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A Conferência Internacional de Direitos Humanos e o combate ao racismo no mundo – Rosana Fernandes

30 julho, terça-feira, 2019 às 7:24 pm

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Rosana Fernandes

Rosana Fernandes

Durante os dias 20 a 25 de julho aconteceu a 18ª Conferência Internacional de Direitos Humanos e Civis, em Minneapolis, Minnesota, EUA, realizada pela Confederação de Trabalhadores, a Unity and Strength four Workers-USW, que representa trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá, com a participação de 580 delegadas e delegados.

A conferência é realizada a cada três anos e representa o combate ao racismo nos Estados Unidos desde a luta de Martin Luther King e direitos sociais.

O título da Conferência neste ano foi "Não nos impeça agora! Caminhemos juntos”. Além do racismo, outros temas centrais foram amplamente debatidos nesses cinco dias, como a participação das mulheres, preconceito com os LGBTQ+ e a situação dos imigrantes no país.

Com participação de delegações internacionais, como dirigentes do Reino Unidos, e do Brasil, representados por Almir Aguiar, secretário de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro e Rosana Fernandes, secretária adjunta da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo da CUT-Brasil.

O secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT, Almir Aguiar, falou que a realidade de uma parcela da população americana não difere da população negra brasileira, discriminação, salário menores que os brancos, e principalmente a violência policial, que persegue e mata pessoas, principalmente pela cor de sua pele, mais os debates deixaram bem claro que os trabalhadores estão organizados pelos direitos sociais, com políticas de negociações e enfrentamentos.

Representação Importante

A Conferência contou com a participação de Keith Maurice, que foi deputado e atualmente é o Procurador Geral do Estado de Minnesota. Keith criticou o Partido Democrata, segundo ele, um dos fatores do insucesso nas eleições, foi o afastamento das bases, e ter se aproximado somente no ano eleitoral. Ele destacou que, quem mais fez pelos Direitos Humanos, não foi o governo e nenhum bilionário americano, mais sim as lutas dos sindicatos e dos trabalhadores por melhores acordos. Deu exemplos dos refugiados Somalios que trabalham na Amazon que lutaram e levaram a empresa a mesa de negociação.

O governador de Minnesota Tim Walz, participou da conferência e destacou  da importância dessa realização, disse que é fundamental a luta por direitos sociais, e alertou que muitas pessoas saem para trabalhar pela manhã e no final do dia, não sabe se tem seus empregos, disse que está contratando fiscais do trabalho para garantir um trabalho decente, garantindo direitos, e os empresários que burlam deveriam ser presos, e que a justiça social esta conectada com os direitos humanos e direitos civis.

A procuradora Marilyn Mosby, da cidade de Baltimore indiciou em 2015, seis policiais pela morte do jovem negro chamado Freddie Gray. Disse que o número de presos negros nos Estados Unidos é maior que presos brancos e 30% dos jovens negros americanos vivem abaixo da linha da pobreza, que não podemos ser complacentes com o encarceramento em massa da população negra. “A realidade brasileira é assustadora o Brasil tem a terceira população carcerária do mundo, são mais de 750 mil “Presos e 64% são pessoas negras, os dados mostram que dois terços da população carcerária são negras”, diz Almir Aguiar.

Participação Brasileira

Nossa participação e dos dirigentes do Reino Unidos, foi no “Workshop, Fighting for Worker” Rigths in the Global Economy, Almir Aguiar disse aos participantes que o Brasil tem um histórico de discriminação, que reflete no trabalho e na vida social fruto de um período escravocrata que se reflete até os dias atuais. Almir informou que o presidente Lula foi o que mais fez para a população negra e pobre do país, tirou mais de 40 milhões de pessoas da extrema pobreza, incluiu negras e negros nas universidades, criou a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, que é uma instituição de ensino superior pública federal brasileira, sediada na cidade de Redenção, no estado do Ceará.

