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“O Ustra é representante do governo que está aí”, afirma Tenente Vermelho sobre atuação das Forças Armadas

13 março, terça-feira, 2018 às 10:19 am

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Coronel Vermelho

Coronel Vermelho

Sul21 – Aos 86 anos, o capitão José Wilson da Silva passa os dias acompanhando as notícias do Brasil e do mundo pelos jornais e nos seus grupos de WhatsApp, conversa com representantes do governo e da sociedade civil pelo e-mail, separa tempo para escrever depoimentos sobre suas experiências e preparar viagens a trabalho, pela causa que virou uma das mais importantes de sua vida: a Anistia a quem sofreu os efeitos da repressão na ditadura militar.

Seu depoimento mais recente, que ele preparava quando chegamos a sua casa, no bairro Partenon, em Porto Alegre, para entrevistá-lo, tem sete páginas e vai ser enviado ao Fórum Social Mundial, que começa na próxima quarta-feira (13), em Salvador.

Um resumo difícil para uma vida que testemunhou a campanha da Legalidade, em 1961, ao lado de Leonel Brizola, dentro do Piratini; viu João Goulart embarcar num avião para desistir da presidência em 1964; partiu para o exílio no Uruguai; respondeu a quatro processos políticos; foi levado ao DOPS; ajudou a fundar o PDT e se tornou um dos principais líderes pela causa da Anistia e reparação no Brasil.

Uma parte de suas memórias, capitão Wilson contou no livro que leva seu apelido nos meios militares “Tenente Vermelho”. Além disso, ele publicou pesquisas em outras obras, como em “Reacionarismo Militar”, onde fala de todo o preparo dentro do Exército para o que viria a ser o golpe de 1964.

Quando perguntado sobre o que o levou à esquerda, mesmo dentro do meio militar, ele brinca: “Eu acho que ter a cabeça no meio das orelhas”. Ele conta que absorveu muito da disciplina militar, mas, depois que foi transferido a Porto Alegre, começou a se sentir ignorante e a ter vergonha. O remédio foi devorar todas as leituras que conseguia encontrar. “Eu gosto de ler de todos os lados e formar a minha ideia. Posso estar errado, mas a ideia, quando eu expresso, é minha. Por exemplo, concordo que Forças Armadas é uma necessidade de todo país. Mas, para defender os interesses do povo, não de uma metadezinha”, diz ele.

Em meio à primeira intervenção militar do período democrático, elogios impunes a um reconhecido torturador e flerte do atual governo com as Forças Armadas se traduzindo em cargos dentro do Executivo, capitão Wilson analisou em quase duas horas de conversa o Brasil de 2018 à luz de quem acompanha a vida pública da farda há seis décadas:

“O emprego das Forças Armadas é para ajudar o Estado que está aí. Se a massa não começar a tomar consciência, isso vai ser corriqueiro e vai piorar” | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Sul21: Como o senhor viu a notícia da intervenção militar no Rio de Janeiro?

Capitão José Wilson: Tem que entender o quadro. Aquilo ali é apenas o estamento da sociedade, que é dona do Estado. O problema é que essas intervenções, façam quantas quiserem, é a repetição de um mesmo quadro. O que não dizem para as pessoas é que o Estado é uma instituição feita por quem tem o poder. E poder é dinheiro. Portanto, o Estado é um dos donos do dinheiro.

Então, se o Estado é da elite econômica, as Forças Armadas, que são a defesa, estão a serviço de quem? Do povo? Mentira. Estado para o povo, essas coisas, é tudo lorota. Essa massa [trabalhadora], que sobra nas cidades, na época das guerras foi muito paquerada porque precisavam de soldados para o Exército, as fábricas precisavam de milhares e milhares para mão-de-obra. A tecnologia, a revolução que estamos vivendo, está dispensando as massas e elas estão sendo abandonadas. Surgem os vilarejos de massas humanas que mal sobrevivem.

Sul21: O senhor não viu com surpresa, então?

Capitão Wilson: De jeito nenhum. O emprego das Forças Armadas é para ajudar o Estado que está aí. Se a massa não começar a tomar consciência, isso vai ser corriqueiro e vai piorar. Os militares mesmo já disseram que o “Rio de Janeiro é o laboratório”. Nós, subordinados, aposentados, funcionários, produtores, operários, a desgraça que a classe média foi usada como instrumento.

Nas Forças Armadas existe uma cultura de patriotismo, de defesa da pátria e do solo pátrio, acho que tem muitos aí com muita vergonha. Pelo que eu sei, tem milico aí com vergonha de olhar o espelho em casa, de vergonha na cara, de estar vendo entregar tudo. Essas reformas que estão fazendo é uma regressão de 70, 80 anos.

