Central Única de Trabalhadores

Sul21: Céli Pinto – 8 de março: #elenão

8 março, sexta-feira, 2019 às 5:05 pm

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Mulheres unidas

Mulheres unidas

Sul21 – Neste 8 de março nós mulheres, nós feministas, temos muito a refletir. A vitória eleitoral de um presidente caricato, rodeado por filhos, típicos personagens de reinos decadentes ou de governos totalitários; a presença maciça de militares de alto e baixo coturno nos principais cargos  da república; o projeto radicalmente neoliberal que destrói o arcabouço de políticas sociais construído em décadas; ministros do quilate de Damares Alves, Ernesto Araujo, Velez Rodrigues ou Ricardo Salles, cuja desqualificação para os cargos só não é menor do que a do próprio presidente, tudo isto deixa claro que estamos diante de um governo que  é uma  ameaça aos direitos conquistados  pelas mulheres, efeitos de muitas lutas. Temos nossos direitos ameaçados, mas – podem estar certos os donos do poder – somos também uma ameaça a eles.

Direitos duramente conquistados pelos feminismos brasileiros, pelas organizações de mulheres em geral estão em risco: os diretos das mulheres, conquistados na Constituição de 1988 e, posteriormente, em múltiplas vitórias ao longo do último período de democracia no país, encerrada em outubro de 2018, estão ameaçados porque estão no bojo das vitórias dos mais pobres, dos negros e negras, da população  indígena, das pessoas LGBT.  O projeto que se gesta é amplo e com objetivos muito claros.

É um projeto de extrema-direita que, no mínimo, quer recolocar o Brasil no padrão de casa grande e senzala, que embasou por longas décadas a história desta república. Também estão ameaçados nossos direitos porque eles trazem embutidos um projeto de liberdade, de empoderamento, de tomada de decisão sobre o próprio corpo.

Somos ameaça porque nossas conquistas são divididas com os setores populares e enfrentam o projeto excludente de capitalismo colonizado em curso, mas também porque enfrentamos o estado e a sociedade patriarcalizados, que sempre viu o corpo das mulheres como sua propriedade.

A questão central que está posta é o preço que as classes populares e as mulheres em especial pagarão por mais esta aventura da classe dominante chamada governo Bolsonaro. As mulheres pagarão mais caro. Certamente não as da burguesia e da classe média eleitoras do capitão, mas a grande maioria das mulheres: as mulheres pobres, as mulheres que dependem do SUS, as mulheres que precisam de terra, as mulheres que precisam de habitação, as mulheres que precisam de creches e escolas de qualidades para seus filhos, as mulheres que, estupradas, precisam de um aborto legal em hospital público, as mulheres que sofrem feminicídio, que são  violentamente agredidas diariamente e necessitam de delegacias, policia e justiça aparelhada convenientemente para protegê-las.

A história se repete, como tragicomédia, ou como farsa: quando o capitalismo entra em crise e precisa reorganizar a sociedade a seu favor, sabemos quem ganha eleições e quem perde direitos. O profundamente trágico é que a hegemonia burguesa é capaz de, antes de levar ao cadafalso os que perderão os direitos, convencer os condenados  a aplaudi-la.

Neste 8 de março temos razões de sobra para preocupações. Por outro lado, precisamos ter também muito claro que nós, mulheres brasileiras, somos, neste momento, o grupo mais organizado, mais público e mais forte na sociedade civil, inclusive dentro dos partidos políticos de esquerda, para fazer frente ao descalabro.

Não estou fazendo autoelogio, mas nos chamando à responsabilidade. Fomos nós as responsáveis pela organização do #elenão, a maior e mais emblemática manifestação contra o candidato capitão.  Fomos nós as exaltadas como guerreiras nas arquibancadas do sambódromo e pelos 3500 componentes da Estação Primeira de Mangueira.

Não podemos tudo, não podemos quase nada sem que as demais forças democráticas e progressistas do país se unam a nós. Mas nós, Dandaras, Marias, Mahins, Marielles e Malês, podemos muito e estamos muito decididas. Não podemos deixar que nossas conquistas sejam jogadas na lata do lixo por um governo comprometido com o desmonte do país.  Urge retomar o movimento #elenão com muita força. Temos que tomar para nós a responsabilidade de liderar a virada. E vamos fazê-lo.

 

 

Céli Pinto é professora titular do Departamento de História da UFRGS.

 

 

Fonte: Sul21