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Documentário “Golpe” sobre acontecimentos de 2016 será lançado nesta quinta em Porto Alegre

21 janeiro, terça-feira, 2020 às 4:13 pm

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Golpe - filme

Golpe - filme

Brasil de Fato RS – “Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família, pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim.” Assim declarou seu voto pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) o então deputado federal Jair Bolsonaro (sem partido), em 17 de abril de 2016.

Estava ali, mais uma vez exposto, a misoginia, o machismo, a idolatria à ditadura. Também, implicitamente, o autoritarismo, que três anos depois vai se solidificando no poder. Como em 2016, Bolsonaro não está sozinho. É o que apresenta o documentário "Golpe", que faz uma cronologia e reflexão sobre os fatos políticos recentes que marcam a destituição de Dilma e a prisão de Lula no Brasil.

Mesclando imagens capturadas presencialmente e de outras plataformas, o filme de Guilherme Castro e Luiz Alberto Cassol traz depoimentos de pensadores, militantes, estudiosos. A estreia nacional acontecerá nesta quinta-feira (23), em sessão de debate com a presença dos diretores, equipe e participantes do filme. A sessão ocorre às 19h30, na Cinemateca Paulo Amorim, da Casa de Cultura Mário Quintana, no centro de Porto Alegre. O filme permanece em cartaz até o dia 29.

Em tempos de democracia em vertigem, o Brasil de Fato RS conversou com os realizadores sobre o filme, o golpe que ainda está em curso e a situação atual do audiovisual no país. “A consequência daquilo que aconteceu em 2016 é nefasta e nebulosa para o Brasil, e estamos vivendo ela hoje, na economia, na cultura e nas questões sociais. Toda e qualquer capacidade de dialogo e inclusão está sendo tirada nesse país”. 

Luiz Alberto Cassol e Guilherme Castro exibem poster do filme / Foto: Fabiana Reinholz

Confira a entrevista:

Brasil de Fato RS: Como surgiu a ideia do filme?

Guilherme Castro: É um filme que contextualiza, uma militância contra o golpe, é um filme político e de posicionamento, porque parte de uma perspectiva de engajamento no processo político que estávamos vivendo. O Cassol e eu temos uma trajetória de envolvimento há bastante tempo, em várias frentes de atividade, de construção e de debate político.

Desde 2015 eu vinha gravando algumas coisas. Em 2016, durante o Festival Oberá, na Argentina, em uma reunião do Fórum Entre Fronteiras, tivemos a ideia fazer o filme. Tinha um processo que a gente percebia parecido na América Latina, um processo orquestrado, que não são fatos isolados dos países, mas que estão dentro de lógica de geopolítica e histórica, que muitas vezes, no dia a dia, vivendo as coisas, a gente deixa de prestar atenção. E com certeza, no caso brasileiro, estávamos bem alienado dessas forças políticas e dessas questões que estão sempre em jogo, que mexe com as riquezas, com o futuro da nação e a política do mundo. Estávamos todos entorpecidos, achando que as reformas estavam consolidadas, e mesmo a democracia, uma tremenda ingenuidade. Quando nos demos conta do golpe, já era tarde.

Nessa reunião, discutindo o processo político, tivemos a ideia de fazer um filme que articulasse o que estava acontecendo no Paraguai, porque nós tínhamos vivenciando o golpe sofrido por (Fernando) Lugo em um outro processo Entre Fronteiras, e também a ascensão da direita na Argentina. Então começamos a fazer um filme internacional que no meio do caminho virou um filme sobre o golpe brasileiro. Essa é a trajetória do filme.

Luiz Alberto Cassol: Ambos havíamos acompanhado e ido às ruas em 2013, e ali já havia o questionamento, o que está acontecendo? Ambos vínhamos registrando e gravando manifestações, o Guilherme com mais ênfase. Na ocasião, começamos a dar por conta como a mídia estava cobrindo tudo isso, como isso chegava por meio da internet. E começamos a buscar essa lógica da mídia, das plataformas, dessas informações que sobrepõem, que vão te minando. E a gente faz um link, a leitura que a gente tem de 2013 até tudo o que foi arquitetado para chegar em 2016 – ao golpe da presidenta Dilma. Decidimos pegar toda essa informação e trazer para dentro do nosso processo de construção do filme, e aí nasce o roteiro do Guilherme, o argumento do filme. O nome Golpe nasce durante o processo de construção do filme, assumindo que houve o golpe.

Guilherme: Fomos documentar o que estávamos vivendo durante o acontecimento. Estávamos participando das manifestações, debates. A primeira manifestação pró-golpe, que eu vi em Porto Alegre foi em 2014, uma semana depois da eleição, na feira do livro. A primeira manifestação contra o golpe foi na prisão do Lula, em março de 2016, quando o povo foi para rua.

