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Correio do Povo – Juremir Machado da Silva: Abolição incompleta

11 maio, sexta-feira, 2018 às 7:35 pm

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Aboliçao

Aboliçao

O maior problema do Brasil não é a corrupção. É a desigualdade. Eis uma boa maneira de arranjar problema. Um lado saltará para dizer que estou querendo relativizar a roubalheira. É, em geral, o mesmo lado que fecha os olhos para a desigualdade que asfixia o país. Quem mata mais? A corrupção ou a desigualdade? Aí o sujeito perde a calma:

– Então não tem corrupção, é isso?

Tem corrupção e é grave. Mas a desigualdade é mais grave ainda. A desigualdade não é agravada pela corrupção? Talvez. As causas são diferentes. Medidas são tomadas para tentar sufocar a corrupção. Enquanto isso, a desigualdade dispara. Joaquim Barbosa queria ser presidente da República. Teria votos como inimigos da corrupção. Saberia como combater a desigualdade? Algum candidato sabe como fazer?

Há 130 anos, num domingo, o Brasil aboliu a sua mais infame instituição: a escravatura. Foram mais de 350 anos de parasitismo. Ainda não saldamos nossas dívidas com os construtores da nação e seus descendentes. Não foi um presente da Coroa. Não se deveu à generosidade da Princesa Isabel. Não se resumiu a uma coisa de brancos. Não decorreu apenas de uma longa pressão britânica. Não resultou simplesmente da evolução do capitalismo e da sua preferência pelo trabalho assalariado. Foi uma conjunção de fatores. O mais relevante deles sendo as lutas dos principais interessados, os negros, inclusive com fugas em massa de escravizados para quilombos.

Na segunda-feira, 14 de maio de 1888, o país amanheceu perplexo: não havia mais escravidão. Mas ainda havia escravos. Mais do que isso, havia um imaginário da escravidão que se manteria por décadas. Já acabou? A abolição é um processo incompleto. Falta abolir a desigualdade, que atinge principalmente negros. Falta abolir a discriminação, o racismo, o preconceito, o imaginário do parasitismo. Falta abolir o passado que se infiltra no presente e impede o futuro.

João Cândido Martins, na edição de A Redempção de 13 de maio de 1890, sintetizou resistência dos escravos: “Que maior injustiça, que maior perversidade poderá a imaginação humana conceber do que a destruição da República de Palmares? Quarenta infelizes pretos, fugindo ao bárbaro azorrague do cativeiro, distante de Pernambuco cerca de 30 léguas, e aí fundaram a sua república. Conseguiram mulheres índias e mestiças e desenvolveram-se desde 1630 até 1695, elevando a sua população a 20 mil almas. A princípio, urgidos pela fome, furtaram nas vizinhanças, mas logo que fizeram plantações e estas supriram os seus meios de subsistência, deixaram os furtos e se ocuparam do progresso de sua república, aumentando a sua lavoura, criando pequenas indústrias, estabelecendo comércio com os vizinhos, fazendo leis e aclamando o seu presidente que denominaram Zambi. O Brasil que precisava desenvolver-se, o Brasil que sempre reclamou de falta de braços e de população, ficou em 1695 privado desse elemento de prosperidade, pois que organizaram-se forças armadas, que lá foram aniquilar a república, roubando a felicidade e a vida de tantos seres, que tinham o direito de viver, gozar da liberdade e ser felizes”.

 

 

Juremir Machado da Silva é jornalista, escritor, professor, colunista do Correio do Povo e apresentador da Rádio Guaíba

 

 

Fonte: Correio do Povo