Central Única dos Trabalhadores

Teletrabalho: o novo normal não pode ser a velha forma de exploração – Gilnei Nunes

12 outubro, segunda-feira, 2020 às 11:40 am

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Gilnei

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Sul21 - Por conta da pandemia do novo coronavírus, muitas das atividades econômicas passaram a ser desenvolvidas na própria casa do trabalhador. Como uma das formas de evitar a aceleração e a propagação do coronavírus, desde março a mobilidade social nas cidades brasileiras sofreu alguma restrição.

O decreto estadual nº 55.240/2020, de 10 de maio de 2020, instituiu o sistema de distanciamento controlado para fins de prevenção e enfrentamento à epidemia, declarado como estado de calamidade pública pelo Decreto Nacional nº 10.308, de 2 de abril de 2020.

O que se quer alertar e chamar a atenção, neste momento, é para as mudanças no mundo do trabalho na vida de muitos trabalhadores. A categoria bancária é um exemplo. Desde a década de 1990, as Tecnologia da Informação e da Comunicação (TICs) transformam as relações de trabalho e o comportamento da sociedade. No setor bancário, essa mudança é visível e se aprofundou a partir da chegada do século 21.

As TICs impactaram fortemente no setor financeiro. Se há 30 anos era improvável imaginarmos realizar uma simples operação bancária sem ir ao banco, hoje o mesmo atendimento pode ser feito num telefone celular e de casa.

O setor financeiro, por conta dessa ruptura tecnológica causada pela informática, foi afetado pela diversificação dos produtos e serviços, pelo mercado concorrente e pela reorganização das suas atividades internas. Este contexto mudou muito a vida dos bancários em seus ambientes de trabalho. Maior concorrência significa maior pressão por prospecção de negócios.

Os bancários sentem todos os efeitos das mudanças do setor. Os postos de trabalho, que já chegaram a ultrapassar o um milhão de empregos em décadas passadas, resumem-se atualmente a cerca 450 mil, segundo acompanhamento do Departamento Intersindical de Economia e Estatística (DIEESE), com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

É certo que, nesta situação de pandemia, na qual algumas das medidas de proteção são o distanciamento social e o teletrabalho colocaram boa parte deste contingente de empregados dos bancos em home office.

Assim como a informatização e a própria mudança estrutural do setor bancário levou a uma redução drástica dos postos de trabalho da categoria nas últimas décadas, o que se percebe é um risco de o home office agravar o desemprego no setor bancário, precarizar o trabalho e transformar o bancário em um trabalhador sem ter horário para pensar em si mesmo.

O teletrabalho e sua reprodução da condição já difícil pelas recentes perdas de direitos decorrentes da reforma Trabalhista e da reforma da Previdência parece ter vindo para ficar.

Recentemente os empregados do Banco Bradesco negociaram e aprovaram em assembleia nacional um Acordo Coletivo de Trabalho Específico para constituir uma regulação que garanta qualidade de vida na casa das pessoas, agora transformada em ambiente de trabalho: os funcionários precisam exercer seus direitos à desconexão, estão preocupados com o uso de seus equipamentos pessoais para o trabalho e com as dificuldades de separar o que é office (escritório) e o que é home (o lar).

Será que os bancários já estão preparados para o home office? E os bancos? Estão prontos para compreender que é mais difícil controlar a jornada, que precisam levar em consideração a angústia de trabalhar à distância e solitário, a volta das doenças relacionadas ao esforço repetitivo (LER/DOR) e oferecer segurança na rede, ergonomia e compreender que cobrança de metas abusivas e assédio moral terão que ser erradicadas das práticas de gestão?

O bancário leva para a sua casa todas as obrigações e responsabilidades da atividade até então exercida fora de casa. O “novo normal” já faz parte do dia a dia, querendo ou não. Mas ele não pode vir acompanhado por afrouxamento de direitos, nem ser visto pelas instituições como a velha forma de explorar o trabalho e lucrar com o repasse de custo de energia elétrica, manutenção de computadores, de sinal de internet e outras despesas domésticas ao(à) trabalhador(a).

É certo que há muito o que aprender com o teletrabalho e sua importância para a superação da pandemia. Mas não são apenas os trabalhadores aqueles que precisam saber trabalhar e render mais em suas casas. Os patrões também estão neste barco.

 

 

Gilnei Nunes é diretor de Comunicação do SindBancários de Porto Alegre e bancário do Banrisul

 

 

Fonte: Sul21