sinceramente  transformar o Brasil em uma Nação. Até agora, a Casa Grande consegue falar mais alto, golpear a frágil democracia e fazer o país retroagir, talvez o equivalente a um século.

Ironicamente, depois da condenação, Lula segue crescendo nas pesquisas. O povo começa a compreender e rechaça a manipulação que opera a Casa Grande na defesa dos próprios interesses. É preciso que fiquemos atentos e fortes, o ano de 2018 apenas está começando.

 

 

Margarete Moraes é ex-secretária  municipal da Cultura e ex-vereadora de Porto Alegre

 

 

Fonte: Sul21