Central Única de Trabalhadores

Em reunião na CUT-RS, pesquisadora apresenta estudo sobre jovens trabalhadores e movimento sindical

17 abril, quarta-feira, 2019 às 5:43 pm

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Em reunião do Coletivo de Juventude da CUT-RS, ocorrida na última sexta-feira (12), em Porto Alegre, a jornalista, economista e mestra em Sociologia, Mariana Hansen Garcia, apresentou um estudo feito durante mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sobre a visão de jovens metalúrgicos e telefônicos acerca do mundo do trabalho e do movimento sindical. A pesquisa foi realizada em 2018.

O encontro, que contou com a participação de jovens dirigentes de vários sindicatos, foi coordenado pela secretária de Juventude da CUT-RS, Letícia Raddatz. Também compareceram outros diretores da Central, interessados em conhecer o estudo da pesquisadora para ajudar a pensar estratégias e ações para atrair os jovens para as lutas sindicais e melhorar as condições de trabalho.

O afastamento da juventude dos sindicatos

“Por que a juventude está tão afastada dos sindicatos?”, foi uma das perguntas da pesquisa. Segundo Mariana, há fenômenos sociais que precisam ser analisados. “As questões sociais, elas dificilmente têm uma resposta única e fechada”, disse.

A pesquisadora verificou que “a filiação aos sindicatos é bem mais baixa entre os jovens e isso já é um fenômeno que vem de algum tempo”. Além disso, a juventude é minoria nos espaços de poder dos sindicatos. 

Condições precárias de trabalho

Mariana chama a atenção para “as más condições de trabalho da juventude em comparação à população adulta”. Ela constatou que “parte dos jovens estão em ocupações tão precárias que nem têm a possibilidade de se sindicalizar”.

O crescimento da informalidade e do desemprego também merece destaque. Houve melhoras nas condições de trabalho entre 2003 e 2014, nos governos Lula e Dilma, em todos os indicadores, como remuneração, carteira assinada e queda do desemprego. “Mas a situação voltou a piorar a partir de 2015”, observou, alertando que pode se agravar ainda mais com a reforma trabalhista.

Conforme a pesquisadora, o fenômeno dos nem-nem ou sem-sem também precisa ser levado em conta. Conforme dados do Ipea, o Brasil está entre os três países com a maior porcentagem de jovens que não estudam nem trabalham (23%) ou estão sem estudo e sem trabalho. Apenas México e El Salvador tem uma porcentagem maior.  No caso dos homens, a maioria procura emprego. Já a maioria das mulheres está cuidando de filhos pequenos, da casa ou de familiares idosos.

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Rotatividade dificulta identidade profissional

“Os jovens alternam entre muitos empregos, as taxas de rotatividade, que calculam o tempo que os trabalhadores ficam em cada trabalho, são mais altas entre os jovens”, apontou Mariana.

“Pesquisa feita pelo Observatório da Juventude, em 2014, mostrou que os jovens associam o emprego em que estão ao sustento financeiro, mas mantêm o desejo de ter melhor emprego, que traga realização pessoal”, salientou.

Segundo os dados do Observatório da Juventude, “a grande maioria dos entrevistados apontou haver um trabalho que gostariam de fazer (79%), mas só 6% gostam da ocupação que estão inseridos”.

“As melhorias nas condições de trabalho para esses jovens, elas aparecem relacionadas à troca de trabalho. Essa transição dos jovens, entre diferentes empregos e ofícios, dificulta a identificação com uma categoria específica”, frisou Mariana, o que influencia também na disposição de participar da vida sindical.

Medo do desemprego

“O receio no envolvimento com o sindicato passa tanto pelo medo de sofrer represálias individuais quanto por medo de prejudicar a empresa, gerando demissões ou o fechamento da empresa”, mostrou a pesquisa.

Segundo Mariana, “a forma mais antiga de controlar os trabalhadores, ou de ameaçá-los, é a coerção que está ligada a esse controle baseado na supervisão, em um olhar externo que visa coagir os funcionários a cumprirem suas tarefas de acordo com o desejo da empresa”.

