Central Única de Trabalhadores

“Ocupar, resistir e produzir”: Um novo modelo de vida nasce

3 novembro, terça-feira, 2015 às 9:13 am

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Durante a ocupação, no interior da fazenda Annoni, as reuniões das lideranças aconteciam várias vezes ao dia, muitas ao som do helicóptero da Brigada que sobrevoava a área

Isaías Antônio Vedovatto, 55 anos,  mira o vazio na busca da imagem toda vez que o assunto volta ao instante em que, segurando um alicate, rompeu o arame da porteira da fazenda Annoni para fazer história. Diante de seus olhos, passavam centenas de pessoas  que desembarcaram da carroceria de um caminhão para um destino desconhecido, mas carregado de esperanças. O então  jovem, que havia liderado, junto com outros nomes,  uma organização de pelo menos dois anos, não resistiu diante da cena. “Sentei e chorei uma meia hora” revelou. Trinta anos depois, a fazenda virou referência. A experiência mantida no assentamento 16 de março,  através do uso coletivo da terra, atrai todo o ano dezenas de estudantes, pesquisadores e  visitantes.

Passada a euforia da primeira conquista, era hora de deixar a emoção de lado e retomar a razão. Conscientes das dificuldades e da repressão que sofreriam nos dias seguintes, os líderes ocupação apostaram na organização como forma de resistência. Em cada caminhão vindo de 33 diferentes municípios, havia um grupo de coordenadores, responsáveis pela alimentação, segurança, higiene, instalações, imprensa, entre outras funções. “Nas reuniões, a gente simulava as mais diferentes situações, para saber como lidar com elas. Como agir com a polícia, por exemplo”, conta Vedovatto.

No entanto, a realidade mostrou-se muito mais dura do que haviam projetado. A terça-feira nem bem havia amanhecido e um contingente de aproximadamente 400 policiais da Brigada Militar, fortemente armados, já estava postado na frente da fazenda. Para entrar ou sair da Annoni era preciso se submeter a um pente-fino. As conversas sempre em tom de interrogatório buscavam pelas lideranças. “Quem é o líder?”, repetiam incansavelmente. Os questionamentos só amenizavam quando repórteres que cobriam a ocupação se aproximavam. Uma guerra psicológica que se estenderia pelos próximos quatro meses.

“A comida era muito escassa. Os policiais barravam os caminhões carregados de alimentos. O argumento era sempre o mesmo. ‘Precisamos esperar o comando chegar’, o que levava dois ou mais dias. Quando liberavam, grande parte dos alimentos perecíveis estavam estragados. Eu  entregava uma xícara de arroz para  uma família de seis ou sete pessoas passar o dia” recorda o primeiro prefeito assentado no Brasil, Nelson José Grasseli (PT), atualmente cumprindo seu terceiro mandato na prefeitura de Pontão, município vizinho ao assentamento.

Para enfrentar a repressão, a saída estava na criatividade. Abalar o psicológico dos PMs era uma das estratégias dos colonos. “Quando chegava perto do meio-dia, começavam a se afastar da porteira  para almoçar. A gente caminhava para lá com centenas de pessoas, então, eram obrigados a retornar. Era uma guerra de nervos”, define Darci Maschio, um dos líderes da ocupação. No interior da fazenda, as reuniões das lideranças  aconteciam  várias vezes ao dia, muitas ao som do helicóptero da Brigada que sobrevoava a área.

Batalha na Justiça

Enquanto as lideranças tentavam organizar as famílias na fazenda a disputa entre União e Incra de um lado, e proprietário da Annoni  de outro, se arrastava havia 13 anos. Um imbróglio jurídico com inúmeras decisões de recursos favoráveis para ambos os lados.

Era início dos anos 70.  A chamada ‘Revolução Verde’ , criada nos Estados Unidos na década de 1950  para impulsionar a produção a partir de pesquisas em sementes modificadas em laboratórios, uso de  fertilizantes e maquinário, atingia seu ápice no Brasil. Um processo que  transformaria profundamente  a vida no campo, em detrimento dos pequenos produtores.  Na região norte do Rio Grande do Sul, a luta pela terra já acumulava um histórico de vitórias com os assentamentos das fazendas Brilhante e Macali.

Preocupado com o horizonte que se deslumbrava naquele contexto, o proprietário da Annoni decide fatiar os cerca de 16 mil hectares da fazenda entre filhos e netos. Uma estratégia para evitar a desapropriação. No entanto, a primeira decisão da batalha jurídica é favorável aos agricultores. Em março de 72, a União publica o decreto expropriatório social. A Annoni é declarada de interesse social para fins de desapropriação. A disputa estava apenas começando.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) planejava assentar na Annoni 300 famílias que tiveram suas terras devoradas pelas águas na construção da barragem do Passo Real, quando os proprietários conseguem reverter o decreto. Em nova decisão, a Justiça classifica a fazenda como empresa rural, o que impedia, de acordo com o Estatuto da Terra, sua desapropriação.