Redenção foi escolhida por ter sido a primeira cidade a abolir a escravidão no Brasil, com muitos alunos brasileiros e africanos, a maior parte dos beneficiários do Bolsa Família e do projeto minha Casa Minha Vida, oriundos da população negra, por isso que o Lula foi preso, por contrariar as elites e as denúncias do Intercept Brasil comprovam sua inocência e conluio de juiz Sergio Moro, com procuradores. Almir relatou a luta histórica do movimento sindical bancário por igualdade e oportunidades, que no 2000 a Confederação Nacional dos Bancários encomendou uma pesquisa ao DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) com foco em gênero e Raça.

O resultado fez com que o movimento sindical bancário acionasse o Ministério Público do Trabalho que tentou fazer um Termo de ajustamento de conduta com os bancos.

Em 2008 e 2009, depois de muitas pressões e negociações os bancos realizaram o censo da diversidade, o movimento sindical participou na divulgação e aplicação de um questionário que envolveu 204.794 bancários de todo Brasil. Neste mesmo ano conseguimos incluir uma cláusula na Convenção Coletiva assegurando a isonomia de casais do mesmo sexo no plano de saúde dos bancários.

Mais a realidade ainda é cruel, são poucos negros na categoria, são poucos em cargos de comando, quase nenhum em cargo de direção, as mulheres, em especial as mulheres negras são discriminadas e a cor da pele é um empecilho para ascensão profissional.

Hoje estamos discutindo o terceiro Censo da Diversidade, num outro formato, criamos o agente da diversidade, em cada agência e departamento nos bancos, terá uns funcionários treinado para fazer o debate contra o preconceito e a discriminação.

Rosana Fernandes destacou que, o ano de 2019 tem sido um ano de luta e resistência. O Brasil teve a mais longa escravidão do mundo. Foi o último país a botar fim a esse regime e instituiu há exatos 130 anos, que em tese acabou com a escravidão, e que o racismo é o projeto político e ideológico que congela mulheres e homens negros na base da pirâmide social brasileira.

Para Rosana, a reforma trabalhista de Temer, perpetua lógica da escravidão e impõe às mulheres negras as piores formas de trabalho agravando ainda mais desigualdades contra mulheres negras que são a parcela da população que mais sofre com a falta de proteção do direito do trabalho, a desigualdade salarial e o desemprego.

De acordo com recente pesquisa, 34% da população negra (pardos e pretos) consideram a gestão ruim ou péssima, e ainda 33% o veem como regular. Esta é a pior avaliação de governo entre os presidentes eleitos para um primeiro mandato desde a redemocratização de 1985.

Marcha nos EUA

Impressões sobre a Conferência

“Tivemos uma grande oportunidade de trocar experiências com companheiros de três outros países, EUA, Canadá e Reino Unido, países que estão sofrendo com o avanço da direita, com a falta de perspectiva para o avanço de políticas públicas e sociais. Mas o que ficou mais claro, foi como os governos de direita penalizam e perseguem a população negra e os imigrantes, chegando a separar as crianças de suas famílias quando cruzam as fronteiras, em especial dos EUA. Por isso é cada vez mais importante que possamos construir políticas em comum, que garantam uma vida digna para a população negra, em qualquer país onde ela estiver construindo sua história”, disse Rosana Fernandes, secretária adjunta de Combate ao Racismo da CUT.

O debate em relação aos imigrantes foi impactante, a discriminação e abusos por parte das autoridades americanas impressionam devida a tamanha truculência.

São crianças separadas dos pais, são colocados em espaços semelhante a campo de concentração e casos de prisões de até imigrantes legais, pois a lei americana diz que se o trabalhador se afastar por mais de dez dias se justificativa. São também demitidos por justa causa, então a polícia prende o imigrante, e sem emprego eles sofrem ações para serem deportados.

Os participantes fizeram uma passeata até a prefeitura de Minneapolis para denunciar esses abusos, mas a luta sindical tem sido importante. E posso afirmar o quanto foi produtivo esta conferência.

 

Rosana Fernandes é secretária adjunta da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo da CUT Brasil.

Almir Aguiar é secretário de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT)

 

Fonte: CUT Brasil