Central Única de Trabalhadores

“Mídia não vai sair do golpe como em 64, vai inviabilizar não só retorno da esquerda, mas da democracia”, aponta painel no 1º EGDC

28 outubro, sábado, 2017 às 12:51 am

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“O papel da mídia na construção do golpe” foi o tema do painel que abriu os debates do 1º Encontro Gaúcho pelo Direito à Comunicação (EGDC) na noite desta sexta-feira (27), no auditório da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Ao longo de duas horas, quatro painelistas analisaram as digitais da mídia no golpe que apeou do poder a presidenta Dilma Rousseff.

O painel que teve como mediador o presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, Milton Simas Jr, foi transmitido online pelo Facebook. O evento é promovido pelo Comitê Gaúcho do FNDC com o apoio da Fabico da UFRGS e várias entidades sindicais e movimentos sociais.

Intensificação do neoliberalismo

Cientista político e professor aposentado da UFRGS, Benedito Tadeu César trouxe uma análise de conjuntura internacional e afirmou que golpe foi parlamentar, jurídico e midiático

“Vivemos momento muito peculiar com crise global e quebra de paradigmas. Onde os valores morais e democráticos estão desmoronando. Há uma desestruturação do mundo contemporâneo”, observou o professor.

Benedito disse que há uma reação global “à desestruturação aos antigos padrões do capitalismo”. Para ele, “o que fez a glória do capitalismo, após as duas grandes guerras mundiais, quando se constituiu a sociedade de bem estar social, tudo tem sido desmantelado devido ao neoliberalismo”.

O cientista político alertou para uma sequência de golpes na América Latina, como no Paraguai, que culminaram com o deslocamento do neoliberalismo para essa área. “Estamos vivendo no Brasil uma intensificação do neoliberalismo, que já está em crise em outros lugares do mundo”.

Ao finalizar, ele afirmou que é necessário nos prepararmos para os tempos sombrios que virão pela frente. “O Brasil tem a quinta maior reserva de petróleo do mundo. Tudo o que nos cerca é petróleo e isso move o mundo. E esse foi o motivo do golpe”.

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O jornalismo retrocedeu

O jornalista Moisés Mendes sentenciou que o “jornalismo retrocedeu”. De acordo com ele, no momento em que a imprensa brasileira vê que é possível dar o golpe, ela passa a se reinventar, passando a atender uma agenda da extrema direita.

“É aí que acontece o fim do modelo jornalístico pós-ditadura. A imprensa não vai sair do golpe, como fez em 64, ela vai aprofundar e inviabilizar não só o retorno da esquerda, mas da democracia”, disse Moisés.

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O jornalista citou uma série de reportagens sobre agrotóxicos publicadas na década de 80 e afirmou que hoje, mesmo com mais conhecimento sobre o assunto, é impensável matérias como essas. “Além desse retrocesso, não conseguimos ter uma produção que combatesse isso. Não tivemos comunicação alternativa e há uma fragilidade muito grande nas informações que vão na contramão. A pergunta é: como o jornalismo vai sobreviver neste ambiente hostil?”, questionou Moisés que, mesmo assim, se declarou “otimista” com o futuro do jornalismo.

Televisão formou base de apoio ao golpe

Em seguida, a professora aposentada da UFRGS, Christa Berger, defendeu que é necessário se desdobrar e refletir sobre o assunto, pois já sabemos que o êxito do golpe contou com a mídia. “Precisamos pensar na cobertura que o golpe recebeu, juntar temporalidade mais larga e programação. Temos uma programação televisiva que pela repetição formou uma base de apoio ao golpe”, explicou Christa.

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A professora alertou para a influência dos deputados neopentecostais no golpe e trouxe dados sobre a ligação de parlamentares com os meios de radiodifusão. Dos 513 deputados, 168 tem ligação direta com meios de comunicação. “Muitos inclusive são apresentadores de programas que, de acordo com uma pesquisa, se encaixam no gênero policial, religioso e os ditos de cidadania”, contou.

Christa sugeriu que os participantes assistem trechos de programas, encontrados no Youtube, para perceberem como se dá a construção do discurso desses que muitas vezes são eleitos. Segundo ela, com valorização e qualificação do trabalho de comunicação sindical e acadêmico será possível enfrentar esse contexto.

Crença influencia mais que os fatos

“Na pós verdade, as crenças tem mais influencia do que os fatos”, garantiu o pesquisador, sociólogo e professor Pedrinho Guareschi. “Erramos ao valorizar muito o racional, o cognitivo”, criticou ele.

O professor disse que o capital financeiro internacional exigiu a quebra do projeto de desenvolvimento do Brasil. “Eles estão vendendo tudo, por isso o golpe precisava dar certo”, explicou ao alertar para a lógica dos golpistas.

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“Somos feitos de crenças e são elas que alimentam os algoritmos que nos tornamos. Tudo que nós fazemos está mapeado, é trabalhado através da inteligência artificial. No final das contas, algoritmos são para dar dinheiro”, ressaltou ao destacar a ofensiva do capital financeiro.

Pedrinho encerrou afirmando que as pessoas viraram mercadoria. “Somos a mercantilização dos seres humanos. E quem ganha?”.

Alternativas para democratizar a comunicação

O 1º EGDC continua neste sábado (28), às 9h30, como o painel “Alternativas para a democratização da comunicação”, que terá como painelistas Beth Costa, ex-presidente da Fenaj e secretária de Comunicação do FNDC; Neusa Ribeiro, professora aposentada da Feevale; Marco Weissheimer, repórter do Sul21; e Pedro Osório, jornalista, ex-presidente da Fundação Piratini e professor da Unisinos.

Antes do almoço, está prevista uma homenagem merecida a Daniel Herz, jornalista, professor, mestre em Comunicação, diretor da Fenaj e autor do livro “A história secreta da Rede Globo”,  falecido em 30 de maio de 2006, em Porto Alegre. Ele foi fundador do FNDC e do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom).

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À tarde,  o encontro terá quatro painéis temáticos simultâneos, focados nos desafios da comunicação comunitária e alternativa; a mídia e a luta contra o racismo e a discriminação de gênero; o monopólio da mídia e o ataque aos direitos trabalhistas e previdenciários; e o desmonte da comunicação pública. Confiraa:

1. Desafios da comunicação comunitária e alternativa

Ilza Girardi – professora e vice-diretora da Fabico da UFRGS

Guilherme Fernandes de Oliveira – repórter da TVT

Luís Eduardo Gomes – jornalista do Sul21

2. A mídia e a luta contra o racismo e a discriminação de gênero

Vera Daisy Barcellos – presidenta da Comissão Nacional de Ética da Fenaj

Sandra de Deus – jornalista e professora da UFRGS

Télia Negrão – jornalista e ex-coordenadora do Coletivo Feminino Plural

3. O monopólio da mídia e o ataque aos direitos trabalhistas e previdenciários

Claudir Nespolo – presidente da CUT-RS

Igor Pereira – diretor da CTB-RS

Antonio Carlos Porto Jr – advogado trabalhista

4. O desmonte da comunicação pública

Maria Helena Weber – professora da UFRGS

Milton Simas Jr – presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS

Cristina Charão – jornalista da TVE

Ao final será realizada uma plenária estadual do FNDC.

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Fonte: CUT-RS com Comitê Gaúcho do FNDC