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Sul 21 – Céli Pinto: Trata-se de catástrofe

31 maio, sexta-feira, 2019 às 7:22 pm

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Faixa da Defesa da educação

Faixa da Defesa da educação

Sul21 – O processo de desdemocratização em curso no Brasil é radical, tem objetivos claros e vem dando passos largos muito rapidamente. É um engano crasso pensar que o país será mais ou menos democrático à medida que as reformas pretendidas forem ou não aprovadas.

A questão central a ser tomada em consideração é que o projeto do governo é  intrinsecamente excludente, se vitorioso provocará a desnacionalização de todos os  próprios públicos, tornará o emprego, quando disponível, ainda mais precário, o ensino mais inacessível, a aposentadoria praticamente impossível e as prisões cada vez mais superlotadas. Estes efeitos atingem de forma diferente variados grupos na sociedade, sofrem ainda mais os negros, as mulheres pobres, os indígenas, a população LGBT, os que vivem nas regiões mais pobres, os velhos e as crianças.

Também a população branca de classe média pagará seu preço, mas esta resolveu pagar e tem toda a responsabilidade sobre seu próprio destino. Este projeto só compensa às burguesias urbanas e rurais e ao capitalismo financeiro internacional.

Para buscar alcançar seus objetivos o projeto necessita calar todas as forças vivas da sociedade, todas as forças pensantes. O furor contra a educação, vindo do Ministro da Educação, não é apenas um ataque de estupidez e estultice. Seria bom se fosse só isto,  mas não é, revela também o imenso medo do que se pensa nas universidades e do que os professores da educação básica ensinam nas escolas.

Isso não se deve ao fato de todos serem marxistas e revolucionários, até porque esta gente que domina o governo não tem condições intelectuais de identificar um pensamento marxista. O fato é que a maioria dos professores ensina a pensar. Se qualquer ministro do atual governo assistir uma aula de filosofia na universidade que analise a tese de doutorado de Hannah Arendt sobre Santo Agostinho, chamará a polícia para investigar a presença do comunismo. O elogio à ignorância, esta ameaça ao pensamento, faz parte do projeto de desdemocratização.

Ernesto Araújo, ministro do Exterior, afirmou na Câmara de Deputados que as teses sobre o aquecimento global eram ideológicas e que o aquecimento se devia apenas ao fato de os termômetros que medem a temperatura terem sido colocados, nos últimos tempos, muito perto do asfalto.

O ministro Osmar Terra, médico de profissão, disse que é ideológica a pesquisa da FIOCRUZ que afirma não haver uma epidemia das drogas no Brasil, pois não é o que ele vê nas ruas. Poderíamos apenas nos indignar e nos envergonhar com tanta ignorância, mas esses dois ministros sabem tão bem quanto qualquer um de nós, que estão dizendo grandes asneiras.

Debocham da comunidade científica e enganam a população em geral, que tende a aceitar explicações simples.  Sempre foi importante, para projetos totalitários, calar, encarcerar, humilhar cientistas, intelectuais e artistas.

Se o projeto for vitorioso, teremos fortes razões para temer que a ameaça à manutenção das instituições se concretizará, na medida em que elas podem representar espaços de oposição as propostas do governo. Também a universidade, a ciência e a cultura serão focos de perseguição. Para eles, todos precisam ser calados.

Assistiremos, ao mesmo tempo, ao encarceramento ainda mais massivo de jovens pobres, principalmente de homens negros, e ao aumento da violência de toda ordem, legitimado pelo Ministério da Justiça. É importante nunca esquecer que, durante a ditadura civil-militar, o momento de maior radicalidade e brutalidade foi durante o governo do ditador Médici, quando os indicadores econômicos bombavam no país.

Se o projeto afundar, o fracasso será atribuído à Câmara de Deputados e ao  “comunismo”, ao “marxismo”, à “ideologia” presentes nas universidades, nos institutos de pesquisa, nas escolas, nas atividades culturais  e, novamente, o resultado seria um radical fechamento.

Apesar do aspecto de circo mambembe (com as devidas desculpas ao circo), o governo não é de amadores. Há um projeto em curso muito radical e assustador. Não tenhamos ilusão. Trata-se de uma catástrofe, nada menos do que isto.  Mas, como diria Michel Foucault, onde há poder, há resistência. E, digo eu, onde há resistência, há esperança.

 

 

Céli Pinto é professora titular do Departamento de História da UFRGS.

 

 

Fonte: Sul21