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Fórum Social Mundial completa 15 anos de trajetória em 2016

3 novembro, terça-feira, 2015 às 8:46 am

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olivio

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Em 2016, o Fórum Social Mundial (FSM) chega a seu 15º ano como uma fonte de onde beberam manifestações da era digital, como o Occupy Wall Street, a Primavera Árabe, e que deram projeção à cidade de Porto Alegre como “um berço de experiências inovadoras que foram inspiração para o mundo”. Essa é a opinião da antropóloga Moema Miranda, diretora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), uma das entidades que integram permanentemente a organização internacional do evento.

“Coisas que falávamos em 2001, de criar um movimento descentralizado, não hierárquico, com a expressão de diferentes posições e de não ser um palco para governos nem partidos, são iniciativas nas quais esses movimentos mais contemporâneos se inspiraram”, acredita Moema, que os chama de “filhos do Fórum Social de Porto Alegre”.

Ela também relembra os motivos que levaram à escolha da capital gaúcha nas conversações preliminares para a realização do evento. “Tínhamos que encontrar um lugar no mundo onde a experimentação democrática, em sua radicalidade, estivesse acontecendo e pela qual se pudesse dizer que era possível fazer diferente. E Porto Alegre, naquele momento, tinha todas as condições para isso”, diz, em alusão ao Orçamento Participativo, que em 2014 fez 25 anos de implantação. Com isso, avalia Moema, “Porto Alegre ganhou uma projeção mundial que não possuía antes do evento”.

Mesmo sem receber o FSM, que acontecerá em agosto próximo em Québec, no Canadá, Porto Alegre sedia, a cada dois anos, edições temáticas desde 2010. De 19 a 23 de janeiro, a programação será voltada à reflexão sobre a origem do evento e seus desdobramentos em nível mundial.

Olívio Dutra (PT), ex-prefeito de Porto Alegre e governador do Estado na época do primeiro FSM, diz que “os motivos do fórum seguem cada vez mais vivos”. “A realidade mundial continua apresentando sérios problemas em relação ao contato do ser humano com a natureza, a tecnologia e seu uso para tornar a democracia mais consolidada. O mundo ainda não mudou para melhor”, considera.

Para Olívio, o mérito do fórum é instigar o protagonismo do sujeito coletivo. “A sociedade pode se autogovernar. O ato de administrar a máquina do Estado tem de estar sob o controle da sociedade, que tem de constituir governos guiados de forma transparente e democrática, representando os interesses da evolução social”, acredita.

Para o Fórum Temático 2016, a organização negocia a presença de algumas das personalidades que marcaram o encontro da esquerda, como o sindicalista francês José Bové, presente na primeira edição do fórum, além de prestar homenagens a nomes que estão na posteridade. “O show de abertura será em tributo aos escritores Eduardo Galeano e José Saramago”, adianta Mauri Cruz, que coordena o comitê de apoio local ao FSM. O fórum temático coincide com a realização do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, que ocorre de 20 a 23 de janeiro.

O comitê também já convidou novos expoentes de movimentos sociais e discussões atuais, como o economista francês Thomas Piketty, que fez uma revisitação do livro “O Capital”, de Karl Marx, e os movimentos que protagonizaram as primeiras ações da Primavera Árabe, na Tunísia e que sediaram as últimas edições do FSM. “Nomes latino-americanos, como os presidentes do Equador, Rafael Correa, e da Bolívia, Evo Morales, dependem da agenda da presidente Dilma Rousseff (PT)”, explica Mauri Cruz. A presença dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Pepe Mujica, do Uruguai, é quase confirmada por não depender de ritos diplomáticos, garante o organizador.

O FST deverá concentrar suas atividades no Parque da Redenção, com a programação principal centralizada no Auditório Araújo Vianna.

Crise no Hemisfério Norte motiva próxima edição no Canadá

A cidade de Québec, capital da porção francófona do Canadá, é a primeira localidade do Hemisfério Norte a receber uma edição centralizada do Fórum Social Mundial. Para Moema Miranda, antropóloga e diretora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), a mudança do polo geográfico reflete as transformações recentes no jogo político mundial. “Sul e Norte continuam os mesmos, mas as elites do Sul, hoje, têm uma presença internacional que não tinham no começo dos anos 2000, e vice-versa: as fragilizações e dificuldades que acontecem no Norte se quintuplicaram”, avalia.

Moema cita como exemplo os programas de austeridade europeus, que impactam principalmente países como Grécia e Portugal, e a questão da nova onda migratória, em parte composta por refugiados da Síria. “Isso é muito distinto do que tínhamos há 15 anos, quando o que havia era um movimento de solidariedade do Norte progressista com o Sul. Essas questões, na época, não eram domésticas”, analisa.

No caso específico do Canadá, o fator determinante para receber o fórum, de acordo com a antropóloga, que integra o comitê internacional de organização do FSM e que participou das conversações que culminaram na transferência do evento, foi a forte tradição dos movimentos sociais do país e uma realidade local que inclui “a negação dos direitos dos povos originários e a perda de conquistas sociais”, diz. “O deslocamento geográfico do fórum sempre teve o sentido de fortalecer dinâmicas locais e reverberar a organização da sociedade civil.”

Desde 2001, o evento já passou por Porto Alegre, Mumbai (Índia), Nairóbi (Quênia), Belém do Pará, Dakar (Senegal) e Túnis (Tunísia), além de ter tido uma edição policêntrica em 2006, em Bamako (Mali), Caracas (Venezuela) e Karachi (Paquistão); e edições descentralizadas (temáticas) em dezenas de eventos ao redor do planeta em 2008, 2010 e 2012. A partir de então, nos anos pares, houve a realização do Fórum Temático em diversas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre.

FSM

Fonte: Jornal do Comércio