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Brasil 247 – Emir Sader: Bolsonaro foi eleito pela mentira e governa pela mentira

11 dezembro, sexta-feira, 2020 às 8:28 pm

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Bozo e Flávio1

Bozo e Flávio1

247 – O Brasil teve governos que chegaram lá de forma ditatorial e governaram de forma ditatorial, como os de 1964 a 1985. Teve governos que foram eleitos democraticamente – como os de FHC e os do PT – e governaram democraticamente.

E teve um governo que chegou lá por um golpe – como o do Temer – e governou para as elites, restabelecendo o modelo neoliberal e começando a destruição dos avanços democráticos dos governos do PT. Agora o país tem um governo que foi eleito por um mecanismo de manipulação da opinião pública, da mentira e de judicialização da política e que se comporta de forma coerente com isso.

Bolsonaro foi eleito pela mentira e pela farsa. Como se a Dilma tivesse tido comportamentos que justificassem o impeachment, como se o Lula tivesse sido preso e impedido de concorrer por acusações infundadas, e como se os governos do PT fossem responsáveis, não pelos maiores avanços econômicos, sociais e políticos que jamais tivemos, mas pela crise econômica provocada pela direita na sabotagem ao governo da Dilma e pelas políticas do governo do Temer.

Bolsonaro é um títere, que acredita ou finge acreditar que as mentiras são verdade. Que ele foi eleito para promover a nova política, para eliminar a corrupção da política, para fazer com que a economia voltasse a crescer. Ele representa, no seu governo, as mentiras que a direita forjou e impôs à opinião pública. 

Como a mentira deu certo, ele pôde se eleger, a mentira tornou-se forca material, apoiada na opinião pública e no Judiciário, e Bolsonaro é o produto da mentira, vivemos num mundo de mentiras.

A direita promoveu, pela mídia, com a anuência do Judiciário, a Bolsonaro como a renovação da política, embora um e outro soubessem que era mentira. Bolsonaro se negou a participar de debates e a mídia deixou passar batido, como se fosse normal. A denuncia da Folha de que a guerra de robôs promovida pela campanha do Bolsonaro, com os nomes dos empresários que as mantinham era real, mas o STE fechou os olhos e, criminosamente, fez como se tudo fosse normal. A mentira uma vez mais se impôs.

Bolsonaro passou a acreditar que tudo é possível. Que ele pode seguir negando a realidade e se mantendo. Diz que a economia vai bem, que a pandeia está na finalzinho, que não há troca-troca com o Centrão, que o militar que está no ministério da saúde é dos melhores que já esteve lá – porque obedece o que ele manda, – que o teto de gastos está sendo obedecido, que sua reeleição atende as necessidades do país, que o controle da PF e de outros órgãos para defender os seus filhos e ele mesmo, é um comportamento legítimo, etc. etc.

Quem foi eleito pela mentira, que se se deu conta que o crime da mentira compensa, governa pela mentira e acredita na mentira, ou pelo menos na sua efetividade. A verdade, a ciência, a política como defesa dos interesses públicos, a democracia, foram derrotados e Bolsonaro se elegeu e representa essa derrota.

Que agora ganha contornos mais graves ainda, porque se traduz em centenas de mortes por dia e milhares por mês. O governo acreditou que deveria não ter nenhuma política para a pandemia, que o fundamental seria o crescimento econômico e a criação dos empregos. Não fez nem um, nem outros. 

O governo acreditou na imunidade do rebanho, não fazia mal que seguissem morrendo milhares, mas se chegaria a uma situação em que todos estariam imunizados, naturalmente, sem que o governo fizesse nada. A mentira se impõe no cinismo e na hipocrisia do presidente se lixar para os mortos e até fazer piadinhas com eles e suas famílias. Se impõe a mentira de que a generalização do acesso e do uso das armas favorece a defesa das pessoas contra a violência e não exatamente o seu contrário. 

A derrubada do Bolsonaro e o restabelecimento da democracia representam o restabelecimento da verdade e da ciência, da justiça, da paz e do respeito aos interesses da grande maioria dos brasileiros. Porque esse governo é o reino da mentira, da injustiça, da arbitrariedade, dos métodos e dos interesses das milícias. Foi eleito pela mentira e governo pela mentira. 

 

 

Emir Sader é colunista do Brasil 247 e um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

 

 

Fonte: Brasil 247