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Golpe, Lava Jato e Bolsonaro aprofundam desemprego e desindustrialização

17 julho, quarta-feira, 2019 às 9:54 pm

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Estaleiro (2)

Estaleiro (2)

Não é preciso ter uma bola de cristal para enxergar os efeitos perversos do golpe de 2016, da operação Lava Jato e do governo Bolsonaro na economia brasileira, especialmente o aprofundamento do desemprego e da desindustrialização. Os sinais visíveis se encontram em todos os estados.

No Rio Grande do Sul, recentemente quatro empresas anunciaram o encerramento de suas operações. A Duratex, fabricante de louças e metais sanitários das linhas Deca, Hydra, Ceusa, Durafloor, redistribuiu a produção da fábrica de São Leopoldo para outras unidades do país, deixando mais de 480 desempregados. O principal motivo, segundo a direção da empresa, foi a queda vertiginosa do setor da construção civil.

A unidade de Palmeira das Missões da multinacional Nestlé, empresa em operação há 10 anos e agraciada com vários incentivos fiscais, também fechou as portas e demitiu 18 trabalhadores. Em nota, a empresa alega que houve uma forte diminuição no consumo de lácteo. As atividades de Palmeira das Missões serão absorvidas pela planta de Carazinho, 18 trabalhadores foram abandonados a própria sorte.

Com mais de quatro décadas de tradição, a Metalúrgica Bringhenti, no município de Guaíba, não conseguiu contornar a crise e abriu falência. Um total de 17 trabalhadores foram dispensados.

No começo de junho, uma empresa líder do ramo calçadista, a Paquetá Calçados, migrou a produção de dois milhões de pares de calçados por ano da cidade de Sapiranga, onde atuava desde 1945, para a região Nordeste e República Dominicana. A empresa de calçado Ramarin, de Nova Hartz, cidade vizinha a Sapiranga, prometeu assumir parte das operações, mas não evitou a demissão de muitos trabalhadores.

Tendência de desindustrialização vem desde a década de 1990

“O fechamento de empresas faz parte de uma tendência de desindustrialização que nos persegue desde os anos 90, com a desastrosa abertura econômica sem qualquer resguardo ao parque produtivo brasileiro, promovida pelo governo Collor e acentuada nos dois mandatos do presidente FHC”, afirma o presidente da Federação Democrática dos Sapateiros do RS, João Batista Xavier.

Batista

No período de 2002/20014, nos governos Lula e Dilma, inaugurou-se um conjunto de políticas setoriais de fomento, aumento do gasto público em atividades industriais e fortes incentivos e desonerações, mas não logrou êxito suficiente para alavancar uma nova etapa de crescimento da indústria brasileira.

Na década de 80, a indústria representava 40% do PIB, hoje representa apenas 22%. A participação da indústria de transformação no PIB, no ano passado, foi de 11,3%, a menor desde 1947.

“A tendência é de uma grande derrocada da indústria, pois a política do atual governo é não ter política industrial, isso é mortal para o país e para os empregos. Nenhuma nação se desenvolve sem uma indústria forte”, afirma o presidente da Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, Lírio Segalla Rosa.

Lírio (2)

Para ele, não é possível que setores nobres da indústria sobrevivam por muito tempo, operando com níveis tão baixos de utilização da capacidade instalada: o setor de máquinas, 63,8%; a metalurgia, 76,2%; a automobilística, 71,4%; a indústria química, 74,4%. “O pessimismo no seio do empresariado é assustador”, destaca Lírio.

O secretário de Relações de Trabalho da CUT/RS, Antônio Güntzel, que é sapateiro, também se mostra preocupado com os rumos da indústria .“Os investimentos estão paralisados e os níveis de ociosidade apontam para um buraco sem saída. Infelizmente, as notícias de fechamento de fábricas farão parte do nosso dia a dia”, constata.

Antonio (3)

Lava Jato destruiu 75 mil empregos no RS

A indústria emprega 9,4 milhões de trabalhadores no Brasil e responde por 20% do mercado de trabalho formal. O emprego na indústria é ainda o melhor remunerado e um posto de trabalho perdido no setor é desastroso. 

Os índices de desemprego demonstram que estamos mergulhados em uma perigosa recessão. São 13 milhões de desempregados e 26 milhões de trabalhadores semi-ocupados, que gostariam de ter um trabalho regular, mas só encontram “bicos”. As projeções de crescimento do PIB a cada mês declinam e 2019 será mais um ano perdido na recessão. 

“A indústria é o segmento onde mais se perde emprego. Isso é inaceitável e demonstra que as elites não tem nenhum compromisso com os trabalhadores do país”, denuncia o presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo.

Claudir de boné

Para ele, que também é metalúrgico, outros fatores colaboraram para a derrocada da indústria. Em 2014, o Brasil possuía uma taxa de desemprego de 4,8%, a menor já registrada, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Logo em seguida veio o movimento do impeachment que resultou no golpe de 2016, onde os poderosos donos da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) tiveram papel destacado com a figura do pato amarelo, e a operação Lava Jato que abriram uma série de incógnitas para a retomada do crescimento econômico.

Ao longo de seus cinco anos de existência, a força-tarefa de Curitiba prendeu todos os principais executivos de empreiteiras ligadas à construção civil no país. Entre eles, executivos da Ecovix, companhia responsável pelas obras do Polo Naval de Rio Grande, em especial a plataforma P75, que recentemente foi vendida como sucata por R$ 100 milhões à Gerdau, multinacional do ramo siderúrgico.

“A Lava Jato destruiu 75 mil empregos no Rio Grande do Sul, diretamente nas áreas de petróleo e gás. O ramo da engenharia de construção civil, que faturava mais R$ 80 bilhões por ano, passou a lucrar R$ 10 bilhões, o que representou um brutal crescimento do desemprego no setor”, lamenta Nespolo, que atribui o desmonte à incapacidade da força-tarefa da operação em investigar sem prejudicar os negócios das empresas e sem afetar os empregos dos trabalhadores.

Para o presidente da CUT, o trabalhador é quem paga a conta da crise. “A Lava Jato quando criminaliza a atividade econômica e não o empresário responsável não faz isso aleatoriamente. As elites querem transformar o Brasil em um grande fazendão de suprimento de grãos, proteínas de origem animal e matéria prima. O pouco de indústria que sobreviverá servirá ao setor do agronegócio. Isso é muito pouco para um país das dimensões do Brasil”, aponta Nespolo.

Acordo entre União Europeia e Mercosul

Preocupadas com os impactos do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro, em 28 de junho, a CUT e demais centrais – CSB, CTB, Força Sindical, Nova Central e UGT – divulgaram uma nota, alertando que este tratado poderá impor mais barreiras para a superação do atraso de países do Mercosul.

Mercosul e União Europeia

Segundo as centrais, com o acordo os países do Mercosul continuarão exportando bens com pouco capital humano e de baixo valor agregado e importando produtos com muito capital humano e enorme valor agregado.

“Os prazos estreitos ameaçam ainda mais uma transição ordenada dos setores produtivos, com impactos substanciais tanto na quantidade quanto na qualidade do emprego em ambas as regiões, além de resultar em situações imprevistas de deslocamento social (migrações do campo para a cidade, desemprego industrial em massa, etc.) – ainda mais se considerarmos a brutal assimetria na competitividade entre os dois blocos econômicos”, diz um dos trechos da nota.

“É um acordo espúrio que só favorece a União Europeia. Um governante que tivesse compromisso com a soberania nacional jamais concordaria com uma iniciativa dessas”, conclui Nespolo.

 

Fonte: CUT-RS