Tentamos organizar uma leitura disso, uma visão particular do que estava acontecendo. Outra característica que considero importante é a possibilidade de fazer um discurso nacional a partir do nosso ponto de vista em Porto Alegre.

O filme tem uma discussão, uma reflexão conceitual importante: colocar o golpe como o estado das coisas, a lógica midiática em que estamos inseridos. Tem alguns fatores que para mim são novidades, que estão acontecendo recentemente e não estão nesse filme, ficarão para o próximo, como a presença das igrejas evangélicas, da influência das igrejas pentecostais. Outro dado fundamental é a questão do uso da rede social e da mídia.

Estamos em um momento superpovoado de imagens, de informações midiáticas. Procuramos trazer para o conceito do filme essa realidade. Ele tem, ao mesmo tempo, uma linha que é uma análise não-linear, mas dinâmica do contexto político, histórico, das causas e das características, e não é unânime, tem divergências nessa análise. E outra linha que olha para essa realidade de superpovoamento de imagens recuperando imagens midiáticas, o filme trabalha com imagem já midiáticas capturadas de outras plataformas. A gente faz costura de fragmentos midiáticos. É um filme que não é concluso, fica aberto, mas tem uma super clareza.

Vemos nos últimos anos uma forte polarização política. Durante a produção do filme, essa polarização na sociedade estava presente?

Cassol: Quando teve a pré-estreia no CineBancários, em agosto de 2018, tivemos muito mais comentários favoráveis do que contrários. Até porque, com um documentário que se chama Golpe, já estamos dizendo a que viemos. Muitas pessoas que viram disseram que a análise critica que o filme apresenta é para além do golpe.

Eu fiz uma postagem na minha rede social dizendo da trajetória e do preconceito que o filme sofreu pelo nome. Teve um exibidor nacional com quem eu tive um debate em Gramado, mandei o link do filme para ele, que se interessou pela temática, e posteriormente veio conversar comigo sobre o nome. Ele disse que não tinha como colocar em cartaz um filme chamado Golpe. A resposta minha foi que tem que discutir o golpe, e que não abria mão do nome.

Queríamos despertar para o que estava acontecendo. Óbvio que a polarização se dá, e óbvio que quando a gente coloca o nome de um filme de golpe, vai vir uma polarização. Queria, para além desse debate, que não houvesse censura por ninguém, nem preconceito por ninguém, por conta do nome do filme. E quem tem, que faça outro filme, que se discuta o outro lado.

O golpe continua?

Cassol: Para mim sim, ele continua, está em marcha, por isso que o filme continua em aberto. Ao final do filme, a perspectiva que eu tenho, enquanto expectador do filme que eu co-dirigi, é que ele continua em aberto porque a consequência daquilo que aconteceu em 2016 é nefasta e nebulosa para o Brasil, e estamos vivendo ela hoje, na economia, na cultura e nas questões sociais. Toda e qualquer capacidade de dialogo e inclusão está sendo tirada nesse país.

Guilherme: A tendência é recrudescer, a gente percebe o avanço do fascismo com um novo modelo pentecostal, aliado com miliciano. Então estou pessimista em relação a isso. Por outro lado eu fiquei, como todo mundo, bem animado com a indicação do Democracia em Vertigem para o Oscar, porque é superimportante para a opinião pública internacional, e acho que tem chance de ganhar porque tem qualidade para isso, e porque o Bolsonaro ajuda, funcionando quase como um cabo eleitoral.

Cassol: Achei o Democracia em Vertigem belíssimo. A Petra está recebendo esse bombardeio, essa polêmica, e o problema é que a direita, a direita golpista, tem exatamente receio do que o filme está fazendo, que é mostrar para todos nós aquilo que já sabíamos, que houve um golpe.

Tem uma cena emblemática no filme da Petra e a gente mostra no nosso filme, e é doloroso para nós colocarmos esta cena, mas ela precisa ser mostrada, que é quando o atual presidente Bolsonaro, na época da votação do impeachment, dedica o seu voto ao comandante Carlos Alberto Ustra (https://www.youtube.com/watch?v=xiAZn7bUC8A). Nós colocamos aquela cena no filme Golpe de forma muito debatida, porque é doloroso ouvir aquilo, um deputado apoiar um torturador e declarar seu voto abertamente. Portanto ali estava um voto também misógino e machista, que passa pelo contexto do golpe da presidenta Dilma, e que o Guilherme eu assumimos no filme. O filme assume também de forma aberta o caráter misógino que o golpe teve, para além das questões políticas.

