Central Única de Trabalhadores

Brasil 247 – Paulo Moreira Leite: Num país que quer amparo na velhice, Onyx fala em banho de sangue

22 março, sexta-feira, 2019 às 9:31 am

Comentários    Print Friendly and PDF

Onyx1

Onyx1

247 – Numa reação reveladora sobre o grau de desorientação que atinge o governo Bolsonaro quando o assunto é reforma da Previdência, o ministro Onyx Lorenzoni chegou a ameaçar os brasileiros, ontem, com uma comparação indecente. 

Referindo-se às bases da economia chilena, país pioneiro na implantação do regime de capitalização individual de aposentadorias que está no coração da proposta Guedes-Bolsonaro, o ministro disse: "No período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile…"

Inaceitável em qualquer época,  digna de um pedido de explicações por parte do Congresso de um país onde a democracia é cláusula pétrea, a referência do ministro foi feita na véspera da primeira mobilização — pacifica, obviamente — de sindicatos e entidades populares para barrar reforma da Previdência que Bolsonaro-Guedes querem implantar no país com apoio do sistema financeiro e do grande empresariados.  

São protestos que não devem ser enfrentados com ameaças. Afinal, nem os militares, que ocupam papel essencial na sustentação cotidiana do governo Bolsonaro, defendem a reforma quando ela se aproxima dos próprios bolsos.

Anunciada como a prova de que os sacrifícios seriam repartidos entre todos, a reforma na previdência dos militares — que usufruem do mais caro sistema de aposentadorias do setor público — acaba de ser divulgada. Revelou-se uma proposta pífia.

Enquanto o conjunto dos brasileiros e brasileiras estão sendo chamados a apertar os cintos para economizar 1 trilhão em dez anos, a economia do setor militar ficará em R$ 10,4 bilhões, ou 1% do total a ser economizado pelo país inteiro.   

Objetivo estratégico do projeto Guedes Bolsonaro, a criação de um sistema de capitalização privada em vigor no Chile é um fiasco no mundo inteiro — e será um desastre particularmente doloroso num país como o Brasil. Os empresários terão direito a uma vantagem enorme. Se hoje eles são obrigados por lei a colaborar com a aposentadoria dos funcionários que têm carteira assinada, entregando 2 reais para cada real depositado pelo empregado, pelo sistema de capitalização a aposentadoria se torna um problema exclusivo do trabalhador.

Imagine-se o que irá acontecer, no Brasil, país onde 63% da população diz que já não tem renda suficiente para sobreviver, 33% se consideram muito endividados e só 13% poupam com regularidade.

A partir das novas regras, que instituem a idade mínima para homens e mulheres, elevam o tempo de contribuição, e mudam as bases de cálculo para baixo, o resultado prático será fazer o povo trabalhar mais e pagar mais — para receber menos. Os pobres ficarão mais pobres, os miseráveis descerão a outro patamar de indigência.

Alguma dúvida?

 

 

Paulo Moreira Leite é colunista do Brasil 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época e foi correspondente na França e nos EUA

 

 

Fonte: Brasil 247