Central Única de Trabalhadores

Caminhada com velas em Porto Alegre exige justiça ao completar um mês dos assassinatos de Marielle e Anderson

13 abril, sexta-feira, 2018 às 10:00 pm

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Claudir com vela

Claudir com vela

Um dia antes de completar 30 dias dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes, ocorridos em 14 de março, no centro do Rio de Janeiro, a Esquina Democrática de Porto Alegre se iluminou numa vigília de velas acesas e palavras de militância, no final da tarde desta sexta-feira (13). O ato em memória do crime, ainda sem solução, pediu justiça e relembrou causas pelas quais ela, mulher negra, da favela da Maré, bissexual, lutou durante toda a vida política que teve.

O presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo, caminhou com uma vela na mão, expressando o sentimento de justiça para Marielle e Anderson e manifestando-se também contra a prisão injusta do ex-presidente Lula, detido desde sábado (7), em Curitiba, após ter sido condenado sem provas pelo juiz Sérgio Moro. “Queremos justiça e Lula livre”, disse.

Nos cartazes, manifestantes perguntavam “Quem matou e mandou matar Marielle Franco e Anderson?”, e criticavam a intervenção militar federal no Rio de Janeiro, uma das causas com as quais ela estava envolvida.

Marielle vive1

Camisetas e um tecido colorido grande levavam seu rosto olhando em frente. “Justiça, justiça” cantavam companheiros de partido como o deputado Pedro Ruas, a vereadora Fernanda Melchionna, o vereador Roberto Robaina e a ex-deputada Luciana Genro. Os gritos de “Marielle, presente” e “Marielle vive” ecoavam verdade na marcha que saiu em caminhada pela Rua dos Andradas.

Carla Zanella Souza estava participando da ocupação do movimento negro, na reitoria da UFRGS,

contra as mudanças nas políticas de cotas raciais, quando soube da notícia de que Marielle havia sido assassinada, no dia 14 de março. Ela conta que “chorou muito” e sentiu medo. Aos poucos, ele foi sendo substituído por raiva e indignação. Militante do coletivo Juntos Negros e Negras, do PSOL, ela havia conhecido a vereadora pessoalmente em reuniões do partido.

“A Marielle era essa figura que centrava nela todas as lutas. Ela tinha uma força e quem a conheceu sentia essa vibração. Infelizmente, ela se torna um símbolo, mas a gente não quer mais símbolos. A gente quer nossas mulheres negras ocupando os espaços que elas quiserem ocupar. Nós não queremos mais mártires. Marcar esses 30 dias, pedindo por Justiça, é fazer justiça para todos e todas que vieram e lutaram antes da Marielle. E que ela representava”, afirma ela.

Militante do Juntos, Carla conheceu a vereadora e sua força | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Vereadora jovem, de 35 anos, Marielle começou a carreira na política como assessora do deputado Marcelo Freixo, trabalhando na CPI que identificou e prendeu milicianos do Rio de Janeiro. Se formou socióloga pela PUC, concluiu mestrado em Administração Pública, com a tese “UPP – A redução da favela a três letras”. Em 2016, foi a quinta vereadora mais votada de uma da segunda maior cidade do país, com 46,5 mil votos, na sua primeira candidatura. Uma mulher negra, bissexual e “cria da Maré”.

Em meio a tantas causas, recém colocada como relatora da CPI que acompanharia a intervenção militar no rio de Janeiro, instituída pelo governo de Michel Temer (MDB) em fevereiro deste ano, Marielle era uma ativista de direitos humanos, em um dos país mais perigosos para ativistas de direitos humanos no mundo, segundo a Anistia Internacional.

Desmentir essa ideia de que direitos humanos defende bandidos

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), que acompanhou o ato na Capital, sabe bem. Alvo de ataques na internet e acusada de ser “defensora de bandidos” por abraçar a pauta, ela avalia que a execução de Marielle Franco foi também contra o que ela representava enquanto jovem mulher na política.

“Precisamos sensibilizar as pessoas. Desmentir essa ideia de que direitos humanos defende bandidos. Direitos humanos defendem a não-violência como princípio, uma polícia que seja pela vida e não cometa crimes contra qualquer ser humano. Inclusive, são os direitos humanos que enfrentam a impunidade e promovem leis. Só que isso foi disseminado tão fortemente, que agora é plataforma política de candidatos à Presidência da República”, afirmou ela ao Sul21.

Questionando o porquê de ainda não haver uma resposta, a deputada disse ainda: “[Esse crime] mostra que essa ideologia do ódio ela existe muito forte e foi disseminada no Brasil ao longo de anos. Não podemos parar, temos que seguir defendendo os direitos humanos, porque eles são a civilização contra a barbárie do ódio”.

Maria do Rosário falou da importância em seguir defendendo direitos humanos, na atual conjuntura | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Para o vereador Roberto Robaina (PSOL), esclarecer o crime e a manifestação por justiça em torno dele é importante para lutar “contra uma certa mexicanização do Brasil”.

“Nossa grande luta é para que haja identificação dos assassinos, dos mandantes, a razão pela qual a Marielle foi executada. Tenho suspeita que tem ligação com o crime organizado e com milícias, ou seja, que tem vinculação com um componente de degeneração das próprias forças de repressão do Estado. Isso precisa ser investigado. É um sinal de deterioração completa do regime político brasileiro”, avalia.

“Todos nós ficamos abalados quando soubemos da execução da nossa companheira. Queremos saber quem puxou o gatilho para calar as lutas que ela encarnava”, disse a vereadora de Porto Alegre, Fernanda Melchionna (PSOL).

Durante a semana, a investigação do crime teve alguns avanços. A perícia encontrou parte de impressões digitais nas cápsulas das balas 9mm usadas no crime. Nesta sexta, segundo reportagem do jornal O Globo, foi divulgado que a tese mais forte para a polícia é que o crime tenha sido motivado por denúncias de grilagem de terrenos. Milicianos estariam envolvidos com venda de lotes para condomínios.

No domingo, Alexandre Cabeça, assessor do vereador Marcello Siciliano (PHS), foi assassinado depois de seu chefe depor na Delegacia de Homicídios da Capital sobre o caso Marielle. Segundo o The Intercept Brasil, que denunciou a presença de indiciados pela CPI das Milícias na Câmara de Vereadores do Rio, no dia da morte da vereadora, antes de atirar, um dos assassinos teria gritado: “Chega para lá que a gente tem que calar a boca dele”.

Um mês ainda a espera de respostas e entender por que alguém mandou matar a vereadora de 46 mil votos do Rio de Janeiro. No sábado, diversos pontos do país irão amanhecer, em vigília perguntando o mesmo que se perguntavam na noite do dia 14 de março: Quem matou Marielle Franco e Anderson?

Confira mais fotos de Guilherme Santos – Sul21

 

Fonte: CUT-RS com Fernanda Canofre – Sul21