Como vocês analisam a situação do audiovisual nesse primeiro ano de governo Bolsonaro?

Cassol: Está acontecendo um desmonte declarado da Ancine. Censura a filmes que tratam da diversidade , verbas que não foram repassadas, há uma censura explicita ao cinema brasileiro. O Guilherme e eu sofremos isso há um ano, com a dificuldade em colocar um filme chamado Golpe em cartaz. Se exibidores tem dificuldade de colocar um filme que se chama Golpe sem o assistir, isso é ou não é uma consequência de um governo fascista, de ultra-direita, que não aceita o diálogo sobre qualquer possibilidade, que tem uma manifestação clara de ódio, de repulsa a toda e qualquer manifestação cultural e possibilidade de reflexão?

Óbvio que o audiovisual está sofrendo isso. Existem séries, longas que estão paradas no Brasil. O que está sendo feito é ainda consequência do resultado do Fundo Setorial Audiovisual (FSA) e outros editais há dois anos. Não houve mais editais federais, há uma manifestação muito objetiva deste governo, de uma linha ultrafascista contra as possibilidades plurais de narrativas.

Guilherme: O que a gente percebe é um combate à cultura e à inteligência, um projeto antinacional. Além do aspecto cultural, o cinema é fundamental, central para a ideia de nação, de identidade cultural de representação. Todas as nações investem no cinema justamente para se constituir como ideia de cultura, se autorrepresentar, o cinema é central para isso. Há também o aspecto econômico, porque é uma indústria superpoderosa, e que no país estava em crescimento. Vínhamos estabelecendo uma atividade comercial importantíssima que é alimentação das TVs por assinatura, das plataformas, isso tudo a partir de uma atuação política do Estado. Aí veio o esvaziamento disso, o projeto antinacional e que vai ter gravíssimas consequências.

Cassol: Um projeto que mente ao informar ao público, ao desconstruir, por exemplo, a Lei Rouanet, ou ao dizer que o FSA está retirando dinheiro da saúde ou da área de segurança. Primeiro que são pastas e rubricas completamente diferentes, preestabelecidas. Segundo que o FSA é mantido pela própria cadeia produtiva do audiovisual, somos nós que através de uma taxa chamada Condecine mantemos e retroalimentamos a cadeia produtiva. Portanto há essa mentira que o governo diz.

Aliás, o audiovisual é responsável por 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) atual do Brasil, é uma das indústrias que mais cresceu, são 300 mil vagas em postos de trabalho diretos e indiretos que ele gira. É preciso que esses dados sejam ditos. Essa questão que o governo tenta colocar é um absurdo, a gente ter que ouvir frases como “existe um cinema feito por cineastas que ganham verba pública”. É um discurso completamente alienado.

Nós, no Golpe, temos uma situação emblemática. Guilherme e eu defendemos os editais do FSA, todas as leis de incentivo, mas o documentário foi feito de forma independente, porque nós queríamos fazer esse filme.

Recentemente o presidente Bolsonaro disse que o Brasil não faz bom filmes há muito tempo. Como vocês avaliam isso?

Cassol: O Bolsonaro diz que os livros são um montão de palavras escritas, os filmes para ele são um montão de imagens que tem que ser vista, só que ele não vê. Ele acabou de afirmar que não gostou do Democracia em Vertigem, que ele também não viu.

Temos um governo alienado, que tenta acabar com a indústria criativa brasileira e com a indústria audiovisual brasileira. Que tenta fazer um discurso de que tudo tem que se autofinanciar e que não sabe que a própria indústria hollywoodiana paga imposto para produzir seus filmes. As filmografias no mundo inteiro são financiadas também pelo Estado, as pessoas não se informam disso e esse governo tenta alimentar uma mentira.

Além disso é um governo que tenta o tempo inteiro dialogar com os Estados Unidos, de uma forma vergonhosa, totalmente subserviente. Virando as costas para o nosso país e as nossas possibilidades de discussão, para as nossas narrativas, isso quando o país está em um amplo processo criativo, basta olhar as premiações, os festivais que o Brasil tem participado, o número de produções que temos feito.

Esse governo quer terminar com a Ancine. Se não terminar, colocar uma Ancine com cabeças pentecostais à frente dela. Ou a gente vai e dialoga diretamente com isso, ou o que vamos ter daqui a dois anos é o fascismo piorado que esse governo implementa, porque ele quer aniquilar com a capacidade de pensamento reflexivo e o cinema é a possibilidade de pensamento reflexivo. A nossa forma de resistir é produzindo.

Assista ao trailer do filme

 

 

Fonte: CUT-RS com Brasil de Fato