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Cooperativa Agropecuária e Laticínios Pontão possui 92 famílias associadas e pasteuriza mensalmente cerca de 300 mil litros de leite

Enquanto a discussão em torno da classificação seguia indefinida, cerca de 50 famílias do grupo que ficou conhecido como “Afogados do Passo Real” são assentadas provisoriamente, sem permissão para o plantio. Além deles, famílias de ex-funcionários permaneciam na fazenda, vivendo em parcelas de terras, denominados de parceleiros.  A ocupação em 29 de outubro de 1985, ajuda a acelerar o processo. A partir da definição da área como empresa rural, no início dos anos 80, a alternativa encontrada pelo Incra foi a de indenizar o proprietário.

Não havia terra para todos

Concentrados no grande acampamento da  área 10 da fazenda, no ano seguinte os agricultores iniciam o processo de assentamento provisório. A Annoni é dividida em áreas e as famílias se espalham. No entanto, surge um problema. No ano seguinte começa o assentamento oficial e constata-se que não havia terra para todos. A tensão agora é entre os colonos.

A primeira fase do assentamento contempla as 57 famílias dos ‘Afogados do Passo Real’. A segunda, 177 famílias organizadas em torno do MST, no chamado assentamento Holandês. Na terceira fase, são assentadas as famílias que já moravam na Annoni, ex-empregados  e filhos de parceleiros.

No final da década de 80,  após um acordo entre Incra e MST, são assentadas mais 200 famílias. Ainda restavam outras 300. Em 1993, o processo chega ao fim. Grande parte do excedente é assentado em diferentes  regiões do Rio Grande do Sul. Outras 37 restantes são absorvidas na própria Annoni. “Foi um processo difícil e desgastante”, comenta Maschio.

Ideais mantidos

Se a definição das famílias que permaneceriam no assentamento foi conflitante, a escolha de um modelo de organização também trouxe divergências. O sistema de cooperação agrícola, uso coletivo da terra, não agradou a todos. Aos poucos, a produção individual foi ganhando espaço. Menos na área 1 do assentamento 16 de março. Organizados a partir da Cooperativa de Produção Agropecuária Cascata Ltda (Cooptar), 13 famílias construíram a experiência mais significativa dentro da Annoni.

É lá que lideranças  da ocupação como Darci Maschio e Isaías Vedovatto vivenciam o sonho de uma vida justa e igualitária na prática.  Trabalho e salários são distribuídos na mesma proporção para todos. “Todo mundo recebe a mesma coisa, não tem diferença de ser presidente disto ou daquilo, homem ou mulher. O salário é de R$ 1 mil. Os lucros são repartidos no final do ano”, explica Maschio.

Nos 145 hectares da agrovila são produzidos trigo, milho e soja – sendo proibida a entrada de semente transgênica – além de hortifrutigranjeiros e hortaliças. No frigorífico da cooperativa trabalham 17 funcionários. O local tem capacidade para abater diariamente 40 suínos e 20 bovinos. Com a ampliação em andamento, a meta é dobrar a produção. Pelo menos 30% da carne suína é utilizada na industrialização de linguiça, salame entre outros.

Morador da agrovila, Maschio é presidente da Cooperativa Agropecuária e Laticínios Pontão Ltda, instalada no assentamento Nossa Senhora Aparecida, às margens da RS 324. A cooperativa possui 92 famílias associadas e pasteuriza mensalmente cerca de 300 mil litros de leite. Com exceção de um fornecedor, todos os demais são produtores da Annoni. Conforme Maschio, assim como o leite, os demais produtos da agrovila têm como principal destino a merenda dos estudantes nas escolas da região.

Morador do assentamento 16 de março, o coordenador regional do MST, Mário Lill, 50 anos, não economiza  adjetivos para descrever o lugar e a  forma que escolheu para viver. Filho de agricultores de Sarandi, sendo o pai líder sindical, ele recém havia saído do exército quando se integrou às demais famílias  para ocupar a fazenda. Ainda com a cabeça raspada, chegou a levantar suspeitas dos líderes durante o acampamento. “Servi o quartel por obrigação. Minha tradição sempre esteve ligada com a agricultura. Lembro que as lideranças foram umas duas ou três vezes no barraco me entrevistar”, brinca. Na agrovila, disse ter encontrado o modelo ideal de sociedade. “Aqui é o melhor lugar para se viver. Temos trabalho, moradia, tranquilidade, educação, alimentos, lazer. Não troco por nada”.

O ineditismo da Annoni está muito longe de ter ficado apenas no ato da ocupação no momento em que o MST dava os primeiros passos no  Brasil. Ao longo das três décadas, o assentamento foi se reinventando com novas conquistas. Uma das principais delas está na educação. Atualmente existem na fazenda uma escola estadual de nível médio, duas municipais e  o  Instituto Educar do MST em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que oferece faculdade de agronomia. No último vestibular, 250 alunos disputaram 60 vagas.

