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Sul21 – Adão Villaverde: Dia que vai para a História como data de vergonha nacional

21 maio, sábado, 2016 às 11:03 pm

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O ataque de 12 de maio, que se consolidou no Senado com o golpe à democracia brasileira, seguramente será registrada para a História como um daqueles dias que causará vergonha a este país, aos democratas, aos progressistas, aos verdadeiros liberais e aos movimentos sociais, para o resto de nossas vidas e até mesmo para as gerações que nos seguirão.

A mando de interesses internacionais (o rentismo, a indústria petroleira, a armamentista e a avidez pelos recursos naturais) contrariados com o nosso projeto de nação, partidos que abandonaram a ordem se prestaram, sob pressão dos empresários, da velha mídia e de setores do Judiciário, a jogar a Constituição no ralo e atirar as urnas às trevas.

E se sujeitaram a cometer um crime grave contra a democracia, construída, a muito custo, por milhões de brasileiros, que padeceram com a horrenda ditadura que prosperou por mais de duas décadas no Brasil.

Ou seja, os ex-liberais programáticos rejeitaram a ordem democrática e chancelaram a via golpista como a “nova” esfera da disputa política no nosso país, abrindo um precedente enorme, qual seja: governo mal avaliado pela grande mídia e uma maioria casuística tornam-se suficientes para prescindir das urnas e do voto popular.

E pior: envergonham mais ainda o nosso país e, inclusive, o exterior perplexo com o golpismo, porque tudo isto foi comandado pelo corrupto Eduardo Cunha e seus comparsas que, por vingança rasteira, levaram ao poder o ilegítimo conspirador Michel Temer, que nomeou um ministério recheado de acusados e suspeitos de corrupção.

Todos do PMDB, partido este que se especializou em chegar ao governo sem percorrer a via sagrada das urnas (foi assim com vices como José Sarney, Itamar Franco e agora o usurpador Temer).

O golpe veio a galope de longe. Desde a campanha presidencial de 2014, rebaixada pelas agressões misóginas e ofensas machistas, por mentiras e boatos contra Dilma, vicejava uma ideia emblemática que o udenista Carlos Lacerda já vociferava bem antes, declarando que o trabalhista Getúlio Vargas “não devia ser eleito; se fosse eleito não deveria assumir; se assumisse, não deveria governar; se governasse, deveria ser derrubado”.

Eleita pela escolha majoritária do povo, a primeira mulher vitoriosa nas eleições para o Planalto na história do país teve contestada a própria contagem dos votos autorizados por mais de 54 milhões de brasileiros. Iniciava-se, ali, uma campanha descarada por um terceiro turno ilegal, promovido pelos inconformados com a derrota no pleito legitimado em nossa Carta Magna.

Engendra-se, assim, o golpe sujo – que o Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, chamou de ‘brando’ porque não inclui armas – amalgamando partidos, boa parte do empresariado e setores do Judiciário, unificando a narrativa que a mídia propagandeou, diuturnamente, pelos veículos de comunicação em seu mais amplo espectro de penetração massiva junto à população, exercido por emissoras de TVs e de rádio, jornais e plataformas na internet.

A estratégia clara era de pressionar fortemente o governo Dilma para colocá-lo na defensiva, restringir sua capacidade de gestão, dificultar a execução de programas e impedir ações concretos, paralisando o Executivo.

Com a constância e a insistência de uma voz hegemônica a favor do retorno do neoliberalismo que interrompe os avanços de inclusão social e de redistribuição de renda, a mídia ampliou as chamadas ‘pautas bombas’ que Cunha manipulava das trincheiras no Congresso, criando o ambiente fértil para disseminar o ódio e a intolerância que vimos agravar-se tristemente, dividindo os brasileiros entre democratas e golpistas.

A encenação histriônica na Câmara dos Deputados, no dia 17 de abril, correu o mundo mostrando uma caricatura do Parlamento brasileiro, diante de uma votação importante que submetia a presidenta a um júri sem qualificação para avaliar os alcances de meras pedaladas fiscais e singelos créditos suplementares, cuja improcedência a defesa de Dilma provou largamente.

Lastreado por um relatório parcial de comissão especial de autoria de um deputado do empedernido posicionamento tucano, o debate no Senado foi menos circense mas, do mesmo modo, contaminado pelo clima de condenação prévia, movido pela conspiração partidária da aliança formada pelos oposicionistas de ocasião.

Aos golpistas pouco importava a concepção ética que envolve a injustiça de uma acusação de impeachment sem crime de responsabilidade. Interessava derrubar Dilma, atacar Lula, acabar com o PT e, sobretudo, exterminar o legado de conquistas geradas nos governos dos últimos anos.

Por isso, foram infiéis, desleais, traíram, mentiram, conspiraram, usurparam e, por fim, golpearam.

Mas nós resistiremos porque a História será implacável com os golpistas e com quem desonra a Constituição e o Estado Democrático de Direito, como foi impiedosa com os aliados do golpe de 64 e com todos os traidores ao longo dos tempos, de Judas aos dias de hoje.

Adão Villaverde é professor, engenheiro e deputado estadual (PT/RS).

Fonte: Sul21