Central Única dos Trabalhadores

Sul21 – Céli Pinto: 40% versus 60%

26 setembro, sábado, 2020 às 4:23 pm

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Sul21 – Bolsonaro tem um eleitorado cativo ao redor de 25%, o que é bastante confortável para qualquer presidente da república e isso não consiste, em si, em qualquer ameaça à democracia. O que preocupa neste grupo é a postura antipolítica. Este contingente não acredita na política porque foi ensinado, com muito cuidado, a vê-la como a negação de seus interesses.

É um grupo importante para a extrema-direita, mas também para o projeto neoliberal, já que suas manifestações são sempre no sentido de diminuir garantias e direitos democráticos. Isto é essencial para a atual fase do capitalismo.

Com base nestes 25% se ensaia o que se poderia chamar de um populismo de direita que conta com três vértices. O primeiro deles se apoia na existência de um líder que se identifica com seu povo por meio de um senso comum pobre, promove a descrença nas instituições, na ciência, nas relações internacionais, nos jornais e, em certo momento, se diverte junto com ele, em atitudes de desobediência explicita à lei.

No outro vértice, há uma parcela de população violenta, sem nenhuma cultura cidadã, que foi inflada, na última década, pela grande mídia e até por setores do judiciário, ao acreditarem que partidos políticos, instituições, políticos eleitos, todos eram parte de uma corja desprezível. No terceiro vértice estão os militares, fundamentais no suporte a este tipo de pacto.

No Brasil, depois de terem ficado apagados por mais de duas décadas, finalmente encontraram um governo para chamar de seu. Diferentemente do período em que dominavam o país através de uma ditadura, agora eles têm apenas o bônus – cargos e privilégios garantidos nas reformas do governo -, sem o ônus dos tanques na rua.

A preocupação das Forças Armadas é reformar seus generais e similares, para que possam manter seus cargos de ministros e garantir a continuidade no poder.

Esta é a descrição do pior dos mundos, porque caminha para um governo com pouquíssimo apego a qualquer tipo de garantia democrática. Falei, até agora, de um governo que depende de 25% da população. Bolsonaro, neste momento, tem 15% a mais, o que lhe permite enfrentar os interesses da Faria Lima, possibilitando, inclusive, que dois militares de seu bando tirem a força o Ministro da Economia de uma entrevista oficial.

O apoio de 15% tem relação direta com o auxílio emergencial de 600 reais distribuído durante a pandemia. Poderíamos acalmar-nos e pensar que os recursos terminarão e os newcomers voltarão a se opor ao presidente. Entretanto, isso não é automático e depende muito da forma como Bolsonaro e seus mais fieis apoiadores conseguirem significar a perda de recursos.

Assim como foi muito hábil em dissociar a trágica administração da pandemia de sua figura, o presidente também poderá fazer o mesmo com o fim do auxílio e culpar a equipe econômica, até mesmo demitir o ministro, para trazer para o seu lado o povo traído, supostamente por outros, mas não por ele.

A crise é grave e as ameaças ao que resta de democracia são reais. Mas restam ainda 60%. Também é ilusório pensar que esta maioria é democrata, de centro-esquerda, progressista e está pronta a apoiar projetos igualitários na economia e libertários nos costumes. Os 60% estão em disputa e isto tem de ser levado em conta. É ingênuo pensar que eles são anti-Bolsonaro por natureza.

Se quisermos pensar com alguma esperança a próxima década, é preciso entender que, entre os 60%, muitos não se emocionam com os abusos sofridos pela criança grávida vítima de estupro; muitos acham que não importa que um indivíduo com 3 votos se torne reitor de uma das maiores universidades do país, a UFRGS.

Entre eles, também há quem ache que funcionário público é vagabundo, há racistas, há os que humilham mulheres quando não as matam, que desrespeitam a população LGBTQI e acham que pessoas em situação de rua são marginais, não trabalham porque não querem.

As forças progressistas estão entre os 60%, evidentemente, mas estão longe de ser maioria. A elas cabe reconstituir a política, o público. Principalmente agora, durante as eleições municipais, a elas cabe mostrar que têm um projeto para o país.

As eleições são municipais, os problemas são locais, mas os problemas são muito próximos, considerando as populações como unidade de análise no lugar de cidades. A distância entre os problemas das pessoas em situação de rua em São Paulo ou em uma pequena cidade do interior do Brasil não é tão grande entre si, por isso todos os setores progressistas precisam falar a mesma língua.

Os discursos devem ter foco nos problemas locais, sem perder a perspectiva de que os problemas locais são também problemas nacionais. Nas eleições municipais, dificilmente as forças de oposição conquistarão alguém que faça parte dos 40%, mas podemos ter esperança de ser cada vez mais em maior número entre os 60%.

 

 

Céli Pinto é professora Emérita da UFRGS; Cientista Política; Professora convidada do PPG de História da UFRGS

 

 

Fonte: Sul21