Central Única de Trabalhadores

Acordo em Minas enterra choque de gestão tucano que destruiu educação pública – Beatriz Cerqueira

8 junho, sexta-feira, 2018 às 7:16 pm

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Bia Cerqueira

Bia Cerqueira

Quando os colunistas da Revista Veja escrevem sobre educação pública, eles sabem do que estão falando? Conhecem a nossa realidade? Sabem de fato o que está nos nossos contracheques? Abandonariam a escola particular, de mensalidades superiores aos nossos salários, e colocariam seus filhos na escola pública?

Acabo de ler artigo do colunista Reinaldo Azevedo sobre o acordo assinado, no último dia 15 de maio, pelo Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE MG) e o Governo do Estado.  Para ele tudo não passa de estratégias petistas que nada têm a ver com a educação e só tem o objetivo de constranger “bons gestores” como Beto Richa e Geraldo Alckmin. Vou ajudá-lo a conhecer a realidade.

Começo convidando-o a vir à Minas Gerais, entrar numa escola estadual e conversar com um professor, qualquer escola, qualquer professor. Vai descobrir que o PSDB, com o seu modelo de choque de gestão, destruiu a educação mineira. Vai descobrir que os indicadores de qualidade divulgados, dando a ideia de que Minas Gerais tem a melhor educação do país, eram manipulados. Vai descobrir que o sistema de registro dos alunos impedia que o professor registrasse a verdade sobre o estudante em função do seu desempenho.

Vai descobrir também que os alunos não tem onde comer, porque a maioria das escolas não tem refeitório.  Faço o convite para que os colunistas que escrevem sobre escola pública matriculem seus filhos em escolas que funcionam em motel desativado ou em posto de gasolina. Podem escolher.

Lutamos para receber um salário, que deve ser o valor que suas esposas gastam com bolsas de marcas. Embora seja lei federal, lutamos há sete anos para receber os reajustes do Piso Salarial Profissional Nacional, pois os governadores Aécio Neves e Antonio Anastasia poderiam ter cumprido a lei, mas não o fizeram. Receberemos isso pela primeira vez a partir do acordo que assinamos na atual gestão. Por aqui, por enquanto, quem tem mestrado recebe como se tivesse apenas licenciatura curta e quem é pós-graduado recebe como se tivesse apenas nível médio de escolaridade.  Apresentamos, incansavelmente, a reivindicação para que isso se modificasse. Conseguimos agora descongelar a carreira.

Estávamos proibidos de comer na escola, mas tenho certeza que nunca faltou aos colunistas o cafezinho e o biscoito amanteigado!

Na rede estadual são 2/3 de profissionais com vínculo precário, embora a constituição do estado determine que o ingresso no serviço público se dê por concurso, mas começamos a mudar isso com 60.000 mil nomeações. Com a grande experiência que devem ter, devem acreditar que esse negócio de concurso é coisa do passado, que o legal é terceirizar e contratar professor como pessoa jurídica.

Na verdade, o artigo tem o propósito de defender o indefensável: Beto Richa do Paraná e a forma como trata os professores. Mas se serve de consolo, aqui em Minas já respiramos gás lacrimogêneo. Aqui, policiais militares já despejaram gás de pimenta em nossos corpos. Por aqui, também já fizemos meses de greve por uma miséria de Piso salarial, cujo valor deve ser um jantar de fim de semana nos bons restaurantes que frequenta.

Ficamos 4 meses com corte de salários, sobrevivendo da solidariedade alheia, sendo humilhados e achincalhados por pessoas que, como vocês, acham que educação não é direito, é bem de consumo.  Pra vocês a educação pode ser qualquer coisa, de qualquer jeito, porque é para a classe trabalhadora.  A elite não se contenta em ter, precisa impedir que os trabalhadores disputem o orçamento público, a prioridade de gestão.

Se fosse um acordo com a Fiemg ou com as empreiteiras ou mineradoras estaria tudo na devida ordem, mas acordo com trabalhador? Enquanto os “bons governadores” espancam professores e destroem a escola pública o governo de Minas muda 70% dos salários, parece impensável mesmo!

Também deve incomodar a nossa luta contra a invisibilidade que os governos tentam nos impor. Incomodamos a casa grande quando lutamos com a nossa memória de não esquecer a mão que segura o chicote e a nossa rebeldia de não aceitarmos permanecer restritos a senzala. Aí o sindicato, que é a forma de organização do trabalhador, merece especial atenção para ser atacado e a luta coletiva desqualificada. A alienação do trabalhador serve bem ao sistema. Na crítica somos meros coadjuvantes, desconhecendo os anos de lutas que travamos no estado para mudarmos a realidade. Estas críticas mostram que estamos no caminho certo. O dia que formos elogiados por vocês, será motivo para que a classe trabalhadora fique preocupada com os rumos da luta.

Por fim, faço o convite à todos que gostam de escrever sobre escola pública. Venham a Minas Gerais e vivam por um mês com os salários pagos, herança maldita do PSDB. Façam a grande descoberta de suas vidas: descubram o que é escola pública!

O que assinamos no dia 15 de maio, não foi por bondade de governo, foi resultado de anos de luta. E continuamos mobilizados! Este documento foi o começo da recuperação do que perdemos na última década.  Aqui em Minas a pauta da educação se transformou na pauta dos movimentos sociais. Não lutamos sozinhos, e isso causa ainda mais medo na casa-grande!

 

 

Beatriz Cerqueira é professora e presidenta da CUT Minas Gerais

 

 

Fonte: CUT Nacional