Central Única dos Trabalhadores

Entregadores por aplicativos param em Porto Alegre contra precarização do trabalho

1 julho, quarta-feira, 2020 às 6:09 pm

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Paralisação dos entregadores1

Paralisação dos entregadores1

O frio de 12ºC do inverno gaúcho não foi empecilho para dezenas de entregadores de alimentação por aplicativos, que se reuniram na manhã desta quarta-feira (1º), na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre, durante a greve nacional de 24 horas por melhores condições de trabalho e renda. Eles protestaram contra a precarização a que são submetidos pelas empresas, como Uber Eats, iFood e Rappi, dentre outras. Houve também uma caminhada à tarde que passou por várias ruas da Cidade Baixa.

A mobilização foi também chamada de “Breque dos Apps” e ganhou força nas redes sociais, com o compartilhamento de mensagens e depoimentos, alcançando até países como Argentina, Equador, Chile e México, onde o movimento da categoria por direitos também cresce.

Convocado de forma descentralizada, a partir de um manifesto elaborado nacionalmente pelos entregadores, a paralisação é uma estratégia de sensibilizar a sociedade para uma nova forma de exploração do trabalho que aumenta cada dia mais e se popularizou no Brasil.

O fenômeno é chamado de uberização e desafia as entidades sindicais e, em alguns países europeus, inclusive o poder público. Em Londres, a prefeitura chegou a proibir os aplicativos de delivery por causa do desrespeito às condições de trabalho pelos prestadores de serviço.

Paralisador2

Enfrentar o novo ciclo de exploração do capitalismo

“A CUT aprovou em seus últimos congressos que é preciso organizar esses profissionais autônomos para enfrentarmos este novo ciclo de exploração do capitalismo, que faz com que o indivíduo banque com os seus bens o trabalho que desempenha, sem nenhum direito trabalhista ou contrapartida, além de explorar o corpo das pessoas, aumentando o risco de acidentes e lesões”, afirma o presidente da CUT-RS, Amarildo Cenci.

Segundo ele, “não há hora, clima ou temperatura, pois o ciclista ou motoboy de aplicativo tem de estar permanentemente à disposição das empresas. São companhias que, geralmente, possuem poucos funcionários em seus escritórios e lucram absurdamente”.

Amarildo pretende se reunir com lideranças dos entregadores para ajudar a construir uma estratégia de luta para regulamentar a profissão.

Rappi

Basta de precarização das condições de trabalho

Sob o lema “basta de precarização das condições de trabalho”, dentre as reivindicações da categoria estão o aumento do valor pago por quilômetro rodado, aumento do valor mínimo por entrega, fim do sistema de pontuação e restrição local.

Os entregadores também denunciam os bloqueios feitos pelas empresas, quando algum deles se nega a fazer corridas que não compensam financeiramente, e também contra o desrespeito à categoria, que corre grande risco de contaminação pelo coronavírus, pois circula dia e noite em todos os locais, enquanto a maioria da população se isola para se proteger da doença.

Entregador nas ruas

“Ganhamos muito pouco pelo risco que corremos”

“Nós estamos ganhando muito pouco pelo risco que corremos, como o de nos acidentarmos durante uma entrega ou o de pegar a covid-19. Hoje recebemos em média R$ 3,50 por pedido entregue, um valor que não cobre nenhuma das nossas necessidades”, denuncia Eduardo* que, após perder o emprego, está há seis meses entregando pedidos de bicicleta.

Há um ano e três meses pedalando para os principais aplicativos de delivery, Leandro* reclama dos bloqueios indevidos. “O cliente reclama para o aplicativo para conseguir descontos e o entregador acaba sendo bloqueado pelo sistema do app e impedido de trabalhar. Isso já aconteceu com diversos colegas meus, pessoas que estão desempregadas e precisam entregar comida para os outros para poder viver e sustentar mulher e filhos”, desabafa.

“O valor das corridas é absurdamente baixo e nós achamos que, sobretudo em tempo de pandemia, deveríamos estar recebendo o dobro ou quádruplo por cada entrega. É o mínimo para quem passa 12 horas de olho em um aplicativo sem parar nem para descansar”, completa Leandro.

“Antes da pandemia, o valor que recebíamos por uma entrega equivalia a três ou quatro vezes mais do que recebemos hoje por um único pedido. Estamos recebendo menos e o lucro da Uber e do iFood só aumentam”, observa Leandro, que depende do dinheiro para dividir o valor do aluguel da casa em que mora com amigos.

“Tive meu celular roubado em uma das entregas e ficou por isso mesmo. O trabalhador que se vire para compensar o prejuízo. Mas se eu estava trabalhando na hora do assalto, como pode uma empresa não me ressarcir”, pergunta o entregador, que ficou sabendo do ato devido a um grupo de WhatsApp criado especialmente para mobilizar a categoria para a greve nacional.  

Coletivo1

Sistema injusto fomenta desorganização dos entregadores

Poucos metros à frente do local da manifestação, entregadores enchiam suas mochilas em uma lancheria de fast food e saiam para fazer entregas. Eduardo lamentou o fato e disse que a dinâmica do sistema de delivery contribui para que os trabalhadores mais necessitados furem a greve.

“Quanto mais entregadores em uma região, menor é a dinâmica de preços das corridas.  Hoje, um dia de greve, como há menos ciclistas e motoboys circulando, o valor da entrega aumenta, o que deixa aquele trabalhador que mais precisa tentado a furar a greve. É triste, mas não vamos desistir, estamos apenas no começo”, garante o entregador, que se mostra esperançoso com o futuro da organização de sua categoria.

Paralisador

Mulheres discriminadas

Suzana* perdeu o seu estágio na agência de um banco e há dois meses faz entregas para a Rappi, empresa multinacional do setor de comida. Ela reclama que as mochilas utilizadas para as entregas não levam em consideração a anatomia do corpo feminino, apertando o peito das ciclistas e prejudicando o desempenho profissional. Como se isso não fosse suficiente, a mulher denuncia casos de sexismo.

“Quando você é homem e está com pouca demanda, o aplicativo recomenda que o entregador mude de local. Já quando é uma entregadora, ele apenas mostra uma mensagem, dizendo que é necessário haver mais homens na região em que se está trabalhando, sem sugestão nenhuma. Perdi várias corridas por causa disso”, lamenta.
 

*Os entregadores pediram para não ter o nome completo creditado para evitar retaliações.

Entregadores em Porto Alegre

 

Fotos: Marcus Perez / CUT-RS

 

Fonte: CUT-RS