Central Única de Trabalhadores

Nova e velha guarda sindical discutem estratégias para barrar agenda dos golpistas com Carlos Araújo

6 abril, quarta-feira, 2016 às 5:38 pm

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Araujo recebe sindicalistas

Araujo recebe sindicalistas

Lideranças sindicais do presente e do passado se reuniram, na manhã desta quarta-feira (6), às margens do Guaíba, em Porto Alegre, na casa de Carlos Araújo, advogado, ex-líder sindical, preso político durante a ditadura militar, ex-deputado e ex-marido da presidenta Dilma Rousseff (PT). O motivo: uma conversa, organizada pela Frente Brasil Popular, entre dirigentes sindicais do passado e do presente sobre os rumos do país e para definir estratégias para tentar barrar o impeachment.

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Por volta das 11h15, líderes das centrais sindicais, de movimentos de metalúrgicos da Região Metropolitana, do antigo Sindicato do Vestuário e de outras entidades começaram a chegar ao local, no bairro Tristeza. Ao redor de uma ampla mesa, começaram a puxar cadeiras à espera de Araújo, que chegaria minutos mais tarde, um pouco ofegante devido aos problemas de saúde que enfrenta.

06/04/2016 - PORTO ALEGRE, RS - grupo de sindicalistas e movimentos sociais se reúnem na casa de Carlos Araújo para debate sobre atual conjuntura política. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Jurandir Leite relembra encontros na casa de Carlos Araújo durante a ditadura | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Por que na casa de Araújo? A velha guarda do sindicalismo explica: “Quando o Araújo foi libertado e, ele a Dilma se mudaram para cá, a gente começou a reunir o pessoal sindicalista e também trabalhistas não sindicalistas uma vez por semana para o café da manhã”, contou Jurandir Leite, que foi o primeiro presidente da CUT Metropolitana e o segundo da CUT-RS. “Daqui nós traçávamos a agenda para ir trabalhar durante toda a ditadura militar. Saíamos para fazer o trabalho de formiguinha, nas vilas, nas entidades, nos sindicatos. A gente era perseguido, mas fazia”.

Com o fim da ditadura e das perseguições aos sindicatos, o temor agora é outro: a retirada de direitos e conquistas trabalhistas após um eventual impeachment da presidenta.

“A gente sabe que tem uma agenda por trás do golpe”, disse o presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo, ao abrir a conversa. “Para nós, defender a democracia é defender o direito dos trabalhadores de lutar pelos seus direitos, o que eles (a oposição de direita) querem reduzir a pó”, complementou posteriormente o presidente estadual da CTB-RS, Guiomar Vidor.

Claudir então expôs sua visão de que, apesar de fazerem a defesa da democracia, os movimentos sociais precisam que o governo federal sinalize com pautas positivas que permitam mobilizar ainda mais a classe trabalhadora. A questão primordial: o combate ao desemprego. “Sem recuperação do emprego, vamos ter muita dificuldade de enfrentar essa luta, que deve ser de longo prazo”, disse.

06/04/2016 - PORTO ALEGRE, RS - grupo de sindicalistas e movimentos sociais se reúnem na casa de Carlos Araújo para debate sobre atual conjuntura política. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Claudir Nespolo compartilhou com Araújo as angústias dos trabalhadores | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O diretor da Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, Milton Viário, lembrou que, devido à crise econômica, muitos dos avanços registrados durante os mandatos do ex-presidente Lula e os primeiros anos da presidenta Dilma estão sendo perdidos, o que prejudica a capacidade de mobilização popular. “A ampliação da luta passa pela questão econômica. Ano passado perdemos um terço dos empregos que ganhamos em 12 anos. Se não resolvermos essa situação econômica, estamos jogando contra nós”, ponderou.

Vidor salientou que a presença de 40 mil, 50 mil pessoas nos atos em defesa da democracia em Porto Alegre, no mês de março, superou toda as expectativas dos sindicatos, ainda mais pelo fato de que a maioria dos participantes compareceu de forma espontânea. Não eram militantes. No entanto, ele defendeu a importância de o governo frear as ações de ajuste fiscal e, principalmente, a proposta de reforma da Previdência para manter a mobilização contra o impeachment.