“Mas agora, além dessa forma clássica, tem uma forma de controle que é baseada no consentimento, se baseia na ameaça de fuga de capitais, ou seja, na mudança da empresa para outro lugar, onde seja possível obter maiores taxas de lucro, gerando perda dos empregos”, constatou.

“Não se trata de reprimir o trabalhador individual, mas sim de incitar todos os trabalhadores a dar o seu melhor para garantir que a empresa continue funcionando naquele espaço, garantindo assim a as vagas de emprego. Os próprios trabalhadores fazem concessões, sacrifícios em nome da empresa”, apurou o estudo.

Para ela, essa realidade é preocupante para o futuro do trabalho, no momento em que o governo Bolsonaro ameaça com a implantação da carteira verde e amarela, que teria regras mais flexíveis e sem direitos trabalhistas.

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Descrença nas instituições políticas

A pesquisa comprovou que há uma desconfiança grande dos jovens com relação à política tradicional, especialmente os partidos políticos. Segundo Mariana, a falta de representatividade e a dificuldade de inserir temas que tratem da juventude são uma das explicações do afastamento dos jovens da política tradicional.

“Ao mesmo tempo, a descrença nas formas tradicionais de participação não representa um não reconhecimento ou desvalorização da política. Os jovens acham que a política é importante, mas desconfiam das instituições e da capacidade do Estado de garantir direitos”, disse a pesquisadora.

Conforme o estudo do Observatório da Juventude, mais da metade dos jovens (54%) consideram a política algo muito importante e para 29% ela é mais ou menos importante. Apenas 16% dos jovens consideram que a política não é nada importante e 1% afirmou não saber.

Os partidos políticos detêm a maior rejeição. Os sindicatos também foram mal avaliados, porém a porcentagem de jovens que estariam dispostos a se engajar nessas entidades (34%) é bem maior do que em partidos políticos.

Diante desse quadro, Mariana afirmou que “cabe também aos sindicatos valorizarem e reforçarem a importância dos partidos políticos”. Ela, porém, frisou que “uma ligação muito forte com os partidos pode afastar pessoas dos sindicatos”. Para a pesquisadora, “o jovem quer discutir política hoje, principalmente após as manifestações de 2013. É um espaço pros sindicatos disputarem o conteúdo”, apontou a pesquisadora.

A importância da comunicação

“Muitos jovens não sabem o que é um sindicato. E com as terceirizações, a pulverização das empresas, o teletrabalho, fica mais difícil acessar esses jovens pessoalmente. Investir em redes sociais pode ser um caminho, com certeza não o único. Acessar os jovens em outros ambientes, nas comunidades, em manifestações da juventude, festas, festivais, praças e até mesmo nas igrejas”, salientou Mariana.

Ela ressaltou que o trabalho sindical junto aos jovens deve ser permanente. “Não dá pra falar com as pessoas só em época de eleições.”

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O que mobiliza a juventude

Mariana constatou que as pautas identitárias (gênero, sexualidade, raça) são discussões que não devem ser apenas feitas nos nichos. “Porque a gente vive numa sociedade machista, racista, homofóbica. Por isso, a gente tem que aprender a não ser machista, racista ou homofóbico.  Não é apenas as pessoas se ‘empoderarem’, lutarem por seus direitos”, enfatizou.

Para ela, “é necessário discutir como incluir essa perspectiva dentro da esquerda e dentro dos sindicatos. As bandeiras identitárias, quando ‘desligadas’ da questão de classe, são apropriadas pelo capitalismo”.

“A primazia da unidade não dá espaço para discussões acerca da heterogeneidade da classe operária, o que levaria a um falso conhecimento do que é uma classe social”, avaliou a pesquisadora.

“O meio ambiente como possibilidade de conexões entre pautas de exploração do trabalho e de preservação da natureza, ou de alternativas sustentáveis, pode ser um caminho para os sindicatos de trabalhadores rurais ou de agricultores familiares”, destacou.

“O direito à cidade, à moradia, à utilização de espaços públicos, ao carnaval, ao transporte público, dentre outros pontos, abre também perspectivas para atrair os jovens e pautar os sindicatos”, concluiu Mariana.

 

 

Fonte: CUT-RS