Central Única dos Trabalhadores

“Não esmorecemos”, afirma CUT-RS no 19º Encontro Estadual do MST

20 dezembro, sexta-feira, 2019 às 3:46 pm

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MST encontro

MST encontro

Para compartilhar seus desafios e reafirmar seus compromissos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Rio Grande do Sul reuniu companheiros e companheiras de diversas organizações para o Encontro dos Amigos. O evento aconteceu nesta quinta-feira (19) no assentamento Capela, em Nova Santa Rita, onde ocorre o 19º Encontro Estadual do MST.

O objetivo da iniciativa foi celebrar conquistas e reafirmar o compromisso de luta junto à classe trabalhadora, além de selar as amizades para que se possa construir um projeto de vida, que respeite a natureza, as pessoas e as diversidades.

Entre os convidados estavam deputados, prefeitos, sindicalistas, lideranças sociais e demais sujeitos que apoiam a luta pela Reforma Agrária. O encontro trouxe simbologias que integram o cotidiano das famílias do MST. Parte delas foi entregue aos convidados, como o arroz orgânico, mudas de árvores e bonés.

Encontro reuniu representantes de diversas organizações amigas do MST. Foto: Gabriel Bicho

Não esmorecemos

O ex-presidente e atual secretário de Organização e Política Sindical da CUT-RS, Claudir Nespolo, lembrou o golpe que derrubou sem crime de responsabilidade a presidenta Dilma Rousseff e disse que "não esmorecemos". Segundo ele, "não temos dúvidas de que o agronegócio e o capital financeiro estão por trás dessa retirada de direitos dos trabalhadores".

"Mas eu não vim falar mal deles, eu vim falar bem de nós", ressaltou o dirigente sindical. "Vocês, que lutam pela terra, e nós, que lutamos no meio urbano, ainda somos vistos como obstáculos. Eles têm medo da gente. Por isso, estão atacando as nossas organizações", salientou Nespolo.

A importância das eleições municipais de 2020 foi destacada pelo dirigente da CU-RS, pois "organizam a disputa de 2022 para encerrar esse ciclo perverso e colocar as coisas no lugar". Para ele, "não queremos ser o Chile que demorou 30 anos para ir às ruas e fazer a luta. Nós queremos ser a Argentina que quatro anos após perder as eleições voltou ao governo quem olha para quem precisa".

Claudir no MST (2)

Plantar 100 milhões de mudas de árvores em dez anos

Na ocasião, Silvia Reis Marques, da direção nacional do MST, destacou os desafios que o Movimento se propôs a encarar no próximo período. O trabalhadores Sem Terra continuarão a lutar pela Reforma Agrária Popular, a organizar a produção de alimentos saudáveis nos assentamentos e a cultivar valores humanistas e socialistas.

Também seguirão a enfrentar o agronegócio e a cuidar dos bens comuns, como a natureza, a terra e as nascentes. Nesse sentido, Silvia informou que o MST vai plantar 100 milhões de mudas de árvores em dez anos para reflorestar o Brasil.

Além disso, anunciou que será inaugurada uma unidade do Armazém do Campo em Porto Alegre em 2020. “É um espaço onde divulgaremos a Reforma Agrária Popular, a nossa produção de alimentos, mas também a produção de sonhos, resgatando a cultura popular, os saberes, os sabores”, disse.

Silvia ainda ressaltou que o MST priorizará o trabalho de base com formação política e ideológica e zelará pela unidade da classe trabalhadora, “para construir um país soberano, popular e igualitário, rumo ao socialismo”.

Unidade pelo povo

Convidada para o encontro, a ex-deputada Manuela D’Avila comentou que são diversas as pessoas e organizações, inclusive aquelas que ali estavam presentes, que se aproximam por uma mesma leitura da realidade. Segundo ela, estamos vivendo a maior crise da história do capitalismo, onde quem mais sofre é o povo.

MST mística

Mística da ocupação da Macali e Brilhante. Foto: Gabriel Bicho

“O Brasil se coloca como uma nova colônia. A precarização do trabalho faz com que a classe trabalhadora viva cada vez mais na miséria. Junto a isso, apresentam como saída a destruição das poucas políticas públicas, do pouco Estado que nós conseguimos construir”, lamentou.