O secretário de Comunicação da CUT-RS e diretor do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e da Contraf-CUT, Ademir Wiederkehr, destacou o cerco da mídia golpista, principalmente a Rede Globo. Ele citou também a capa e a reportagem da última revista IstoÉ, que atacou de forma machista e preconceituosa a imagem da presidenta, fazendo acusações falsas e levianas. “Está na hora de uma regulação da mídia, a exemplo de outros países”, defendeu.

Após ouvir com atenção as angústias das lideranças sindicais, foi a vez de Araújo começar a falar. De cara, tratou de passar uma visão mais tranquilizadora sobre a possibilidade de impeachment. “Melhorou a conjuntura, porque o povo foi pra rua e eles deixaram de ter certeza que vão ganhar. O pessoal (os deputados) indeciso começou a vacilar”, afirmou.

Por outro lado, ponderou que, mesmo que esse pedido de impeachment seja rejeitado, a tendência é que a oposição continue insistindo na retirada de Dilma do poder. “Tudo é feito com base em 2018. Eles querem impedir o Lula de concorrer. Se o Lula morresse hoje, tava resolvido”, analisou Araújo. “E por quê? Por causa das políticas sociais que foram implementadas”.

06/04/2016 - PORTO ALEGRE, RS - grupo de sindicalistas e movimentos sociais se reúnem na casa de Carlos Araújo para debate sobre atual conjuntura política. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Araújo fez uma análise da conjuntura durante encontro com novas e antigas lideranças sindicais em sua casa | Foto: Guilherme Santos/Sul21

A mesma agenda do passado

Voltando ao passado, ele lembrou que, no cerne de toda a pressão das elites empresariais e da imprensa contra governos de aspiração popular, estava a questão do salário mínimo. “Jango foi derrubado depois que deu aumento de 100% do salário mínimo. Para mim, a maior conquista dos governos Lula e Dilma foi o aumento do salário mínimo sempre acima da inflação”, afirmou. “O inconformismo de setores das elites é com a distribuição da renda. Pra onde vai o dinheiro que sobra da arrecadação dos impostos?”, apontou.

Também lembrou as tentativas de Getúlio Vargas de avançar na questão de direitos trabalhistas e da oposição que enfrentava em seus governos. “Quando o velho Getúlio tentou criar a Justiça do Trabalho, em 1934, o projeto de lei foi para a Comissão de Constituição de Justiça da Câmara e tomou um pau. Só conseguiu criar em 1943, já na ditadura, através de um decreto-lei, senão jamais criaria”.

Por outro lado, tratou de minimizar os temores dos sindicalistas contra o avanço do ajuste fiscal. “Concretamente, o que a Dilma fez de prejudicial? Mexeu no seguro-desemprego, que tinha muita roubalheira”, afirmou Araújo. “A reforma da Previdência é inevitável, vai ter que sair de uma forma ou de outra, mas não vai sair assim sem dialogar com os trabalhadores. Essa questão é botar o bode na sala”, avaliou.

Ele também se mostrou preocupado com a cobertura da grande imprensa, mas lembrou que, mesmo com essa mídia oligopolista, “nós vencemos as quatro últimas eleições”.

06/04/2016 - PORTO ALEGRE, RS - grupo de sindicalistas e movimentos sociais se reúnem na casa de Carlos Araújo para debate sobre atual conjuntura política. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Reunião contou com a presença de cerca de 20 líderes sindicais | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Disputa nas ruas

Após cerca de uma hora de bate-papo, a conversa acabou sem que grandes resoluções tivessem sido tomadas, o que talvez nem fosse a pretensão do encontro. “O velho doutor Carlos Araújo tem que ser escutado sempre e hoje tivemos aqui uma grande oportunidade de escutá-lo sem nenhuma outra pretensão. Simplesmente transmitir a ele algumas preocupações e ele nos ajudar a processá-las dentro da difícil conjuntura que o Brasil está vivendo”, ponderou  Claudir.

E a partir de agora, como proceder? A ideia é retomar aquele velho trabalho de formiguinha, relembrando a classe trabalhadora a população que ainda não participou de manifestações, nem de um lado e nem de outro, das diferenças entre os avanços sociais durante o período em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no poder e nos governos anteriores. “Vamos ajudar a animar a população que está indo para a rua com essas informações e dizer que a luta não está decidida ainda”, enfatizou Claudir.

06/04/2016 - PORTO ALEGRE, RS - grupo de sindicalistas e movimentos sociais se reúnem na casa de Carlos Araújo para debate sobre atual conjuntura política. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Fonte: CUT-RS com Luís Eduardo Gomes – Sul21