‘Aqui foi a primeira escola de ensino médio dentro de um assentamento no Brasil. A primeira a ter uma faculdade de agronomia. Temos o Educar que está multiplicando as experiências de agroecologia. São exemplos. Tenho certeza que é uma região que vai continuar lutando porque está no sangue. É um povo lutador muito antes da Annoni” afirmou o presidente nacional do MST, João Pedro Stédile, durante as comemorações dos 30 anos da ocupação no último dia 29 de outubro.

A nova geração

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Os jovens da Annoni de hoje estão revertendo um processo histórico de êxodo rural

Gustavo Ariel de Bortoli, 19 anos, sempre estudou  em escolas de assentamento. Nos  primeiros anos de estudo, pouco se falava sobre a questão agrária e a luta pela terra no Brasil. Quando  tinha cerca 10 anos,  ele começou a ouvir do pai histórias sobre o passado. Jessur contava sobre como à noite, junto com os amigos, costumava ler livros marxistas no barraco de lona preta e como planejavam as ocupações para apoiar quem ainda buscava terra. Foi através dele que o filho foi se identificando com o movimento. “Queria muito ter vivido aquela época”, diz sorrindo.

Na época de ir ao Ensino Médio e optar por seguir os estudos dentro ou fora do acampamento, Gustavo quis ficar. Seguiu para o Instituto Educar e hoje estuda Agronomia na primeira faculdade dentro de um assentamento dentro do país, ali mesmo, nas terras que o pai ajudou a ocupar há 30 anos. A escola agrícola dentro da antiga Annoni atende atualmente 220 alunos vindos de todo o Brasil. Todos filhos de assentados. Já na faculdade de Agronomia, o último vestibular, registrou 250 candidatos inscritos para 60 vagas.

Com raras exceções, entre a segunda geração de assentados todos têm ensino superior ou estão seguindo os estudos para isso. A maioria em áreas que sejam úteis para a cooperativa, o assentamento e as indústrias dentro deles como: Agronomia, Engenharia de Alimentos, Contabilidade, Medicina Veterinária, Direito. “A ideia é fazer uma faculdade que ajude a melhorar a cooperativa”, explica Gustavo.

Ele se tornou sócio da cooperativa da comunidade da Área 1 quando tinha 17 anos. Começou o trabalho ali com 8 anos ajudando com a ordenha do leite, aos 12 já estava auxiliando no frigorífico depois da escola. “Aqui a gente tem incentivo desde pequeno para trabalhar”, conta. Dos laços de trabalho é que surgem as oportunidades para que a maioria deles, hoje, opte por ficar na terra conquistada pelos pais. “Antes faltava incentivo. Uma vez quem morava no campo não tinha nada. Mas agora não me vejo fora da cooperativa. Não sei se estaria na faculdade hoje ou se seria mais difícil”.

Os jovens da Annoni de hoje estão revertendo um processo histórico. Segundo a Famurs, entre 2013 e 2014, 219 municípios gaúchos viram o número de habitantes encolher. Cento e oitenta deles já tinham menos de 10 mil habitantes. “O êxodo rural está diminuindo ainda mais a população dos pequenos municípios do interior. Precisamos combater essa queda para desenvolver a economia gaúcha”, declarou o presidente da federação, Seger Menegaz durante a divulgação do estudo.

Em breve, as 13 famílias na agrovila da cooperativa passarão para 15. Dois dos filhos de colonos da comunidade que irão casar, já decidiram ficar ali mesmo. O problema é uma causa burocrática junto ao Incra que impede que os filhos de assentados possam construir casas na propriedade dos pais.

Mas nem para todos é assim. Gustavo conta que muitos jovens sem-terra que optaram por estudar fora dali, tem vergonha de contar de onde vem. “Quando fala que é do MST, muitos têm vergonha. Tenho alguns amigos que foram estudar Agronomia em Passo Fundo e não gostam de falar. Muito pelo que a mídia mostra de nós. Nas reuniões a gente fala sobre isso”, revela ele, que já ocupa um cargo na direção estadual dos Jovens do MST. Ele foi um dos responsáveis por organizar o encontro de jovens que acontece no assentamento, no final de semana que se celebra os 30 anos de ocupação.

Nos encontros dos quais participou dentro e fora do país, quando o jovem fala que é da Annoni, já está acostumado com a reação. “Onde a gente vai, todo mundo pergunta como é aqui. Falam que essa é uma terra sagrada, o berço da reforma agrária. A gente sente orgulho né”. Gustavo, a segunda geração, de certeza, carrega a vontade de levar adiante o legado do pai. “Eu quero ajudar a tocar o movimento para frente, para não perder a identidade que eles nos deram”.

 

 

Fonte: Sul 21