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Bancada negra eleita em Porto Alegre cobra responsabilização do Carrefour e dos assassinos de Beto

20 novembro, sexta-feira, 2020 às 1:48 pm

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Bancada negra2

Bancada negra2

Sul21 – Na noite desta quinta-feira (19), um homem negro foi espancado e morto por dois seguranças em uma unidade do hipermercado Carrefour, localizado no bairro Passo D’Areia, zona norte de Porto Alegre. João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, recebeu socorro, mas morreu no local. Até o momento, as informações relatam ter havido uma discussão dentro do local, com o homem na sequência agredido e imobilizado por dois homens, um segurança de uma empresa terceirizada e o outro um policial militar.

Os cinco vereadores eleitos que irão compor a bancada negra na próxima legislatura da Câmara de Porto Alegre — Karen Santos (PSOL), Matheus Gomes (PSOL), Laura Sito (PT), Daiana Santos (PCdoB) e Bruna Rodrigues (PCdoB) — haviam convocado uma coletiva para a manhã desta sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra. Contudo, diante do assassinato de João Alberto, realizaram um pronunciamento conjunto diante da loja do Carrefour.

Política genocida

Karen destacou que a coletiva iria apresentar algumas propostas que a bancada irá trazer para luta contra o racismo na Capital. “Ontem de noite, nós fomos surpreendidos com esse assassinato brutal, que é algo reincidente em um país como o nosso, que assassina todos os dias jovens negros, pessoas negras, numa política genocida. E a nossa intenção hoje, antes de tudo, é prestar solidariedade e empatia. Dizer que não importa nós termos cinco vereadores eleitos se a gente vai seguir dentro de um país racista, com racismo institucionalizado."

Karen

"Porque o que aconteceu aqui no Carrefour não é uma ação isolada, inclusive dessa instituição privada, são casos reincidentes e que fazem com que a vida de pessoas negras, muitas vezes, valham muito pouco dentro da cidade e do regime que a gente vive”, afirmou a vereadora, a única dos cinco que já ocupava um mandato da Câmara.

"Mais uma mãe preta chora"

“Só quem é preto sabe o que é entrar num mercado é ser seguido todos os dias. Hoje é 20 de Novembro, e o presente que a gente ganha é um corpo dos nossos. Mais uma mãe preta chora. Hoje, a nossa coletiva de imprensa era para se apresentar e comemorar a primeira frente negra da história da Câmara de Vereadores, mas a nossa luta também é marcada pela resistência, também é marcada pela unidade, e isso não vai ficar sem resposta”, disse Bruna Rodrigues.

Bruna Rodrigues

“Essa coletiva de imprensa, inclusive, precisa responsabilizar o Carrefour, mas também precisa entender que isso é institucional. Tem uma estrutura dessa sociedade que mata a gente, que faz com que a gente não possa ter o direito de existir. É de existência que nós estamos falando”, completou.

"É inseguro andar dentro de um supermercado"

Matheus Gomes afirmou que não é possível aceitar nenhuma relativização do episódio. “As imagens dele sendo espancado dentro desse supermercado estão girando o Brasil, estão girando o mundo, e está nítido o que aconteceu ali. Quem é homem e quem é mulher negra sabe o quão inseguro é andar dentro de um supermercado, andar em qualquer estabelecimento comercial, e nós nunca vimos uma cena de tamanha gravidade, de tamanha brutalidade, de tamanha desumanidade, acontecer no País com um corpo que não seja o nosso. Aqui está uma questão de pela que está colocada. Tem uma tradição que foi reafirmada em cada soco que ele levou, que é a do linchamento, da destruição dos nossos corpos, que é de dizer que a gente não vale nada." 

