Central Única dos Trabalhadores

Siderlei: A geração CUT perde um lutador – João Marcelo Pereira dos Santos

29 dezembro, terça-feira, 2020 às 8:49 pm

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Siderlei5

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Hoje nos despedimos de Siderlei, uma pessoa que dedicou sua existência à luta por direitos. Sei o valor que certos indivíduos representativos possuem para a classe trabalhadora e o quanto a apropriação coletiva da memória pode fortalecer a nossa identidade e a utopia que carregamos. O desencanto e a falta de sacralidade, que alimentam a burocracia sindical de ontem e de hoje, provavelmente encontrem explicação neste desleixo que temos pelas nossas histórias. 

No final do ano passado, iniciamos um trabalho de registro das memórias de Siderlei. A primeira pergunta que lhe fiz foi como tinha entrado no movimento sindical. Contou-nos que, depois de ter vivido um tempo com uma família rica, onde pode estudar, ler muito e conviver com livros, pois seu quarto de dormir era o lugar onde essa família guardava os livros, regressou para a casa dos pais. No convívio familiar, descobriu que o seu pai era envolvido com o Círculo Operário e com o sindicato. 

Empregado em uma indústria de alimentação, com apenas 15 anos, foi participar de uma assembleia do Sindicato da Alimentação de Carazinho. No meio da assembleia se deparou com uma disputa entre o presidente e o tesoureiro. O presidente espertalhão queria demitir o tesoureiro.

Percebendo que o tesoureiro era mais honesto, tomou a palavra pela primeira vez na assembleia em favor de alguém que estava resistindo aos desmandos e, desde então, nunca mais parou. “Eu tinha uma vantagem, sabia ler e falar”. Mesmo sem cargo, fui para a mesa das assembleias coordenar e fazer os registros e falar", lembrou Siderlei. 

Foi eleito dirigente sindical com 16 anos. “Legalmente não podia. Mas fui eleito”. Depois que se tornou dirigente sindical, se apresentou na empresa como delegado sindical. “Os patrões nem sabiam o que era isso, sabiam apenas que não podiam me demitir”.

Siderlei tinha dessas coisas, uma capacidade inventiva muito grande. “Daí me tornei delegado sindical na empresa. A primeira luta foi em torno do refeitório”. Segundo Siderlei, os trabalhadores comiam na marmita e faltava um lugar apropriado. "Lutamos e conquistamos o refeitório." 

Nesta primeira entrevista em Serafina Correa, na sede do sindicato da alimentação, Siderlei fez questão de destacar o papel que teve na formação de vários dirigentes sindicais, não só do Brasil, mas de outros lugares do mundo, através da UITA (União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação).  

Insistiu em me mostrar vários documentos, cadernos e programas de formação, muitos com aparência envelhecida, mas com o conteúdo de classe bem marcante. Para um historiador como eu, sensível à história da classe trabalhadora, esses papéis velhos são documentos preciosos. Dirigentes sindicais, quando quiserem jogar um “papel velho” fora, perguntem primeiro pelo significado histórico que ele contém. 

O fato é que o seu jeitão seco, incisivo e polêmico, escondia uma pessoa preocupada em transmitir o seu legado e formar pessoas para a luta. 

Já gozando de uma certa intimidade, formulei uma pergunta meio à queima roupa: Siderlei, me diga uma coisa, qual foi a coisa mais importante que você fez quando estava ainda no sindicato? PRESTEM ATENÇÃO NA RESPOSTA. “Lutei para fundir o sindicato da carne de Canoas, sindicato da bebida de Porto Alegre e o sindicato do trigo, milho e soja, ao qual eu pertencia. A dificuldade da fusão era que diziam que eu queria ser o presidente, que queria fundar um sindicato para mim. Eu disse a eles: me deem um cargo qualquer, não preciso ser o presidente. Me deram um cargo na direção só para não ser demitido da empresa. Meses depois teve eleições com o sindicato unificado e fui eleito presidente. Minha primeira tarefa foi liderar uma greve dos cervejeiros, uma greve de 19 dias”. 

Em uma hora de entrevista, Siderlei deixa lições extraordinárias. A primeira, temos que participar. A segunda, não basta ser dirigente sindical, é preciso ter representatividade no local de trabalho e muita criatividade. Terceira, é preciso formar consciência de classe e novas lideranças. Quarta, a estrutura sindical fragmentada é um perigo. Quinta, só a luta é capaz de conquistar direitos.  

No total são cinco horas de entrevistas transcritas em 50 páginas de uma pessoa que aprendi a admirar. Aqui não se trata de culto à personalidade. Através da história de vida de um dirigente como Siderlei, podemos seguir os passos de uma classe que carrega nos ombros o processo civilizatório de uma sociedade bárbara e explorada por uma elite que se deleita com a carnificina dos que tentam viver com o suor do próprio rosto. 

 

João Marcelo Pereira dos Santos é assessor da CUT-RS e doutor em História Social do Trabalho pela Unicamp.

 

Fonte: CUT-RS