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Para Olívio Dutra, “foi a Ford que perdeu o Rio Grande do Sul”

5 dezembro, segunda-feira, 2016 às 11:43 am

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04p7f01DESCRIÇÃO: Ex- governador Olívio Dutra.

04p7f01 DESCRIÇÃO: Ex- governador Olívio Dutra.

O ex-governador Olívio Dutra concedeu uma longa entrevista sobre o episódio da saída da Ford do Rio Grande do Sul. Ele carregou por uma década e meia o fardo da acusação de ser o homem que teria atrasado o progresso do Estado quando estava à frente do Palácio Piratini. “Mandou a Ford embora”, diziam seus adversários políticos, ao mencionarem o caso da tortuosa negociação entre a gigante automotiva e o governo empossado em 1999.

Hoje, pressionada pela possibilidade de uma decisão contrária a seus interesses, a empresa aceitou fazer um acordo judicial para devolver R$ 216 milhões aos cofres gaúchos, definindo um desfecho notável para uma das histórias políticas mais polêmicas dos últimos anos no Rio Grande do Sul, sobre a qual o próprio ex-governador faz revelações em entrevista ao Correio do Povo, publicada na edição do último fim de semana do jornal.

Leia a íntegra da entrevista:

CP: Como foi quando o senhor chegou no Piratini e deparou com esse contrato como estava posto para o Estado?

Olívio Dutra:
 Bueno, temos que lembrar que nós fizemos uma campanha na eleição, com uma afirmação constante de um projeto que queria recuperar o Estado para suas funções básicas. Não um Estado mínimo, nem um Estado máximo. Mas um Estado não fatiado pelos interesses privados. Um Estado sob o controle público. Esse foi o mote da nossa campanha. Nós sabíamos que o dinheiro público é escasso. E sendo escasso ele não pode ir para quem menos precisa.

CP: O que era problema na negociação entre a Ford e o Estado?

Olívio Dutra:
 Havia dois grandes problemas. O primeiro era a renegociação da dívida que retirou do Estado fontes importantes para geração do desenvolvimento. Ora, então, se não tinha recursos para essas coisas básicas, fundamentais, como é que nós iríamos passar para a indústria automotiva o que havia sido tratado com o governo anterior. Por isso, nós tratamos de chamar as empresas que se instalavam no estado, General Motors e Ford, para conversar. Passamos, no primeiro mês, recursos enormes. No segundo, não tinha de onde tirar. Se o Estado não tem esses recursos que foram acordados pelo governo anterior, vamos tratar outros termos, porque nos interessa, sim, a presença da indústria, mas não naqueles termos.

CP: Quais termos?

Olívio Dutra:
 Eram 29 ou 30 cláusulas no contrato. Uma delas era a obrigação da Ford com o Estado. As demais todas eram obrigações nossas com a Ford. O Estado tinha que fazer praticamente tudo, no entorno, repassando recursos que não teria. Não dava para dar cumprimento àquilo que o Estado não podia suportar. A GM aceitou conversar.

CP: A Ford, não?

Olívio Dutra:
 Havia algo estranho. A Ford mantinha tratativas com as pessoas do governo anterior. Tinha apoios na Assembleia Legislativa, de representantes que faziam nossa oposição. Da bancada gaúcha na Câmara federal. Da União. Era um ambiente político muito adverso à execução do projeto que nos levou a ganhar a eleição. Mesmo assim, fomos dizendo: temos que renegociar. Nós mantivemos firmeza, mas não se propuseram a mexer em nada, enquanto que a General Motors possibilitou uma redução de mais de R$ 100 milhões para sua permanência. A Ford tinha um certo desprezo pelo governo eleito.

CP: Na sua visão, ocorreu um choque entre as concepções de projetos?

Olívio Dutra:
 Evidentemente, tem diferença entre concepções. Nós tínhamos uma concepção de desenvolvimento que não é com base num único ramo de produção. Era pela diversificação da base produtiva, valorização das vocações locais e regionais, das micro, pequenas e médias empresas, distribuídas no espaço econômico, geográfico, social e político do Rio Grande.

CP: Essa colisão de concepções ocasionou prejuízos para o Estado?

Olívio Dutra:
 O Rio Grande cresceu acima da média nacional nos quatro anos de governo da Frente Popular. Isso está nos registros da Fundação de Economia e Estatística.

CP: Quando a instalação da Ford foi anunciada pelo governo da Bahia, como foi a reação das pessoas no seu governo? O senhor temeu que fosse ainda mais criticado?

Olívio Dutra:
 Nunca pensei nisso. Ora, convenhamos. Na verdade, era uma disputa entre o então governador aqui, outros governadores do mesmo partido e do próprio presidente da República para ver quem dava mais favores para esses grupos. Existia um acordo para a instalação dessas empresas na região do Mercosul, envolvendo Brasil e Argentina. Fernando Henrique Cardoso rompeu unilateralmente esse acordo e estendeu esse território que era delimitado, levando para o Nordeste, com mais vantagens para a Ford do que ela já tinha absurdamente conseguido com o governo anterior no Rio Grande do Sul. Ir para a Bahia? Tudo bem. Que bom. É o desenvolvimento do Brasil, não é?