Viram essa declaração do comandante do Exército, que querem “carta branca” ou garantia de que não terá outra Comissão da Verdade. Quer dizer que pretende cometer [crimes].

Sul21: Uma entrevista divulgada essa semana, da CNT/MDA, diz que 69,9% da população apoia a intervenção. No momento de crise das instituições, desconfiança na política, acreditam que as Forças Armadas ainda podem garantir ordem.

Capitão Wilson: Essa massa, que não interessa ao rentismo, não recebe saúde, não recebe instrução, porque é inconveniente. Cada golpe de direita, a primeira instrução é caçar professores. A intervenção por si só não vai resolver nada. Se houvesse ela, escola, emprego, ocupação, mão-de-obra, aí pode ser. Mas, a intervenção por si, não resolve, porque o estado social é o mesmo e não vai alterar.

“A Anistia foi tendenciosa e parcial (…) O Congresso tinha 12 meses para regulamentar, mas só regulamentou 14 anos depois” | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Sul21: Forças Armadas funciona para segurança interna?

Capitão Wilson: Não deveria funcionar, porque não é para isso. [Forças Armadas] é para defesa da pátria (como gostam de encher a boca para falar), defesa das fronteiras, defesa das riquezas nacionais. Por que confiam nas FA? Porque tem estrutura, tem mando, tem disciplina. Mas a sociedade também não poderia ter? Deixa um mundo de desempregados à sua sorte, vivam se puderem ou morram. Depois tem aqueles miseráveis, vendendo trouxinha de cocaína, prende, passa o pau, matam. Esse pessoal vai pro Peru comprar a droga? Porque não prendem primeiro os que trazem o atacado? As armas não têm asas, não voam, tem gente graúda que traz.

Sul21: As Forças Armadas têm o papel de defesa. Porém, uma reportagem da Folha de S. Paulo mostra que está crescendo o número de militares assumindo postos no governo federal. O que significa essa proximidade dos militares com a política partidária?

Capitão Wilson: O rentismo internacional, que está dominando todo o Ocidente, aqui está avançando. No passado, os golpes eram militares, usavam as massas militares para dar o golpe. Agora, usam processo mais sofisticados. No Ministério da Justiça, tem cinco militares de alta patente. Se ali tem, que é o setor mais político, imagine nos outros.

Sul21: O senhor é conhecido pelo trabalho com a Comissão da Anistia. Ela foi uma dos únicos avanços, após a ditadura, no reconhecimento de direitos das vítimas, presos e familiares. Como está isso hoje?

Capitão Wilson: Está sendo desmantelada. A reação contra os desmandos começou com a Lei de Anistia (6683/79).

Sul21: Que anistiaria os dois lados.

Capitão Wilson:  Mentira. Safadeza. Cretinice. Isso te aplicaram. A Lei foi para anistiar matadores, torturadores e golpistas. Anistiou um lado que nem precisou fazer requerimento. Quem era milico chegou a general, quem era funcionário civil chegou ao fim de carreira.

Os perseguidos tiveram que recorrer, fazer requerimento, justificar. Foi uma semi-anistia para uma parcela dos perseguidos. Tinha uma parágrafo que dizia que “quem tinha cometido crime de sangue” estava fora da Anistia. Mas quem fez o sangramento estava anistiado.

A gente continuou: por que só um grupo foi anistiado? De um lado todo, pleno, totalmente. Do outro, poucos. Continuamos trabalhando, conseguimos aquele artigo 4º da emenda 26. Mandava colocar os militares perseguidos no mesmo posto que deveriam estar se tivessem permanecido na ativa. Eu gosto de citar os milicos, porque serve de padrão para a vida civil. Um 3º sargento, foi para a rua como 3º sargento, quando voltou o colega era subtenente, então a emenda manda que ele também seja.

Mas a Anistia foi tendenciosa e parcial, a gente teve que continuar, durante a Constituinte, a trabalhar para colocar os artigos na Constituição de 1988. O Congresso tinha 12 meses para regulamentar, mas só regulamentou 14 anos depois. Foi em 2002, com o governo do Fernando Henrique Cardoso (PSDB). A gente trata a Anistia como um problema de Estado, nem de governo, nem de partido.

“No total, um milhão de pessoas no Brasil sofreram as consequências disso, de uma maneira ou de outra” | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Sul21: O que fazia com que fosse tão difícil avançar com ela?

Capitão Wilson: As Forças Armadas não admitem Anistia até hoje, porque elas foram instrumento de aplicação da punição. Para um milico, ele aplica a punição e acabou. Tanto que o FHC teve que fazer concessões. Todas as leis anteriores eram aplicadas pelos órgãos, que tinham suas próprias comissões e dependia muito do fígado do funcionário para liberar a reparação ou não.

