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Marilena Chauí debate comunicação e democracia e aponta sociedade “estruturalmente violenta”

16 abril, segunda-feira, 2018 às 2:11 pm

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No segundo dia da Conferência Lula Livre – Vencer a Batalha da Comunicação, realizada no último sábado (14) em São Paulo pelo PT, a filósofa Marilena Chaui, da Universidade de São Paulo (USP), falou a respeito de democracia no Brasil, neoliberalismo e novas formas tecnológicas informacionais.

Com mediação de Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos, a atividade contou com a participação do cientista político Juarez Guimarães, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em sua explanação, Chauí falou sobre os desafios da democracia brasileira, que, de forma direta, afetam a maneira como nos comunicamos e lidamos com a comunicação nos dias de hoje no país.

Sociedade estruturalmente violenta

Segundo ela, a sociedade brasileira é “estruturalmente violenta”, fazendo-se a diferenciação entre este conceito e a expressão associada à delinquência ou criminalidade feita pela mídia tradicional. “Violência é reduzir o outro da condição de sujeito para a condição de coisa. É isso o que a sociedade faz cotidianamente. Como é que vai haver democracia nisso?”, questiona.

A filósofa relacionou esse tipo de violência produzida pelo capitalismo com a situação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O ódio e a violência vêm de cada um que tem no seu ser a ideia de que é pela competição que se vive a vida. É isso que o capitalismo produz. E este ódio vai escolher algo para se expressar, daí a perseguição a Lula.”

Neoliberalismo privatiza direitos

Marilena falou a respeito dos efeitos da ideologia neoliberal na vida humana. “Neoliberalismo é o estreitamento do espaço dos direitos e o alargamento do espaço dos privilégios. O neoliberalismo define o indivíduo como capital humano, empresário de si mesmo, destinado a uma competição mortal que tem o nome de meritocracia”, aponta. “É preciso compreender o papel econômico e político do neoliberalismo, mas também seu papel ideológico, que induz à competição, ao fracasso e ao ódio.”

O neoliberalismo não se limita a vender empresas públicas, mas privatiza também os direitos, que são transformados em serviços para comercialização no mercado, apontou a filósofa.

De acordo com ela, o direito à informação se choca com a narrativa hegemônica. “Os meios de comunicação de massa estimulam o narcisismo em detrimento da opinião pública”, explica. “Você não tem mais fatos, mas versões associadas a suas preferências. É uma coisa sinistra”, diz Marilena.

“A sociedade da razão coloca o conhecimento como uma força produtiva. Quem produz mais valia é o conhecimento, é o trabalho imaterial, o que é feito a partir da informação. Quem detém o conhecimento tem o direito de comandar quem não tem. Daí o poder do formador de opinião”, aponta.  ”O discurso competente define de antemão quem fala e quem deve ouvir. E define a forma e o conteúdo do que deve ser dito e ouvido.”

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Ideologia da competência

A filósofa explicou que, sendo uma sociedade, por essência, antidemocrática, a comunicação no Brasil tem um papel ideológico e alinhado ao neoliberalismo. “O jornalismo deixa de ser informativo para ser opinativo”, disse.

O que passamos a ter, então, é o direito de todos opinarem sendo substituído pelo direito de só alguns, ou seja, a restrição da voz dos sujeitos. “A ideia de que existe um formador de opinião [sejam pessoas ou veículos] parte do princípio de que nós não temos opinião, só sentimentos”, afirmou.

Internet

Este estado de indivíduo passivo da informação nos influencia cotidianamente. É quando pensamos na discussão da Internet, o debate fica ainda mais perigoso no sentido de que o meio virtual, hoje, apenas camufla os seus objetivos: ao contrário do que se imagina, ele não é um espaço democrático.

“A internet nasce em um estrutura econômica que ela mantém invisível. Ela não aparece como um instrumento econômico, mas um ambiente universal de comunicação. (…) A internet nos coloca em uma contradição: de um lado atravessa as fronteiras sociais e políticas, parece permitir aos grupos se apropriar de seu ambiente. Por outro lado, as práticas determinam complexas relações fragmentadas em um espaço inexistente, e operam a obediência e sedução, camufladas de liberdade de escolha. ‘Escolher o que? Escolher obedecer’”, explicou.

Lula

Diante da estrutura comunicacional atrelado ao neoliberalismo, sair do estado passivo, entender o indivíduo como ser que possui “pensamento” e não apenas “emoções” é uma tarefa extremamente complicada.

Revisando os pensamentos do filósofo marxista Antonio Gramsci, e frisando a continuidade foi processos de golpe no país, Juarez apontou para um primeiro passo. “Não se separa comunicação da política”, disse.

“Pela primeira vez na história do PT, formamos uma consciência autocrítica sobre a valiosa necessidade de colocar no primeiro plano da nossa práxisa comunicação política”, pontuou.

Desta forma, o professor frisou o papel protagonista dos comunicadores e comunicadoras para a construção de uma.narrativa que culmine na liberdade de Lula.

“Lula foi, desde a fundação do PT, e é cada vez mais em sua caminhada, o nosso maior comunicador. A única liderança nacional da esquerda brasileira que fala para milhões. Única potência de voz pode fazer contraponto no mesmo patamar com a Rede Globo de Televisão. Por isso, para os golpistas, não era suficiente impugnar sua candidatura à presidente, nem mesmo prendê-lo. Mas era preciso calar a sua voz. No ato histórico de resistência em São Bernardo, ele nos passou este direito de voz. Trata-se agora de construir o direito púbico de liberdade de expressão da esquerda”, frisou.

À tarde do sábado foi dividida em painéis de discussão: redes sociais, audiovisual, rádio e jornalismo.

 

 

Fonte: CUT-RS com Rede Brasil Atual e Brasil de Fato