Manuela apontou a necessidade de união para enfrentar essa realidade, em que diariamente há assassinatos de indígenas e negros das periferias. Também sensibilizou para que a base social organizada não desista do povo. “O povo brasileiro pode ter errado numa eleição, mas nós não vamos deixar que esse erro condene esse povo a uma história de escravidão, de um país destruído, de um país sem soberania, de um povo sem direitos”, emendou.

Diretamente aos integrantes do MST, reforçou que a Reforma Agrária Popular abastece as cidades com alimentos e mostra que é possível produzir em larga escala e sem veneno, inclusive para a merenda escolar. “Vocês nos ensinam todos os dias que lutar vale a pena, que a luta muda a realidade, que só a luta é capaz de mudar e dignificar a vida do povo do nosso estado e país”, concluiu.

Memória dos 40 anos de uma luta

Além da celebração com amigos, outras atividades fizeram parte do segundo dia do Encontro Estadual do MST do RS. Foi relembrada a luta das famílias que protagonizaram em 1979 as ocupações das fazendas Macali e Brilhante, em Ronda Alta, na região Norte gaúcha.

Integrantes do Movimento fizeram uma encenação para contar essa história, que marcou a retomada da luta pela Reforma Agrária no estado em tempos de ditadura militar.

Trabalhadores que viveram essa busca por vida digna no campo relataram suas formas de organização, dificuldades e conquistas. Essas ocupações, que resultaram em terra para centenas de famílias, são consideradas o berço do MST.

Reforma Agrária Popular

Já o dia de estudos começou com Miguel Stédile, da direção do MST. Ele destacou que o inimigo do Movimento há tempos deixou de ser apenas o latifúndio e que a luta agora também é contra o agronegócio. “Ele não disputa só nossas terras, ele disputa conosco o modelo agrícola e nossas ideologias nas escolas do campo”, ressaltou.

Miguel Stédile fala como o MST é um instrumento politico na luta. Foto: Gabriel Bicho

Stédile argumentou que, nessa conjuntura, o contraponto do MST é a Reforma Agrária Popular, que é mais do que democratizar o acesso à terra. “É produzir alimentos saudáveis para a população, é ter uma vida digna no campo. Isso significa que nossos assentamentos têm que ser um lugar bom para se viver”, assinalou.

Nessa perspectiva, ele frisou outros compromissos do Movimento: desenvolver as economias locais, cuidar dos bens comuns, enfrentar o patriarcado e o racismo, cultivar e defender a cultura popular, cuidar da saúde das famílias Sem Terra, fortalecer a educação do campo para a construção de sujeitos comprometidos com a transformação da sociedade, trabalhar pela unidade e ampliação das forças populares e exercitar a solidariedade com os povos que se encontram em luta contra o imperialismo e o neoliberalismo.

Assentamentos e luta pela terra

O papel dos assentamentos foi tema do debate conduzido por Cedenir de Oliveira, também da direção do MST. Ele defendeu que esses territórios devem ser de resistência e ferramenta política, estimular a economia local, através de sua organização e produção, e melhorar as condições de vida das famílias.

Na parte da tarde teve estudo sobre questões que envolvem as famílias acampadas. Conforme José Damasceno, do MST do Paraná, o governo federal tenta enfraquecer e frear a luta pela terra através de iniciativas como a titulação de áreas já desapropriadas e cortes de recursos para a Reforma Agrária.

Ele completou que, a resistência ativa nos acampamentos é uma tarefa grande no governo Bolsonaro. Diante dessa situação, é preciso fortalecer a organização dos territórios, bem como preparar o futuro assentamento. “O projeto se faz agora”, observou.

Já a acampada Aida Teixeira relatou a situação dos acampamentos do MST no RS. Citou como referência o Terra e Vida, de Passo Fundo, na região Norte do estado, que se destaca na produção de alimentos saudáveis. “As famílias têm conseguido garantir trabalho e renda dentro do acampamento através da sua organização”, disse.

Último dia de encontro

Nesta sexta-feira (20) ocorrem as últimas atividades do 19º Encontro Estadual do MST. Os debates serão em torno da organização das mulheres e da juventude, da campanha nacional de reflorestamento do MST e da rede de comercialização de produtos da Reforma Agrária.

Assista às falas de Claudir Nespolo e Manuela

 

Fonte: Catiana de Medeiros – MST