Nós criamos uma Comissão de aplicação da lei que é a Comissão de Anistia, pedimos que ficasse no Ministério da Justiça, que é o ministério político. No fim do governo FHC, quando ele assinou a Anistia, ele assinou um parecer da Advocacia Geral da União (AGU) que praticamente anulava isso. Entrou o Lula, com novos ministros, nova chefia, fomos conversar com eles. E foi uma briga. Sabe quando foi publicada a primeira turma de anistiados, de pessoas que foram reparadas? 31 de outubro de 2003. Então, de janeiro a outubro não saiu nada.

Mas, o Lula teve um ministro, o Márcio Thomaz Bastos, que era fogo como jurista. O Lula se livrou de muitas enrascadas por causa dele. A gente teve inúmeras discussões com ele no gabinete sobre o objetivo da lei, o porquê dela, a relação com os perseguidos, que em muitas noites ia até uma hora da madrugada. Quando ele absorveu tudo, começou a aplicar as reparações e aí correu.

Sul21: Mas sempre uma reparação sem investigação, certo? Sem responsabilizar quem torturou, matou, desviou?

Capitão Wilson: Aí é que está. A aplicação da lei era a reparação dos perseguidos. Do outro lado, ninguém conseguiu colocar a mão. Quem matou, continua matador e é general. O STF disse que a Anistia era para os dois lados. Só que, mesmo essa lei de 2002, ela manda reparar a partir da Constituição de 88, ela é regulamentadora do artigo 8º da CF. Para sair a lei, demoraram 14 anos, mesmo assim…

Uma bronca que a gente tem lá é que a Comissão de Anistia, geralmente constituída de advogados, ex-ministros, ex-funcionários graduados, gente com experiência nesse campo, até 2010 andou muito bem. No governo Dilma já começaram alterações nos conselheiros. Ela nunca recebeu uma comissão de anistiados. A partir daí, a Comissão já começou com sérias dificuldades. O Paulo Abrão (ex-secretário era um profundo conhecedor das questões do golpe, mas era limitado pelo governo.

Ainda assim, ele criou “Marcas da Memória” (placas em locais onde a ditadura operou), o Clínicas do Testemunho, as Caravanas que levaram o assunto da Anistia para dentro das universidades. Fez um trabalho muito lindo. Agora, com a saída da Dilma, a derrocada vem sendo de dia a dia. Eram 21 conselheiros, o [Michel] Temer (MDB), de uma vez, trocou sete. Gente nova, mas que só sabe o livrinho do Direito, fora do contexto da época. Tem um agravante sério nisso.

Por isso, até tenho ali o e-mail aberto, estamos tentando reativar a Comissão de Acompanhamento da Sociedade Civil (Casc), criada pelo Ministério da Justiça (na época do governo Lula) para acompanhar cumprimentos da lei. É composta de 48 membros e tem ex-membros da Comissão de Anistia.

“O ensino das escolas militares de hoje vem da Guerra do Paraguai e da doutrina de segurança nacional” | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Sul21: Por que o Exército tem medo de uma Comissão da Verdade, se no Brasil nunca se levou a júri quem participou das violações do período da ditadura? Ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na Argentina, que está julgando até hoje.

Capitão Wilson: Porque com a Comissão da Verdade vem a público o arbítrio que foi praticado.

Sul21: O que o senhor acha de ter o comandante do Exército, em 2018, falando isso abertamente?

Capitão Wilson: Pois é, isso deixou surpreso quem tinha boa vontade com o Villas Bôas. Ele vinha com uns posicionamentos equilibrados. Agora, pediu liberdade para matar. “As Forças Armadas precisam ter a garantia de que não haverá uma nova Comissão da Verdade”. Trocando em miúdos. Agora, quem eles vão matar? Os donos de helicópteros cheio de drogas, os que têm contas escondidas na Suíça? Ou é o PPP: preto, puta e pobre?

Ontem vi um comentário muito bom, “o Exército está destinado a ser desmoralizado”. Ou ele se recolhe para sua função principal ou vai ser desmoralizado. Qual foi a imagem que ficou sobre o Exército quando combateu em Canudos? Massacre injustificado, porque foi uma guerra de extermínio contra miseráveis. Por que os arquivos da Guerra do Paraguai até hoje não são abertos e não tem prazo para abrir?

Sul21: A formação do Exército, o que era ensinado naquela época se mantém?

Capitão Wilson: Se mantém. O Exército é a garra de defesa da elite econômica. Eu aprendi que a Guerra do Paraguai foi um ato histórico, que Solano López era um ditador sanguinário e não sei o quê. Agora dizem que foi o primeiro país da América do Sul a ter estrada de ferro, a ter siderurgia.

