Central Única de Trabalhadores

Brasil 247 – Ribamar Fonseca: A Democracia em perigo

11 março, sexta-feira, 2016 às 10:22 pm

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Lula com o povo

Lula com o povo

O Brasil está vivendo uma situação esdrúxula de exceção, onde a Operação Lava-Jato, criada oficialmente para combater a corrupção, se tornou um poder paralelo ao poder legalmente constituído e o seu comandante, o juiz Sergio Moro, se tornou o homem mais poderoso do país, que prende quem bem entende, baseado apenas em suas interpretações sobre evidências, indícios ou suposições, e também condena, de maneira isolada, sem precisar da aprovação de nenhum colegiado para as suas decisões. Ele é a Lei, o poder absoluto, e as suas decisões, além de destruir a vida de muita gente, paralisam o país, desmontam grandes empresas, promovem o desemprego de milhares de trabalhadores e agravam a crise econômica em que o Brasil está mergulhado. Tudo isso sob os aplausos calorosos da oposição, de setores da elite e da Grande Midia.

No inicio contando com o apoio de todos os brasileiros, porque se propunha a por fim à corrupção no país, a Lava-Jato acabou mudando de rumo, no decorrer do tempo, e enveredou pelo terreno político, assumindo contornos nitidamente partidários. E passou a investigar somente pessoas ligadas ao governo, ao PT e ao ex-presidente Lula, contribuindo decisivamente para a campanha sistemática da Grande Midia de criminalização dos petistas. A ausência de isenção tornou-se cristalina e logo ficou evidente o seu verdadeiro objetivo: retirar Lula do cenário político e impedi-lo de retornar à Presidência da República nas eleições de 2018, porque a Direita sabe que não consegue vencê-lo nas urnas. A caçada ao ex-presidente operário tornou-se, então, a principal atividade da Lava-Jato.

Depois de realizarem uma verdadeira devassa na vida de Lula e sua família, investigando até que tipo de pão ele come – parece que só está faltando mesmo pedirem exame de fezes e urina – os diligentes investigadores, à falta de algo concreto que possa incriminá-lo, se esforçam para transformar um barco de lata e pedalinhos existentes no sitio de Atibaia, onde ele costumava passar os finais de semana com a família, em evidências de corrupção. Contam para isso com a valiosa ajuda do “jornalismo investigativo” da Globo, que conseguiu a “proeza” de descobrir, por exemplo, que os pedalinhos tem os nomes dos netos do ex-presidente. A condução coercitiva do líder petista para depor, sem nenhuma base legal e sob os holofotes da imprensa, foi mais um passo ousado do juiz Sergio Moro para levá-lo à prisão.

Houve, na verdade, uma ação coordenada para a operação, justo no dia em que a revista “IstoÉ” publicou uma suposta delação do senador Delcídio do Amaral com graves acusações a Lula e à presidenta Dilma Roussef. A revista preparou o terreno, que foi exaustivamente adubado pela TV Globo em seus noticiosos, e a Lava-Jato completou o processo de criação do clima ideal para a prisão do ex-presidente. Aparentemente o plano seria levá-lo imediatamente para Curitiba, antes que a noticia da sua prisão fosse veiculada, de modo a pegar todo mundo de surpresa sem tempo para uma mobilização em defesa dele. O pessoal da Lava-Jato não contava, porém, com um imprevisto: a rápida ação de um coronel da Aeronáutica, que teria impedido a decolagem de um jatinho já preparado no aeroporto de Congonhas para levar o ex-presidente, conforme revelou um blogueiro do Paraná.

Embora o possível “sequestro” possa parecer fantasia – só uma investigação poderia esclarecer essa versão – tal história faz sentido. Basta umas perguntas básicas: por que levaram Lula para prestar depoimento no aeroporto de Congonhas? Para garantir a sua segurança, segundo justificativa do juiz Sérgio Moro. Mas haveria lugar mais seguro para levá-lo do que a Superintendência da Polícia Federal? Parece claro que o objetivo seria facilitar o seu embarque no jatinho com destino à capital paranaense. Para dar mais verossimilhança à história contada pelo blogueiro paranaense surgiu a informação de que o deputado Jair Bolsonaro, previamente avisado da operação, viajou para aquela cidade onde pretendia comemorar a prisão de Lula com um foguetório na porta da PF. O Conselho Nacional de Justiça deveria investigar a denúncia.

O fato é que o juiz Sérgio Moro, por conta dos excessos na condução da Operação Lava-Jato que culminaram com a condução coercitiva do ex-presidente Lula, fruto da sua politização, tem sido duramente criticado por todo mundo, até por ministros do Supremo Tribunal Federal. O ministro Marco Aurélio Mello chegou a dizer que “nós, magistrados, não somos legisladores, não somos justiceiros. Não se avança atropelando regras básicas”. Por sua vez, o renomado jurista Bandeira de Mello disse, entre outras coisas, que “falta para esse juiz, Sérgio Moro, o elementar para um magistrado, que é o equilíbrio”.

Diversas entidades de classe, inclusive de advogados, já se manifestaram condenando o comportamento daquele magistrado que, por contar com o apoio incondicional da grande mídia, parece sentir-se forte o suficiente para não se preocupar, sequer, com o que possam pensar os membros da mais alta Corte de Justiça do país.

Os operadores da Lava-Jato parece que não se deram conta ainda dos males causados ao país, com a paralisação de atividades vitais para a vida da Nação e, inclusive, do projeto de construção de submarinos para a nossa Marinha, além da criação de um grave clima de ódio, alimentado pela oposição e pela grande mídia, que pode resultar em confrontos nas ruas, com vítimas fatais. A reação popular à condução coercitiva do ex-presidente operário, com o registro de agressões físicas entre manifestantes pro e contra Lula, foi um alerta para o que poderá acontecer caso o líder petista venha mesmo a ser preso, sobretudo pela falta de justificativa para semelhante prova de força.

Será que precisamos ter um cadáver para que os responsáveis por esse clima despertem para o abismo em que estão conduzindo o Brasil? Ao convocar uma manifestação contra o governo para este domingo, convencida de que poderá usar a concentração popular para aprovar o impeachment da Presidenta, a oposição não parece preocupada com a possibilidade de confrontos e, muito menos, com as suas consequências. E depois? Quem será responsabilizado pelo que poderá acontecer?

Quando até um prelado, o bispo auxiliar de Aparecida, prega a violência durante a missa, exortando os irmãos a “pisarem na cabeça da cobra jararaca”, em clara alusão ao ex-presidente Lula que se comparou ao ofídio em declarações após seu depoimento, é preciso atentar para os riscos à democracia, que vem sendo agredida e demolida pela oposição, pela mídia e pela Operação Lava-Jato, na medida em que atropelam a própria Constituição. Vale a pena transcrever o que disse, a propósito, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF: “Vamos consertar o Brasil. Mas não vamos atropelar. O atropelamento não conduz a coisa alguma. Só gera incerteza jurídica para todos os cidadãos. Amanhã constroem um paredão na praça dos Três Poderes”.

 

Ribamar Fonseca é jornalista e escritor.

 

Fonte: Brasil 247