Central Única de Trabalhadores

Basta de feminicído – Lucilene Binsfeld (Tudi)

11 fevereiro, quinta-feira, 2016 às 12:51 pm

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Todos os dias, 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Quase sempre, essa morte revela um rastro de sofrimento, humilhação e dor que vem crescendo no país ano após ano.

Dados do “Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil” apontam que, entre 2003 e 2013, o número de mulheres assassinadas cresceu 21%. Entre as negras, o aumento chegou a 54% nos mesmos 10 anos.

Nesta semana, um número dentre milhares dessa estatística abalou o mundo sindical: Francisca das Chagas Silva, 34 anos, trabalhadora rural, negra e dirigente sindical, foi encontrada morta na cidade de Miranda do Norte, no Maranhão.

A morte de Francisca é um retrato da forma com que muitas mulheres de luta são tratadas no Brasil. O corpo sem vida foi encontrado em meio à lama, nu, com sinais de violência sexual e repleto de perfurações. Uma cena que materializa o quadro de desrespeito aos direitos das trabalhadoras e à violência que diariamente bate à porta das brasileiras.

Nessa luta, estamos em desvantagem. Foi somente em 2015 que foi sancionada a Lei 13.104, a chamada Lei do Feminicídio. Depois de centenas de mortes e de décadas de violência, o assassinato de mulheres ganhou nome e definição penal: tornou-se crime hediondo.

Francisca era trabalhadora rural em um dos estados com maiores índices de violência no campo. Também em 2013, somente no Maranhão foram registrados 175 conflitos relacionados à luta por terra e por água e incidência de trabalho escravo na área rural, conforme dados divulgados pela CUT e pelo Instituto Observatório Social no estudo Índices de desenvolvimento regional. No ano estudado, o Maranhão liderou o número de conflitos e esteve entre os estados com maior número de assassinatos no campo.

Francisca nasceu no Brasil, país que ocupa a 5ª posição no ranking de 83 países avaliados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a violência e o assassinato de mulheres. Segundo a OMS, em cada 100 mil brasileiras, 4,8 são assassinadas todos os anos. A taxa é 48 vezes maior que a registrada no Reino Unido, e mancha de sangue a imagem do país na comunidade internacional.

Nessa marcha de passos lentos, nós, mulheres, não podemos baixar a guarda. Temos a consciência de que muitas Franciscas ainda pagarão com a vida o preço de nossa luta por igualdade de direitos, por respeito e por dignidade. Mas precisamos enxergar em todas essas Franciscas uma inspiração. A morte de Francisca não pode ser esquecida e não será em vão.

 

Lucilene Binsfeld (Tudi) é diretora nacional da Contracs-CUT e secretária-geral do Instituto Observatório Social

 

Fonte: CUT Nacional