Central Única de Trabalhadores

Servidão “voluntária” no Santander – Mauro Salles

9 maio, quinta-feira, 2019 às 8:24 pm

Comentários    Print Friendly and PDF

SONY DSC

SONY DSC

Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro; da mesma forma, pai, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto; maior despropósito que isso só mesmo a vileza do aleijão que, na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz.

Lavoura Arcaica – Raduar Nasse


O Santander, ao promover o trabalho aos sábados, utilizando o subterfúgio de trabalho voluntário para educação financeira, inova e traz à tona importantes questões às quais peço atenção, especialmente dos colegas bancários. Temos clareza que muitos colegas acreditam nos argumentos do banco e respeitamos suas posições. Todavia, pedimos uma reflexão mais aprofundada.

Trata-se de um programa gestado hierarquicamente o que, por si só, já carrega a carga de direcionamento para a ação. Inconscientemente, muitas vezes, não nos damos conta de nossas expectativas ligadas à carreira embutidas na decisão de participar.

Ora, quando gestores de alta hierarquia se dividem pelo país para “participar” (ou controlar) mostra que é uma iniciativa gerencial, de marketing, de busca de ganhar clientes. Não parece ser uma ação para ajudar as pessoas a não se endividarem. Com os juros e o spread praticado pelos bancos seria uma ingenuidade acreditar, né?

Em primeiro lugar, busca burlar a legislação, mais uma vez tentando subverter conquista histórica dos bancários de trabalhar 6 horas, de segunda a sexta-feira. Aliás, essa conquista ocorreu através de lei aprovada no congresso na década de 30 do século passado, cuja argumentação que justificou a medida era o alto índice de adoecimento dos bancários por problemas pulmonares e pela chamada psiconeurose bancária – mais atual do que nunca essa justificativa (atualmente substituiria os problemas pulmonares pelos problemas osteomusculares e somáticos e onde a questão psíquica está mais profunda).

Um segundo elemento é a justificativa de educação financeira como trabalho social relevante. Ora, educação financeira faz parte do trabalho diário dos bancários. Sabemos que, na prática, o trabalhador acaba por “deseducar” devido à pressão exercida pelo Santander que faz com que os colegas tenham de convencer os clientes a comprar produtos que não têm necessidade, realizar operação de crédito com juros draconianos e ainda pagar altas tarifas.

Sofrimento ético

Muitos colegas sofrem e mesmo adoecem com isso, pois gera um “sofrimento ético” por serem obrigados a fazer coisas que não acham certo. Portanto, é um paradoxo os bancos promoverem educação financeira e chamar de voluntariado.

Uma terceira questão preocupante é que muitos colegas acreditam que estão fazendo um trabalho efetivamente voluntário, um bem social. Os programas motivacionais da empresa são realizados de forma pensada. Ocorre, de maneira sutil, uma manipulação dos desejos, expectativas, carências. Isso faz com que o bancário introjete valores que vão contra seus interesses, uma verdadeira servidão voluntária.

Servidão não é liberdade

Engana-se quem pensa que a servidão é conduzida a tiros e ameaças! Muito pelo contrário, somos conduzidos à servidão imaginando que esta nos dará a liberdade. Somos seduzidos! Nos prometem a felicidade, a realização, o bem-estar e nós acreditamos. O presente de grego se abre na calada da noite. Imaginamos que, se nos esforçarmos, se fizermos tudo certo, um dia estaremos no alto também! Mas trata-se de um ledo engano.

A estratégia patronal é apostar no individualismo, no cada um por si, na tal meritocracia que não se materializa. Quem não viu colegas produtivos, batedores de metas, premiados, serem demitidos sem explicação?

Apostam na flexibilização total, sem regras para os negócios, mas com muitas regras para os funcionários, desde programas de metas e resultados sofisticados até o controle da aparência pessoal.

O elo mais fraco

As normas legais existem para regular a relação patrão-empregado uma vez que o poder maior está com o empregador e o trabalhador é o elo mais fraco. O Sindicato existe para lutar por avanços na regulação e por conquistas, mas também para fiscalizar os marcos legais. Individualmente o trabalhador fica desamparado, a mercê de imposições. Muitas vezes, não se dá conta do prejuízo que traz para si, sua família e seus colegas.

Também é importante alertar para o precedente perigoso que essa iniciativa traz para todos. Há muito tempo, setores patronais buscam ampliar a jornada de trabalho com a possibilidade de trabalho aos sábados e mesmo aos domingos.

Se a moda pega

Alertamos também que, se deixarmos a moda pegar, podem inventar uma nova modalidade de trabalho voluntário durante a semana onde o colega trabalharia mais duas horas diárias sem pagamento de horas extras. A falácia do voluntariado não respeita dia de semana. Mas, para a Lei, existem grandes diferenças: a jornada do bancário é de segunda a sexta. Horas a mais acima do contrato de trabalho têm que ser remunerada. Tem limites legais.

A servidão não permite a felicidade! Por motivos simples: ela é frágil, é a parte mais fraca da corda que sempre arrebenta. Na primeira crise, demissões em massa, no primeiro deslize, reprimendas e humilhações. No campo do poder, os amigos se mostram incertos, todos são suspeitos, todos querem puxar o nosso tapete! No reino do poder, os inimigos não nos mostram as caras, vivem sorrateiros, esperando o momento certo para nos derrubar!

Sede resolutos em não servir mais, e estereis livres

La Boetie, Discurso da Servidão Voluntária

 

 

Mauro Salles é secretário de Saúde do Trabalhador da Contraf-CUT e ex-presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

 

 

Fonte: SindBancários