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Nomeação de terceiro colocado para reitor da UFRGS é “partidarização e ideologização”, diz Adufrgs

16 setembro, quarta-feira, 2020 às 4:08 pm

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Lucio Vieira

Lucio Vieira

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de nomear o professor Carlos Bulhões como novo reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), anunciada nesta quarta-feira (16), repercutiu, como esperado, de forma negativa em grande parte da comunidade acadêmica da instituição.

Presidente da Adufrgs-Sindical, entidade que representa professores da universidade, Lucio Olimpio Carvalho Vieira diz que não há ilegalidade na escolha de Bulhões, que foi o terceiro colocado na consulta eleitoral realizada pela universidade em julho, mas avalia que falta legitimidade ao processo.

Em entrevista concedida ao Sul21, Vieira destaca que a decisão não surpreende a Adufrgs, pois é um reflexo da relação do governo Bolsonaro com as universidades federais.

“É a postura que esse governo tem adotado para aumentar sua posição anti-universidade pública e anti-educação pública. Basta ver o que tem sido o Ministério da Educação desde o início desse governo. Ou seja, nós tivemos três não ministros e agora nós temos um ministro que ainda não disse a que veio”, disse.

“Essa partidarização e ideologização que o governo Bolsonaro tem adotado para nomeação dos reitores, não respeitando a vontade da comunidade universitária, reforça essa nossa visão de que é um governo que se estranha com a universidade. No caso específico, nós lamentamos profundamente, mesmo que a gente reconheça que não ilegalidade no ato e respeitamos o professor Carlos Bulhões, mas não concordamos com essa nomeação porque ela desrespeita a vontade da comunidade da UFRGS”.

Reportagem publicada pelo Sul21 nesta terça-feira (15) trouxe um levantamento de que, em pelo menos 14 oportunidades desde o início da gestão, Bolsonaro decidiu pela nomeação de um reitor ou diretor de instituições federais de ensino que não encabeçava uma lista tríplice ou sequer constava entre os nomes indicados a partir das consultas internas, o que vem sendo denunciado como uma forma de intervenção para colocar nos cargos apoiadores ou professores ligados a aliados políticos,

A posição oficial do Ministério da Educação, nas outras oportunidades, tem sido de que não há hierarquia na lista tríplice enviada ao presidente e que “qualquer um dos três nomes pode ser indicado para o cargo de reitor e vice-reitor”.

Bulhões

Vieira ressalta que Bulhões é associado à Adufrgs e que manteve uma postura democrática durante o processo eleitoral, mas lamenta que ele tenha pleiteado a nomeação. “Ele mesmo partidarizou o processo, o que é ruim para a universidade”, disse.

Ele afirma que, a partir da decisão anunciada, o posicionamento das entidades será de cobrar o novo reitor para que ele assuma a defesa da universidade pública.

“A Universidade Federal do Rio Grande do Sul é uma das mais importantes universidades públicas do País e uma das referências internacionais. E essa construção foi de muitos e muitos anos, muitos e muitos professores, técnicos e alunos envolvidos e comprometidos com a universidade pública como fator estratégico para o desenvolvimento do País. Tememos que essa intervenção partidarizada e ideologizada dentro das universidades, patrocinada pelo governo Bolsonaro, possa colocar em risco este papel que as universidades federais têm cumprido para o bem do País”, afirmou.

“Vamos cobrar fortemente do reitor os compromissos em defesa da universidade pública, que a universidade continue tendo o seu papel de ser um espaço de debate livre, autônoma, que seja um espaço democrático de convivência, que ela continue sendo inclusiva. Compromissos que cabem com qualquer dirigente da universidade. Não podemos aceitar, de forma alguma, que essa vontade do presidente da República signifique uma intervenção dentro da universidade no sentido de tirar dela o seu papel fundamental”, destaca.

Vieira afirma ainda que as entidades representativas de professores e dirigentes de universidades federais defendem que o Congresso estabeleça um novo marco regulatório para definir os critérios de escolha de reitores, para que elas não fiquem “reféns” de escolhas partidárias. Neste sentido, ele espera que o debate seja acelerado e que se possa garantir a autonomia das instituições federais de ensino.

“Isso é fundamental em qualquer país que leva a sério a questão da universidade. Do jeito que está, embora a Constituição preveja autonomia, isso não se verifica. Para nós, é fundamental que as decisões sobre como deve ser a escolha do reitor e de qualquer dirigente seja definido por estatuto interno da universidade, respeitada a Constituição do País. Se não, vamos estar sempre correndo esse risco. Muda o governo, um governo que não tem identidade com a universidade pública, como é este, ele acaba nomeando quem teve a menor aceitação entre toda a comunidade", salienta o dirigente da ADUFRGS. 

"Nenhum desrespeito a pessoa do professor Carlos Bulhões, mas ele não teve vitória em nenhum dos segmentos. Foi o menos votado entre alunos, entre técnicos e entre os professores. Embora tenha sido apenas uma consulta, no próprio Conselho Universitário da UFRGS, que montou a lista tríplice, o professor Carlos Bulhões teve apenas três votos, e é com esse conselho que ele vai ter que trabalhar. Então, não há ilegalidade, mas para nós está muito claro que não há legitimidade para que ele seja o gestor de mais alto grau da universidade”, conclui Vieira.

 

 

Fonte: Luis Eduardo Gomes – Sul21