CP: Em nenhum momento o senhor considerou isso como uma perda?

Olívio Dutra:
 Não foi o Rio Grande que perdeu a Ford. Foi a Ford que perdeu o Rio Grande. O Estado se desenvolveu acima da média nacional sem a Ford. A General Motors ficou, com a redução de mais de R$ 100 milhões para sua permanência. Os executivos da GM, que souberam negociar, foram promovidos pelos seus superiores, enquanto que a direção internacional da Ford destituiu todos os dirigentes que não tiveram a capacidade de negociar. Essa história não circulou nunca por aqui. Aqueles caras que representavam a Ford aqui demonstraram total incapacidade, foram desrespeitosos com o governo eleito, incapazes de vislumbrar algo diferente, encontrar alternativas.

CP: Mas e os empregos?

Olívio Dutra:
 Diante da renúncia fiscal e os investimentos públicos que exigiam, criariam uma merreca de empregos. É emprego direto, indireto, interplanetário…

CP: Como funcionava este tipo de isenção tributária naquela negociação?

Olívio Dutra:
 Tem uma pressão para que a grande empresa se instale aqui. Tem que renunciar de receber impostos por tanto tempo. Termina aquele tempo, elas vêm para renovar a renúncia.

CP: O senhor ainda acredita ter tomado a decisão correta?

Olívio Dutra: Penso que a nossa decisão de ter seguido aquela postura, com firmeza e com transparência, colocou na prática uma visão republicana. O Estado não é propriedade do governante, dos seus amigos, partidários, e muito menos dos grupos mais influentes e mais poderosos econômica e financeiramente. O Estado tem que ter o controle público efetivo. Daí a ideia do Orçamento Participativo, que avançou bastante, mas não o suficiente. O Estado tem que ser capaz de atender às demandas fundamentais para a qualificação da vida da maioria da população. Tem gente que tem dinheiro e qualidade de vida suficiente até para desprezar o Estado, mas a maioria do povo precisa de um Estado funcionando transparentemente para atender o interesse público, coletivo, não o interesse individual.

O Estado está sempre em disputa, nas dimensões federal, estadual e municipal, e essa disputa tem que ser resolvida democraticamente. Não é estreitando o espaço de participação da cidadania que nós vamos ampliar o controle público do Estado. Cada cidadão e cidadã tem que ser sujeito e não objeto da política. Então, o Estado brasileiro está longe ainda de andar sob esse controle efetivamente público. É mais uma cidadela dos interesses dos mais poderosos, dos mais influentes, que se encastelam por dentro dos mecanismos do Estado, nas três dimensões

CP: O senhor sente que modificou essa lógica quando atuou na questão da Ford?

Olívio Dutra:
 Nós começamos, evidentemente, a semear essa mudança. Porque mostramos que o Estado não dependia dessa empresa ou de qualquer outra grande empresa para progredir. Mostramos que o Estado se desenvolveu de forma mais parelha, desconcentrada e descentralizada. Gerou mais empregos e também aumentou a renda dos trabalhadores. Na administração pública, diminuímos a distância entre os mais altos salários e os mais modestos, reajustando os mais altos pela inflação e os mais baixos um pouco acima. Porém, longe ainda, digamos, de uma estrutura justa.

CP: O senhor sempre acompanhou o processo judicial ou apenas se informava quando havia alguma notícia divulgada na imprensa?

Olívio Dutra:
 Claro que acompanhava, permanentemente, mesmo quando saímos do governo. Sempre estivemos em cima. Eles foram recorrendo até a última instância. Aliás, tinham que pagar mais de R$ 1 bilhão, na verdade. Mas o atual governo está passando por necessidades, fez esse acordo e, de novo, a multinacional ganhou, mesmo perdendo.

CP: Como o senhor se sentiu ao saber da decisão da Justiça?

Olívio Dutra:
 Primeiro eu me lembrei do companheiro Zeca Moraes, que foi nosso secretário de Desenvolvimento. Ele faleceu antes do desfecho que nós entendíamos que seria o desfecho. Ele merecia estar presente nessa dimensão da vida. Evidente que vai ficar ainda um bom tempo repercutindo. É uma visão de mundo e nossa visão de mundo não precisa ser necessariamente aceita por outros. Vai ter sempre quem diga: o Olívio mandou a Ford embora, por impertinência, mas…

CP: A Justiça está feita ou ainda há coisas por serem contadas nessa história da Ford com o Estado?

Olívio Dutra: Eu acho que sempre tem o que contar. Tem papéis de figuras, de instituições, clima político, conjunturas. Tem um capítulo interessante aí, de embate político e visão de desenvolvimento.

CP: O senhor já pensou em escrever essa história para deixar registrada, em um livro, por exemplo?

Olívio Dutra:
 Eu até acho que tenho esse dever, mas eu não me imponho isso. Mas quero que haja respeito à postura republicana e transparente de um governo democraticamente eleito pelo povo gaúcho. Decisão essa que não fez mal ao Rio Grande. Pelo contrário, possibilitou o desenvolvimento desconcentrado, descentralizado, mais parelho.

 

 

Fonte: Luiz Sérgio Dibe – Correio do Povo