Central Única dos Trabalhadores

“Queremos ter voz, vez e caneta nos espaços de decisão”, afirma Vitalina Gonçalves

1 julho, quarta-feira, 2020 às 5:57 pm

Comentários    Print Friendly and PDF

Vita

Vita
BdF RS - Vitalina Gonçalves, mulher, professora, 51 anos, natural de Quaraí, é militante da Educação. Também ocupou os cargos de secretária-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS) e presidenta do Sindicato dos Professores Municipais de Gravataí (SPMG/Sindicato), mas está licenciada para concorrer à vereança em Gravataí.

Esteve na linha de gente dos movimentos no Estado contra o golpe à presidenta Dilma Rousseff e à condenação injusta do ex-presidente Lula. Entre os amigos e a categoria que representa, é conhecida como Vita.

Desde os 18 anos luta em defesa da Educação Pública de Qualidade e da valorização dos trabalhadores em educação. Do Sindicato que representa os professores e funcionários de escola da cidade até a luta geral na central sindical, defende um Estado com políticas públicas para toda a classe trabalhadora.

Sobre a participação das mulheres no movimento sindical, destaca, nesta entrevista para a Série Mulheres na Política, que ainda é extremamente frágil. “Boa parte de nossas entidades sindicais, de todas as instâncias, são presidencialistas e o ‘cargo’ de presidente é ocupado por um homem. Aqui no RS, por exemplo, quando reunimos as centrais sindicais, no cargo de ‘coordenação’ todos são homens…. Mas isso não quer dizer que, nós, mulheres, aceitamos e nos acomodamos com essa situação. Há ventos de mudança dentro do movimento sindical.”

Leia a íntegra da entrevista.

Brasil de Fato RS – Gostaria que tu nos falasse um pouco da tua trajetória?

Vitalina Gonçalves - Sou uma mulher de 51 anos, nascida no interior do RS, moradora da Grande Porto Alegre desde os 15 anos. Aos 18 anos assumo, através do primeiro concurso público, o cargo de professora municipal. Junto com a docência vem a militância sindical na base. Com greves, organização da nossa categoria, participação ativa na comunidade escolar onde estava lotada, articulando pais e alunos na busca de seus direitos.

Como consequência da militância de base, lá por 1995 assumo de forma orgânica a participação no Sindicato dos Professores de Gravataí. Junto e misturado com o Sindicato, continuo o exercício da docência e também me insiro nos movimentos em defesa da educação pública em nível estadual e nacional.

A partir de 2010 começo uma trajetória na Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), o que me leva a um envolvimento intenso com os movimentos sociais, especialmente a Central dos Movimentos Sociais (CMS) e a Frente Brasil Popular (FBP). Isso é um pouco da minha trajetória.


Neste tempos de pandemia, Vitalina também incorporou as "lives" ao seu cotidiano / Arquivo pessoal

BdFRS – Como tu avalias a participação das mulheres no movimento sindical, e qual a importância dessa participação?

Vitalina - A participação das mulheres no movimento sindical, no Brasil, ainda é extremamente frágil. Boa parte de nossas entidades sindicais, de todas as instâncias, são presidencialistas e o "cargo" de presidente é ocupado por um homem. Aqui no RS, por exemplo, quando reunimos as centrais sindicais, no cargo de “coordenação” todos são homens. 

O machismo no movimento sindical é também na mesma proporção. Mas isso não quer dizer que, nós, mulheres, aceitamos e nos acomodamos com essa situação. Há ventos de mudança dentro do movimento sindical. Na CUT aprovamos e efetivamos a paridade na composição da direção nacional e das estaduais e continuamos lutando para que não seja uma paridade burocrática, mas com voz, vez e caneta nos espaços de decisão.

Não há perspectivas de um novo ciclo para a classe trabalhadora, se o movimento sindical, social, estatal, judicial, Executivo, Legislativo, dentre outros, não estiver encharcado de mulheres, negros e negras…


Secretária-geral licenciada da CUT-RS, Vitalina defende a paridade nos espaços de decisão / Divulgação

BdFRS – O machismo se perpetua em todos os ambientes, no movimento sindical não seria diferente. Como tu analisa o quadro atual?

Vitalina - No movimento sindical, eu diria que os nossos companheiros estão aprendendo. O machismo continua existindo e bem forte, porém nós estamos mais empoderadas, vamos para o enfrentamento, questionamos, denunciamos e, eles por sua vez, recuam. Mas ainda é um longo caminho, que deve passar pela consciência. E, nós, mulheres do movimento sindical não recuaremos nenhum passo, nenhuma atitude machista pode passar ilesa.

BdFRS – Como os desmontes dos últimos anos, em especial no governo Bolsonaro, têm afetado a vida dos/as trabalhadores/as, em especial das mulheres?

Vitalina - O desmonte das políticas públicas no Brasil, aplicadas a galope após o golpe contra a presidenta Dilma (tinha esse objetivo), atinge primeiramente e de maneira avassaladora as mulheres. O desmonte vai desde acabar com os programas de proteção às mulheres vítimas de violência, congelar por 20 anos o orçamento para a Saúde e a Educação, chegando a uma reforma da Previdência que ataca de maneira tirana trabalhadoras do campo e da cidade, que tem tripla jornada, muitas cuidam sozinhas de suas famílias e trabalharão até morrer ou morrerão trabalhando.

E chega à completa ausência do Estado brasileiro na proteção de seu povo durante uma pandemia que mata mais de 1.000 pessoas por dia. Suas consequências atingem as mulheres de forma mais severa, pois nós estamos mais expostas ao risco de contaminação e as fragilidades sociais, decorrentes desta crise sanitária, como o desemprego, a violência doméstica, a dificuldade de acesso aos serviços de Saúde e o aumento da pobreza. Portanto, um governo chamado Bolsonaro, com sua necropolítica, é um inimigo das mulheres e, desta forma, deve ser combatido.


"Nós, mulheres do movimento sindical não recuaremos nenhum passo, nenhuma atitude machista pode passar ilesa", afirma Vitalina / Divulgação

BdFRS – Quais os principais desafios da luta sindical?

Vitalina - O principal desafio do movimento sindical, juntamente com os movimentos sociais, é colaborar na articulação e tomada de consciência do conjunto da classe trabalhadora brasileira e mundial para encerrar, no mundo, o ciclo desses governos conservadores, "retiradores de direitos", autoritários e fascistas.

BdFRS – Que sociedade tu desejas pós-pandemia?

Vitalina - Eu desejo uma sociedade em que sejamos livres, que tenhamos acesso à educação, saúde, lazer, segurança… e que o fosso das desigualdades sociais no Brasil seja definitivamente extinto, soterrado. Uma sociedade com igualdade de direitos e oportunidades para mulheres, mulheres negras, mulheres pobres, mulheres com deficiências.

 

Fonte: Fabiana Reinholz e Katia Marko – Brasil de Fato RS