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Brasil 247 – Roberto Moraes: O Pix revela parte da financeirização ainda pouco percebida

20 outubro, terça-feira, 2020 às 9:17 am

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Dinheiro

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247 – O lançamento da plataforma Pix e os cadastros que estão realizados pelo Banco Central do Brasil com o argumento de ser um instrumento facilitador da movimentação financeira e um novo meio de pagamento, expõem de forma um pouco menos subliminar, a hegemonia financeira na economia atual, que nem sempre é percebida em nosso no dia a dia.

Ao contrário do que dizem, o índice de bancarização no Brasil não é tão baixo assim, a despeito de nossa pobreza, estamos hoje acima de 60%, índice que é superior à média mundial (50%) da população acima dos 15 anos. Nos países do capitalismo central esse índice fica entre 80% e 90%.

É sempre oportuno lembrar que o índice de bancarização em qualquer lugar do mundo está ligado diretamente à renda das pessoas. Por isso, o índice de bancarização no Brasil cresceu muito com os programas de renda mínima, em especial com o Programa Bolsa Família e outros implantados de forma concomitante, a nível estadual e municipal na primeira década deste século.

O próprio auxílio emergencial de seiscentos reais aprovado pelo Congresso Nacional em abril deste ano para atender a população em situação de emergência com a pandemia, também contribuiu para o aumento do índice de bancarização no Brasil, podendo ter elevado esse índice para algo próximo – e talvez acima – de 70%.

Esse crescimento da bancarização no Brasil se deu de forma especial, através da Caixa Econômica Federal, que é quem paga esse auxílio emergencial. Por conta disso, a CEF se reafirmou com como banco com o maior número de clientes no Brasil, tendo chegado no 3º trimestre deste ano, ao extraordinário número de 136,115 milhões.

Porém, com o cadastro das chaves na plataforma do Pix do BCB, que alcançou em apenas dez dias úteis o colossal registo de 39,2 milhões de usuários, chamou a atenção e despertou outras questões, já presentes no sistema financeiro nacional, mas até aqui pouco percebidas:

1)  A concentração da rede bancária, onde os cinco maiores bancos somados possuem cinco vezes mais clientes que os dez seguintes somados. No caso dos depósitos essa proporção é ainda maior.

2)  Outro importante destaque é a presença maior das Fintechs (nomenclatura derivada da expressão “Fin” de Finanças e “Tech” Tecnologia e que funcionam como bancos sem agências físicas que atuam apenas através de plataformas digitais e aplicativos). Apenas três fintechs já somam 18 milhões de clientes e representavam a metade do cadastramento de chave dos Pix na segunda semana deste registro cadastro junto ao Banco Central. A líder entre as Fintechs é o Nubank com 7,9 milhões de clientes, seguido do Inter com 6,8 milhões de clientes e o Original com 3,3 milhões de clientes.

3)  O terceiro destaque que merece registro é a presença das financeiras ligadas às redes de comércio varejista como destaque entre os 15 maiores bancos em número de clientes no país conforme tabela abaixo. Com o sétimo maior número de clientes está o banco (corretora/cartão) MidWay que é vinculado à Rede de Varejo Riachuelo. Outra varejista presente entre os bancos, com o décimo maior em número de clientes está o Banco CSF vinculado à rede (cartão) Carrefour. Tem-se ainda como décimo maior banco em número de clientes a Pefisa que é vinculado à outra tradicional empresa de varejo, Casas Pernambucanas.

Na lista de todos os cerca de 160 bancos autorizados hoje a operar no Brasil, há diversos outros casos de bancos e financeiras vinculados ao comércio, como o da Volkswagen e outras montadoras, que fazem parte do varejo ampliado.

Esses bancos (financeiras) vinculados diretamente às redes de comércio varejista demonstram aquilo que já se sabia (mais por intuição) a de que muitas vezes, mais importante que a venda é o crédito que alimenta a máquina de endividamento que gera maior rendimento ao grupo que os lucros com as vendas dos produtos em si.

Pois, é exatamente esse processo que leva o cidadão ter que trabalhar e “aceitar” a exploração e as condições precarizadas, porque é a forma que resta para pagar aquilo que comprou, por crédito oferecido de forma escamoteada junto ao produto.

Há muito mais a ser ainda analisado com os dados do sistema bancário para que se compreenda melhor a hegemonia financeira no capitalismo contemporâneo. O Pix, as redes bancárias, as plataformas digitais financeiras e as fintechs expõem uma realidade que merece ser mais aprofundada.

Porém, por ora, vamos ficar por aqui apresentando abaixo, o quadro dos quinze maiores bancos em operação no Brasil, em termos de números de clientes, segundo dados do Banco Central (BCB) referentes ao terceiro trimestre de 2020. Os números de cerca 510 milhões de clientes, apenas entre os quinze maiores bancos que funcionam no Brasil, identificam que muitos correntistas possuem mais de uma conta, além das contas das empresas (pessoas jurídicas).

Esses dados já são bastantes interessantes e levantam um número enorme de questões que precisam ser expostas e debatidas. Os setores financeiro e de tecnologia que alimentam as plataformas digitais fazem parte do “capitalismo de plataformas” que seguimos tentando ajudar a descortinar.

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Roberto Moraes é engenheiro e professor titular "sênior" do IFF (ex-CEFET-Campos, RJ)

 

 

Fonte: Brasil 247