O que o Solano López fez? Estudou na França, trouxe conhecimento para o seu país, especialmente com o sistema “comuneiro”. As academias continuam ensinando que López e seus seguidores eram bandidos. O ensino das escolas militares de hoje vem da Guerra do Paraguai e da doutrina de segurança nacional. Não sendo banqueiro ou sócio de banqueiro, é um elemento perigoso. Se perigoso, pau e cadeia neles. Cria a massa dos excluídos.

“O Ustra é representante do governo que está aí, de Temer e toda sua camarilha. ” | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Sul21: Para o senhor, que foi um militar e que lutou contra o regime, o que significa ver alguém como Brilhante Ustra homenageado, ainda hoje, pela corporação?

Capitão Wilson: É a mentalidade de direita. O Ustra é representante do governo que está aí, de Temer e toda sua camarilha. Poucos deles são integrantes da cúpula rentista, dos donos dos dinheiro, eles são lacaios, mas ficam ricos por servirem ao sistema financeiro. O Ustra foi um bom representante do golpe que servia a interesses estrangeiros.

Sul21: O que o senhor acha de Jair Bolsonaro, deputado que o homenageou durante o impeachment de Dilma?

Capitão Wilson: Vi outro dia alguém falando que o Bolsonaro é uma experiência estatística para levantar o número de idiotas que tem no Brasil. Gostei muito dessa. O Bolsonaro é um vivo, ignorantão. É um milico que se deu bem com bravatas, que não era bem-vindo dentro dos quartéis.

O eleitorado dele são viúvas saudosistas e agora, um novo eleitorado, com esses idiotas jovens. Mas, isso está sendo em todo o mundo, já reparou? O neoliberalismo avançando em todo o mundo. Tem gente que diz que já começa a haver uma reação. Eu ainda não vi.

Sul21: O senhor acha que ele tem chances de se eleger?

“A partir de 1961, depois da Legalidade, houve um aceleramento na preparação para um golpe e a gente sabia” | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Capitão Wilson: Olha, com o número de bestas que está surgindo… Quem diz que não? Quem diria que o Trump se elegeria? Eu acho muito difícil, mas… Eu sou muito simpático ao [Roberto] Requião, porque ele está e sempre esteve no MDB e esculacha com as coisas erradas do partido.

O Ciro Gomes tem uma posição muito boa, eu sou um dos fundadores do PDT, a minha zonal funcionou dez anos dentro da minha casa, mas o problema dele é que já passou por mais de dez partidos. É falta de estabilidade ou de convicção do que defende?

Sul21: Em um depoimento, o senhor conta que, antes do golpe de 1964, muitas noites saía de casa e ia para os quartéis porque havia suspeitas de movimentação para isso. Naquela época, o Brasil ainda não sabia o que era um golpe ou governo militar, mortos e desaparecidos. O que os preocupava então?

Capitão Wilson: A partir de 1961, depois da Legalidade, houve um aceleramento na preparação para um golpe e a gente sabia. Houve muita gente da corrente janguista ou brizolista ou comunista nas Forças Armadas. O que diziam nas reuniões de Estado-maior, a gente terminava sabendo e sabia dessa preparação.

A cada ameaça, a gente corria para os quartéis para levantar o que sabiam, numa tentativa de segurar, para manter o Jango. Até então, se pensava num golpe “tradicional”, não se tinha noção do domínio dos grupos estrangeiros e capital sobre as Forças Armadas.

Eles não estavam pra brincadeira. O golpe de 64 não foi para prender subversivos, foi para acabar com a ideia de independência. Eles tinham que ir fundo, não só punir, mas, se possível, matar [quem pensava diferente]. Foram feitas até experiências. Prende o sujeito, tortura, quando ele está despersonalizado, chega o outro de mansinho, incutindo outra verdade. Ou o sujeito se recicla mentalmente ou morre.

Sul21: Para o senhor que lutou a vida inteira pelo sistema democrático e reparação, como é ver isso hoje?

Capitão Wilson: O Brasil de 2018 está entrando numa ladeira que leva a 1940. Colônia submissa, exportando bens primários, minérios, as commodities, sem nada de valor agregado. Um exemplo que dói e é bom nem pensar é o da Embraer.

Acho que o povo brasileiro está emburrecendo de uma maneira extraordinária. O Brasil está num momento de desgraça, de amargura. O único consolo é que estou com 86. Vocês jovens é que vão pagar caro por isso. Eu, podendo falar, podendo esclarecer o que aconteceu, acho que é obrigação. Sei que a gente se torna chato, mas o que vou fazer?

 

 

Fonte: Fernanda Canofre – Sul21