Central Única de Trabalhadores

Nós estamos aqui – André Simas Pereira

5 julho, sexta-feira, 2019 às 11:37 am

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André

André

Entre todas as manifestações da futura presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, Vera Daisy Barcellos, hoje pela manhã, na sede da entidade que ela chama de 'nossa casa', a que, digamos, gritou mais fundo na minha alma foi esta frase: nós estamos aqui!

Soou como um slogan de campanha – não a nossa, eleitoral- mas da vida desta mulher de 70 anos, avó da Lívia, filha de empregada doméstica, negra, que lutou toda a existência e jamais desiste diante de todas as duras dificuldades que a sociedade hipócrita impõem predominantemente às mulheres, aos negros, aos mais necessitados, aos excluídos de sempre.

Evidentemente, Vera não se referia à saga pessoal, que divide nos últimos 39 anos com Ricardo, ali, aquietado no orgulho da guerreira. Ela estava aludindo à notável resistência da gestão dos dois últimos anos, presidida pelo Milton Simas e pela vice Laura Santos Rocha, que ela integrou ativamente, mesmo não sendo da diretoria executiva.

Com a contrarreforma trabalhista extinguindo contribuições e conquistas históricas, o avassalador boicote empresarial financeiro encabeçado pela RBS e a impávida alienação dos jornalistas que chamam patrões de colegas, o sindicato foi devastado por um turbilhão de danos – econômicos, sobretudo. 

Descobriu-se, simultaneamente, que a prática sindical de terceirizar totalmente a gerência administrativa para funcionários afeitos a manejar números dos quais jornalistas fogem assustados, tinha sido uma praxe de triste resultado. À baixa arrecadação juntaram-se dívidas que acumularam-se, estrondosas, impagáveis. Sim, foi nos cobrado o preço da nossa incompetência administrativa.

A entidade precisou demitir funcionários, interromper a circulação do jornal Versão, cortar despesas corriqueiras, eliminar viagens institucionais,colocar imóvel de delegacia do interior à venda e extinguir, pela primeira vez, a verba mensal de representação do presidente. Aliás, em inusitado pioneirismo, Vera deverá ser a primeira presidenta, ao longo da história do sindicato, que assume o cargo sem remuneração do órgão empregador que libera dirigente sindical. Depois da outra Vera, a spolidoro, é a segunda mulher no posto.

Alguns condoídos "companheiros", que apressaram o diagnóstico do afundamento inexorável do barco, saltaram como ratos encharcados de esgoto e escafederam-se definitivamente.

Apostava-se, então, no fechamento do Sindjors, após 72 anos de trajetória na defesa da ação coletiva em favor dos trabalhadores no jornalismo gaúcho.

Vera Dayse

Por isto, o esforço teve que ser redobrado principalmente na análise das contas, no controle dos gastos e na potencialização da arrecadação cada vez mais minguada, alimentanda também pela evasão de associados. (Dos cerca de 400 funcionários da RBS apenas oito ou nove seguem sindicalizados, como disse Vera hoje).

Ao longo deste ano, todas as reuniões de diretoria, iniciadas invariavelmente com a prestação de contas feita pelo Jorge Correa (que assumiu o posto acéfalo de tesoureiro) foram desgastantes e exaustivas e, por vezes, marcadas por opiniões divergentes porque ninguém é dono da verdade nem capaz de soluções milagrosas. O 'novo' sindicalismo oriundo desta triste situação política e econômica vai ter que ser vertebrado por muito trabalho, determinação e protagonismo dos trabalhadores.

Além de tudo, o cenário estrutural dos governos Temer e Bolsonaro não podia ser pior: o país padeceu ainda mais com a democracia violentada pelos golpistas e com a ética jornalistica fustigada continuamente pelas fake news, exigindo posicionamento claro sobre o lado que estamos.

Assim, apesar de tudo, o sindicato não fechou.

E, agora com a liderança da Vera, a luta adversa seguirá valendo a pena se todos os candidatos às diretorias e conselhos que hoje estiveram na apresentação da chapa e fizeram uma brincadeira recorrente da data de formatura universitária ocorrida majoritariamente no século passado – estiverem, de fato, juntos ao seu lado – não na comodidade das redes sociais nem na bravura indomável dos pitacos via whats app.

Como Vera bem disse: nós estamos aqui.

 

André Simas Pereira é diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul

 

Fonte: CUT-RS