Central Única de Trabalhadores

As vidas nas favelas importam – Virgínia Berriel

29 junho, sexta-feira, 2018 às 10:53 pm

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Virgínia

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A violência no Rio de Janeiro tem sido motivo de um Rio de lágrimas e dor, dor que não dá para explicar. Porque não se explica o tamanho da morte, o dano causado por ela a uma mãe, a um pai, a uma família, não tem tamanho, não tem preço, é para sempre. E nesse Rio que transbordam lágrimas de dor e de sangue, a favela grita. Nos silêncios a favela grita, nos gritos o chão está manchado de sangue. O sangue de tantos meninos, meninas, jovens, mulheres e homens não tem mais como ser limpado, ele está impregnado no chão do Rio.

Um Rio lindo e triste, um Rio que deveria ser motivo de orgulho tamanha a sua beleza, mas a sua população está em pânico, vive de forma acelerada e com medo. A favela: um território onde esse medo não tem limites, onde a morte ronda diuturnamente. As pessoas que vivem nas favelas, que já são excluídas naturalmente de uma vida digna, por falta de políticas públicas e de respeito, desde a Intervenção Militar Federal, tornou-se com as operações das polícias Civil, Militar e Exército, um território onde a barbárie, o extermínio, as chacinas, viraram rotina.

As operações mais parecem operações de guerra, além dos carros blindados, os caveirões em solo, mar, tem também o caveirão aéreo, uma máquina com sua metralhadora aleatória, que atira de cima para baixo, atingindo casas, carros e as pessoas.

A quantidade de tiros não dá pra contar, barbárie mesmo. As operações na Rocinha, Coroa, Pavão Pavãozinho, Cantagalo, Maré, Mangueirinha, Chapadão e tantas outras tem sido um desastre, tem sido para matar os pobres, os pretos e favelados. Tem sido para aumentar o terror e a dor, tem sido por desrespeito e para mostrar que a vida não vale nada, num estado abandonado por governos estadual e municipal, que são golpistas, sem crédito e imorais.

Os relatos de desmandos, arbitrariedades, espancamentos, destruição e roubo de bens das residências são vários e tantos outros não são denunciados. O número de mortos só quem os tem são as famílias que perderam seus entes, nas estatísticas oficiais eles não figuram com exatidão, simplesmente porque quando as operações acontecem, nos hospitais muitos corpos que dão entrada são caracterizados como causa de morte “natural”. As famílias, muitas vezes se calam e consentem por medo e não é medo de qualquer coisa, é para garantir a vida.

A Intervenção Militar no Rio não resolve o problema da violência, muito pelo contrário, a Intervenção é uma violência desproporcional e explícita que está esmagando vidas, sonhos e esperança. A violência explodiu e tomou conta das favelas após a intervenção, os índices de mortes triplicaram. Vivemos uma guerra sem trégua. Muitos moradores abandonaram suas casas, tantos outros estão doentes, vidas sob terror intenso não aguentam, os diversos distúrbios se alastram.

Os Governos Federal, Estadual e Municipal são cúmplices e responsáveis diretos pela barbárie instalada no Estado do Rio de Janeiro e pelo sangue deixado por cada um que foi apagado, sendo ou não culpado e pelos inocentes. Aqueles que são culpados devem pagar pelos seus crimes através da Justiça.

Os tiros que são dados nas favelas, que tiram a vida de meninas e meninos pobres, que em alguns casos, estavam dentro de casa brincando ou dormindo tem que nos incomodar, tem que incomodar quem mora no asfalto, quem mora bem. Os tiros nas favelas precisam ser ouvidos por todos nós. E nós, da favela e do asfalto, temos que nos juntar, resistir e lutar para dar um basta a tanta violência.

As vidas nas favelas importam, a sua vida, a minha vida, as vidas pretas, as vidas brancas importam. As vidas de Marielle Franco, de Maria Eduarda, de Paulo Henrique, de Vanessa Vitória, de Marcos Vinícius e de tantas outras crianças importam. As vidas importam sim, importam muito.

Basta de violência!

 

 

 

Virgínia Berriel é diretora executiva da CUT Nacional

 

 

 

Fonte: Brasil 247