Central Única dos Trabalhadores

Brasil 247 – Emir Sader: O quarteto da morte da democracia

21 maio, quinta-feira, 2020 às 9:40 am

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Emir Sader2

Emir em Porto Alegre

247 - É justo destacar as responsabilidades da mídia, dos militares, no golpe que levou à ruptura da democracia e à tragédia que vive o Brasil hoje. Mas eles são componentes de um bloco de forças que comandou esse processo, do qual fazem parte também o grande empresariado e o Judiciário. O mesmo bloco da morte que liquidou a democracia em 1964 e fez o mesmo em 2016 no Brasil.

Tanto lá como aqui, a mídia levou a voz cantante de mobilização golpista, convocando as Deus, Pátria e Família, assim como denunciando supostos planos golpistas do governo Jango, com todo o coro do perigo comunista no Brasil, no tom da guerra fria da época. O empresariado financiou os organismos vinculados aos Estados Unidos, que organizaram o golpe. O Judiciário deu a cobertura institucional, aprovando o golpe. E as FFAA procederam a dar o golpe, destruir a democracia e instalar a mais selvagem ditadura que o país já havia conhecido.

Houve um bloco de forças que deu o golpe e houve outro que dirigiu a ditadura militar por 21 anos. Do primeiro, aos poucos, a mídia e setores do Judiciário foram se distanciando, fazendo com que o bloco dirigente da ditadura foram as FFAA e o grande empresariado. O Estado brasileiro foi militarizado, a economia do país foi dirigida conforme os interesses do grande capital.

Em 2016 o golpe foi dado conforme a nova estratégia da direita – a guerra híbrida -, que contou com os mesmos sujeitos de 1964: a mídia, o grande empresariado, os militares e o Judiciário. O momento decisivo, correspondente ao de primeiro de abril de 1964, foi o da aprovação do impeachment da Dilma, em 31 de agosto de 2016, que contou com a ativa participação dos componentes do quarteto da morte da democracia.

A condução da guerra híbrida contou com o comando da mídia, do grande empresariado e do Judiciário, que promoveram a prisão e a proibição da candidatura do Lula, sem nenhum fundamento legal, assim como a monstruosa operação eleitoral que levou Bolsonaro à presidência do país. Esse processo foi apoiado pelos militares, com manifestações abertamente golpistas de comandos das FFAA em momentos de decisões fundamentais do Judiciário para legitimar as operações da guerra híbrida.

O governos instalado por toda essa operação conta sempre com o apoio do grande empresariado, cujos interesses são atendidos pela política ultra neoliberal de Paulo Guedes. Conta com o apoio da mídia, conforme mantenha e de continuidade no modelo neoliberal. Conta com o beneplácito do Judiciário, diante de todo tipo de crime de responsabilidade de Bolsonaro. Conta com os militares e apoio tácito das FFAA, que ocupam cada vez mais cargos dentro do governo, apoiam todas as medidas do presidente, assinam medidas arbitrárias e nomeações de políticos corruptos.

Por trás do governo, esse é o bloco de poder que mantém o governo, que tem divergências entre si sobre o nível de apoio ao governo, mas que está unido pela posição estratégica de tratar de impedir o retorno do PT ao governo. Esse é o horizonte político que possibilita compreender os limites da tolerância desses componentes do bloco com o Bolsonaro.

É em nome desse limite, que eles justificam a tolerância com a sobrevivência do Bolsonaro como presidente. Preferem ele a qualquer risco de perder o controle do governo e do retorno de uma política econômica antineoliberal.

Hoje algumas dessas forças divergem entre si. A mídia se enfrenta diretamente ao governo. O Judiciário atua, em alguns casos, para controlar excessos de Bolsonaro. O grande empresariado segue apoiando o governo pela sua política neoliberal. Os militares apoiam de dentro o governo, constituindo-se no pessoal fundamental do governo, superando já em 3 mil o número deles no governo.

São os coveiros da democracia. Os mesmos responsáveis pelo golpe de 1964 e pela ditadura militar que sofremos durante 21 anos e os que foram igualmente responsáveis pelo golpe de 2016 e pelas tragédias que o Brasil vive desde então.

 

 

Emir Sader é colunista do Brasil 247 e um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros.

 

 

Fonte: Brasil 247