Matheus

"Está na hora da gente mostrar para a sociedade que nós podemos superar isso. Nós queríamos nos apresentar como bancada negra, como fruto de uma conquista da história de Porto Alegre, e nós estamos tendo que, hoje, nessa sexta-feira, o Dia da Consciência Negra, uma data que saiu da nossa cidade também, chorar pela morte de um dos nossos. Só quem já sofreu esse tipo de violência sabe do que a gente está falando, poderia ser meu irmão, poderia ser meu primo, que foi assassinado por um policial e até hoje nós não vimos Justiça, poderia ser alguém da minha família. É disso que estamos falando, de um de nós que foi assassinado e linchado dentro de uma multinacional. E não é a primeira vez que acontece”, afirmou.

Racismo estrutural

“Para nós, é muito simbólico que, nesse 20 de novembro, na mesma semana que nós elegemos cinco jovens negros para a Câmara de Vereadores da nossa cidade, nós tenhamos que estar aqui vendo mais um dos nossos corpos tombarem. Nós estamos aqui, muito firmes, fazendo da nossa apresentação um momento de denúncia sobre o racismo estrutural que nós vemos diariamente. Nós estaremos aqui e prestando toda a solidariedade que a família precisar, e estaremos na luta, cobrando justiça e responsabilização do supermercado Carrefour, cobrando a responsabilização daqueles que agiram brutalmente para tirar a vida de um nós”, afirmou Laura Sito, destacando ainda que a bancada irá buscar uma agenda antirracista para Porto Alegre.

Laura Sito

“Não haverá nenhum de nós que tombará sem que nós sejamos uma voz firme de denúncia, porque, infelizmente, a morte de cada negro e negra perpassa a trajetória de muitos de nós que já tiveram algum amigo ou familiar que perdeu a vida por alguma forma de violência. Nós não queremos mais que isso seja comum nas nossas vidas”, salientou Laura.

"A gente não aguenta mais"

Daiana Santos destacou que a bancada negra planejava apresentar propostas para uma agenda antirracista na coletiva. “A agenda antirracista fala de pretos e jovens vivos. Nós estamos aqui para falar de projeto de vida e de política, para falar da segurança desses jovens, para falar do futuro, para falar de sonhos, para falar de possibilidades reais de ascensão." 

"Chega, a gente não aguenta mais, em definitivo, a gente não aguenta mais. E acho que essa é a face mais nefasta do racismo institucional desse País que a gente tanto fala em todos os cantos por onde a gente anda. Não aguentamos, porque os nossos corpos estão o tempo todo sendo testados, violentados, violados, numa necropolítica por um estado que não olha com a responsabilidade que tem que olhar para todos nós negros e negras”, afirmou.

“A gente não queria estar aqui, nós tínhamos pensado em coisas muitas grandiosas, valorizando cada um e cada uma dos negros que nos colocaram neste momento aqui, como bancada negra. Mas, pra vocês verem como o racismo opera, no dia que a gente se reúne para saudar a todos que nos colocaram aqui, acontece isso, que nós sejamos a transformação e da mudança desse Estado racista, porque ninguém aguenta mais. E nós, por nós, sempre, e é isso que vocês podem esperar da gente, uma agenda antirracista, combativa, que vai estar na rua se for preciso, porque não aguenta mais”, complementou.

Daiana

"Não podemos nos calar"

Em nota, o grupo Carrefour afirmou que considera a morte brutal e divulgou que romperá contrato com a empresa responsável pela segurança do local, o Gripo Vector. “O Carrefour informa que adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso”, diz a nota.

Integrante da Frente Negra Gaúcha e presente na coletiva dos vereadores, Rosane Pires afirmou que o ato exige reação da sociedade e defendeu a realização de protestos. “Nós temos e iremos falar sobre esse racismo estrutural que existe dentro deste País. Não podemos nos calar”, afirmou.

Em Porto Alegre, está marcado para as 18h um ato em frente ao Carrefour do Passo da Areia, localizado na Av. Plínio Brasil Milano. Também há informações sobre atos em outras cidades do País, como na Av. Paulista, em São Paulo.

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Fotos: Luiza Castro / Sul21

 

Fonte: Sul21