Central Única dos Trabalhadores

Sul 21 – André Pereira: Um ano pior ainda para os gaúchos em 2016

23 dezembro, quarta-feira, 2015 às 3:16 pm

Comentários    Print Friendly and PDF

André Pereira

André Pereira

O sábio Edward Murphy (1), o pessimista da lei transversa, ensina que o pior sempre pode piorar, e ainda piorar muito mais do que se imagina.

É, sem dúvida alguma, o caso do Rio Grande do Sul em 2016.

No novo ano, o governo estadual seguirá sua senda de patética inapetência para a gestão responsável, açoitando os servidores públicos e penalizando a comunidade rio grandense.

Aos efeitos da ausência absoluta de projetos e da falta de obras, do aumento de impostos, do arrocho e de parcelamento salarial, do empréstimo bancário do 13º salário, se somarão os danos da falta de reajuste das remunerações, limitada na peça orçamentária.

Imagine-se então um servidor, sem reajuste, com dívidas acumuladas, empréstimos a serem quitado, recebendo parceladamente e pressionado pelos pagamentos obrigatórios de tributos (IPTU, IPVA) material e matrículas escolares. Até quando o trabalhador público suportará a situação? Os professores que buscam na Justiça o pagamento do abono de fim de ano, é certo, pensarão em paralisação das aulas no início do ano letivo. Na segurança pública, a inconformidade é semelhante e as decorrências se acentuarão obviamente no aumento da criminalidade e da atemorização da população.

Como se não bastassem as duas últimas gestões do Legislativo estadual, atropeladas por episódios vergonhosos de investigações, acusações, desvios, funcionário fantasmas, renúncia e cassação de deputados, com presidentes de pífias administrações, a Casa do Povo dos gaúchos será conduzida aparentemente por um clã familiar de parlamentares de vínculos preteridos com a Arena (2), o viés partidário da ditadura brasileira, representado por uma deputada de opaco mandato, valorizando a imagem de esposa e mãe de família, que empresta ao Poder Legislativo uma sagrada alusão à figura da matrona cristã ao invés de celebrar uma deputada comprometida com mudanças políticas radicais e defesa intransigente da democracia e do estado constitucional do direito como seria conveniente à primeira mulher no cargo em 180 anos de história da Assembleia.  Pode-se desde já prever um discurso piegas, louvando a religião e agradecendo à família, em meio a algumas proposições bem intencionadas de conteúdo assistencialista, sem jamais beirar arrebatamentos feministas. Como soaria peroração diversa se seu marido, ex- parlamentar federal que legou oposto ao filho, aparece entre os 39 investigados do inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), batizado de “inquérito-mãe” da Lava-Jato?

O Tribunal de Contas do Estado (TCE/RS), guardião da moral pública e do controle da improbidade, já está com novo presidente: um conselheiro igualmente com a ética comprometida por comportamento investigado pelo MP em sua passagem pelo Parlamento onde integrava, também ele, as fileiras PePistas, com pegadas arenistas de tristezas pregressas dos anos de chumbo, das torturas e dos assassinatos dos resistentes ao arbítrio. A excelência de toga responde a processo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) por estelionato, acusado de empregar funcionários fantasmas quando era deputado estadual, e emprega um assessor condenado por desvio de recursos no Legislativo. Em agosto, se tornou réu por estelionato após o STJ acolher denúncia do Ministério Público Federal (MPF). Para a ONG Contas Abertas, que fiscaliza órgãos públicos, sua eleição compromete a própria imagem do tribunal.

Já em ritmo de disputa pelo voto, o paço municipal evidenciará de novo aquelas maquetes coloridas de promessas enganosas, reeditando a estratégia de marketing do atual prefeito que amparou-se nos audiovisuais de uma realidade virtual rósea para vencer o pleito passado. Sem saber se atende às ordens da esposa para mudar mais uma vez a casaca que já foi petista, ou para seguir com a mesma vestimenta partidária, fiel ao senador da rede de negócios e comunicação que segue desafiando o passado histórico de Leonel Brizola, o alcaide continuará fora da cena pública, abençoando seu vice sob os holofotes da mídia amiga nos centros dos acontecimentos pautados conjuntamente. Como ocorre agora, quando esconde-se o enorme desastre da gestão, com uma cidade abandonada, esburacada, insegura, tomada por veículos automotores, com ciclovias que  não ligam a nada, conflitos de gente sem moradia e grupos de pessoas sem tetos dormindo sob marquises.

A Câmara de Vereadores da capital formalizará o acordo entronando na presidência em 2016 um edil que foi cassado e re-cassado. E que só foi ungido ao cargo máximo da colenda, com o apoio conivente dos seus pares de variadas matizes, sob o amparo de uma liminar da justiça. O presidente do novo ano foi cassado por decisão unânime do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) gaúcho, mantida pelo ministro Luiz Fux, do TSE, acusado de abuso de poder político e econômico, durante as eleições de 2012. Na época, o Ministério Público denunciou que a estrutura da Secretaria Municipal de Obras e Viação, comandada por ele, era usada para a prestação de serviços asfálticos e de iluminação pública em troca de voto. O que pregará, em termos éticos, em sua alocução de posse? Terá a capacidade de Eduardo Cunha de seduzir aliados e manipular as regras regimentais a seu bel prazer, mantendo-se no posto que só a judicialização vigilante poderia conter?

E brava imprensa rio-grandense seguirá arvorando-se em júri da sociedade e falseando que é “neutra”, imitando Sartori em relação ao pedido de impeachment da presidenta Dilma?

Sim, por óbvio. Mas em 2016, ano eleitoral, pode ser bem mais “neutra” ainda, como proclama a Lei de Murphy, já que em época de disputa em nível municipal será extremante apropriado para se declarar imparcial, desde que fique bem subentendido quem o poder econômico pretende que ganhe as eleições. Ou seja, quem será blindado, longe do incômodo das manchetes e destaques jornalísticos considerados negativos. Neste âmbito tão fortemente retrocessivo, talvez seja a hora dos grupos da província sentirem-se encorajados a imitar empresas de outros países, assumindo uma postura realmente transparente, incluindo, em seus alardeados códigos de ética e conduta, em nome do respeito com seus leitores e colaboradores, a proclamação aberta de defesa e apoio a seus candidatos e partidos. Seria tão mais honesto…

 

(1) O criador dessa lei foi o capitão da Força Aérea americana, Edward Murphy, e também foi a primeira vítima conhecida de sua própria lei. Ele era um dos engenheiros envolvidos nos testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em piloto de aeronaves. Para poder fazer essa medição, construiu um equipamento que registrava os batimentos cardíacos e a respiração dos pilotos. O aparelho foi instalado por um técnico, mas simplesmente ocorreu uma pane, com isso Murphy foi chamado para consertar o equipamento, descobriu que a instalação estava toda errada, daí formulou a sua lei que dizia: “Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará”.

 

André Pereira é jornalista.

 

Fonte: Sul21