Central Única de Trabalhadores

RBA – Marcio Pochmann: Quem perdeu e quem ganhou com o golpe

17 outubro, quinta-feira, 2019 às 6:38 pm

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Pato da Fiesp

Pato da Fiesp

RBA - Desde o golpe de Estado em 2016 os objetivos prioritários dos governantes neoliberais, privatistas e pró-mercado subordinados à lógica internacional voltam-se para uma “reprimarização” da economia. Essa tendência se expressa pela exploração da produção de recursos naturais e de mão de obra barata.

Para tanto, as atividades mais complexas, intensivas em investimento e tecnologias ficam para trás, como os de manufatura consumidos internamente, considerados pela elite dirigente de qualidade inferior e de elevados custos, somente viabilizados por subvenções estatais e proteção tarifária.

Por força da recessão recente, a capacidade de produção industrial ampliou a ociosidade, distanciando-se dos investimentos em inovações tecnológicas e comprometendo os ganhos de produtividade. A redução no nível da demanda agregada decorreu da elevação do desemprego e da subutilização de trabalhadores, fazendo crescer a pobreza e desigualdade da renda, com o esvaziamento das políticas públicas de bem-estar social.

Nesse sentido, os grandes perdedores do golpismo têm sido os setores industriais e as micro e pequenas empresas de serviços diante do acirramento da competição frente ao apequenamento do mercado interno de consumo. A contrapartida da desaceleração da produtividade e da imposição de altos custos internos tornam as possibilidades de importação cada vez mais concretas, retomando o modo de produção substituído por importações.

Com isso, ocorre o abandono das fontes internas de expansão da quantidade de empregos e das condições necessárias para a elevação da qualidade dos postos de trabalho. O resultado tem sido a convivência com a desocupação em massa, inclusive para os segmentos de maior escolarização, cujas taxas de desemprego alcançam cerca de um terço de mestres e um quarto de doutores.

A fuga de cérebros tem sido o caminho sugerido para a parcela da força de trabalho subjugada pelo mercado de trabalho profundamente deprimido. As ocupações que restam nas atividades legais da economia são, em geral, as precarizadas pela ausência da contratação formal, insegurança temporal, maior jornada de trabalho e contida remuneração.

Nas atividades ilegais, a economia brasileira tem proliferado, embora as informações empíricas sejam de frágil comprovação, por pressuposto. Mas no âmbito da contravenção, corrupção e ilegalidades em geral, as ocupações em ampliação consideradas informais remuneradas e aquelas realizadas sem a monetização sustentam cada vez mais a sobrevivência das massas sobrantes aos interesses do capitalismo brasileiro.

De certa forma, parece alterar o aprendizado deixado pelo professor Francisco de Oliveira que no seu livro Crítica à Razão Dualista – O Ornitorrinco descreveu com perfeição a funcionalidade da informalidade das massas empobrecidas ao desenvolvimento do capitalismo brasileiro ao longo do século 20.

Mas esse padrão tupiniquim de superexploração da força de trabalho estendido pela industrialização nacional está ficando para trás, pois, com os governos depois do golpe, o modelo de capitalismo possível é o que descarta talvez 40% da população, justamente aquela parcela que se integrava até pouco tempo pelo emprego destruído pela recessão e pelos programas sociais atualmente desmontados pela austeridade fiscal.

Diante de tantos perdedores, registrado pela desaprovação governamental, a manutenção de políticas neoliberais, privatistas e pró-mercado subordinados à lógica internacional seria impossível, não fossem seus ganhadores a alimentar o poder político e midiático.

Nesse sentido, os grandes grupos econômicos a explorar a agropecuária e extrativismo mineral e vegetal para a exportação, as empresas fortemente concentradas e transnacionalizadas associadas à redução de custos de produção pela retirada de direitos sociais e trabalhistas e desonerações fiscais e subsídios financeiros.

Mesmo com a trajetória regressiva da economia brasileira nos últimos cinco anos, o setor financeiro seguiu cada vez mais poderoso, operando com lucros extraordinários. A contenção do crédito público privado foi compatível com a amplitude da financeirização improdutiva, alimentada pelo sistema de dívidas que torna o endividamento público e as políticas de austeridade fiscais e desmonte do Estado vassalas dos interesses diretos dos ganhadores prioritários dos governos do após golpismo de 2016.

 

Marcio Pochmann é economista e presidente da Fundação Perseu Abramo.

 

Fonte: Rede Brasil Atual (RBA)