Central Única dos Trabalhadores

Pacote de Marchezan: Nó em pingo d’água – Alceu Weber

27 julho, quinta-feira, 2017 às 1:45 pm

Comentários    Print Friendly and PDF

Weber CUT (2)

Weber CUT

O pacote de medidas apresentado na forma de seis projetos de lei à Câmara dos Vereadores de Porto Alegre pelo prefeito Nelson Marchezan Jr (PSDB), na última terça-feira (25), mais parece um “show de horrores”, demonstrando que não há diálogo quando se trata de tirar direitos de trabalhadores e usuários.

AMIGO DE AMIGO MEU

A proposta traz como pano de fundo a discussão da viabilidade do transporte público coletivo da Capital, onde busca, através de uma falsa sensação de “economia”, ampliar ainda mais a fatia concedida a empresários gananciosos, que não oferecem contrapartida alguma para os cofres públicos e a melhoria na qualidade dos serviços.

Devemos lembrar que somente neste ano os empresários do setor deixaram de contribuir com mais de R$ 18 milhões por conta de isenções em impostos municipais e isso sim é dinheiro a menos na saúde, educação e segurança do município.

Isso tudo sem mencionar as “vistas grossas” feitas pela EPTC no na fiscalização do não cumprimento de tabelas de horários, ao contrário do que alega a instituição que está autuando as empresas infratoras. É sabido por qualquer agente de trânsito de transporte que nunca em Porto Alegre qualquer empresário pagou alguma multa desse tipo.

Lamentavelmente, os donos das empresas de ônibus da Capital têm “autorização” para fazer o que quiserem e bem entenderem. E, pior, com anuência do poder público. Neste ano, cerca de 10% do que foi planejado em matéria de viagens regulares não foram cumpridas.

Na prática são ônibus que deixaram de sair de fins de linhas, implicando em veículos superlotados em horários de pico, causando longo tempo de espera pelo usuário nas paradas, o que faz com que simplesmente não cheguem nos horários e, quando chegam, não se consegue embarcar.

A título de expor o que significam essa prática desleal com os usuários e a sociedade, em cálculo simples, é possível apontar uma economia de mais de R$ 200 milhões nos últimos seis meses com a passagem a R$ 4,05 em favor dos empresários.

ENXUGANDO GELO

Os problemas do transporte coletivo da Capital são causados basicamente por esse sistema, que apenas beneficia as empresas e ainda premia o mau administrador.

Não há outro caminho viável, senão, a reestruturação do sistema. O atual modelo, onde linhas concorrem entre si e apenas se faz remendos operacionais, encontra-se no limite. A cada elevação no valor da passagem, menos passageiros aderem ao sistema, isto é, ocorre algo autofágico, beirando o “canibalismo”.

Se, de uma maneira séria, não colocarmos à disposição da sociedade a discussão do transporte coletivo e suas formas de custeio, a tendência é a falência deste tipo de serviço, que deve ser o guarda-chuva principal na ótica da mobilidade urbana de um grande centro metropolitano, como é Porto Alegre.

TRANSFERÊNCIA DE RESPONSABILIDADE

Não podemos permitir que tais medidas superficiais e maquiadas previstas nos projetos de Marchezan ganhem êxito junto aos vereadores, que devem rejeitá-las, uma vez que de longe não resolverão os problemas existentes.

Para melhorar esse importante meio de transporte público, o prefeito deveria iniciar uma série de discussões, chamando os cidadãos a participar de algo mais concreto e efetivo. Não há solução rápida para um problema histórico, como a perda de passageiros no sistema, que se resolva com retiradas de direitos e postos de trabalho.

Ao contrário, essas medidas apenas contribuem para aumentar a insegurança e a violência crescente no transporte coletivo, fato esse que apenas implicará na crescente elevação de tais custos e, com isso, numa passagem cada vez mais cara e num sistema menos inclusivo e mais precarizado.

 

 

Alceu Weber é funcionário da Carris, diretor da CUT-RS e representante da CUT-RS no Conselho Municipal de Transporte Urbano (COMTU) de Porto Alegre

 

Fonte: CUT-RS