Central Única de Trabalhadores

Associação Mães e Pais pela Democracia luta contra “patrulhamento” e vira referência em Porto Alegre

1 dezembro, domingo, 2019 às 2:49 pm

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Rosário3

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RBA - No dia seguinte à eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, dezenas de alunos do Colégio Marista Rosário, em Porto Alegre, reuniram-se no pátio central da escola, com autorização previamente concedida pela direção. Vestidos predominantemente com roupas pretas, com bandeiras do movimento LGBT dispostas no chão, os alunos deram-se as mãos, formando um círculo. Em sua maioria, eram estudantes do ensino médio e eleitores.

“Seremos resistência! Seremos resistência! Seremos resistência!”, gritaram por alguns instantes, antes de fecharem o círculo e se abraçarem. Enquanto isso, um pequeno grupo de alunos situado num dos andares da escola, entoava cânticos contra o PT e celebrava a vitória do “mito”.

“No domingo da eleição, eles entraram em ‘surto’, ficaram super preocupados com seus amigos porque o Colégio Marista Rosário abraça muito a diversidade, eles têm colegas gays, transgêneros, negros. O foco não era o Bolsonaro, o foco era os amigos. Por isso a bandeira LGBT estava no centro do pátio”, explica a socióloga Aline Kerber, de 35 anos, mãe de dois filhos, Theo, com dois meses de vida, e Guilherme, adolescente de 13 anos e aluno do Rosário.

A repercussão do ato foi grande, proporcional ao papel do Colégio Rosário no ensino da capital gaúcha, instituição centenária e uma das mais famosas escolas particulares da cidade. A imagem dos alunos logo foi parar nas redes sociais e os jovens começaram a ser atacados por adeptos do movimento Escola sem Partido como sendo “filhos de comunistas” e alunos de “professores doutrinadores”.

Ao mesmo tempo, criou-se um grupo de WhatsApp com pais e mães de alunos que tinham participado da manifestação, agregado de outros pais favoráveis à iniciativa. Na terça-feira após a vitória de Bolsonaro, 30 de outubro de 2018, o grupo se reuniu pessoalmente na sede do Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro-RS) para entender a motivação dos filhos pois, até então, só se falava que os jovens não tinham “aceitado” o resultado eleitoral. A acusação era de que haveria “alguém por trás” da manifestação, com a escola cúmplice.

Nascia ali o movimento Mães e Pais pela Democracia, que meses depois se tornaria uma associação, atualmente com mais de cinco mil pais e mães associados, representantes de mais de 100 escolas da capital gaúcha, região metropolitana e o interior do estado. Aline Kerber foi eleita presidenta da Associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD) e define o movimento como “uma flor que nasceu no asfalto”.

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Seu filho Guilherme, apesar de não ter participado do ato no Rosário, foi o fator que a levou a entrar para o movimento. Ela explica que o pai do garoto, que não é o mesmo do pequeno Theo, é eleitor de Bolsonaro e o debate eleitoral permeou os ouvidos do adolescente com os pais em campos opostos.

“Foi bem difícil, desgastante, para que as coisas ficassem bem, para que não fosse uma coisa pessoal. Vim com muita força, pelo meu filho, para o movimento. E com muito medo também, todo mundo estava muito assustado. Continuo assustada, mas não tenho mais medo, não faz com que eu não caminhe”, disse.

Entre tantos assuntos discutidos no encontro no Sinpro-RS, decidiu-se ir à Justiça para exigir a retirada das imagens dos filhos das redes sociais. A ação foi bem sucedida e o grupo obteve uma liminar.

“Foi bem complexo, envolvia muita gente, gerou uma histeria”, recorda Aline, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e que, desde 2010, atua implementando observatórios municipais de segurança, com dados, monitoramento e avaliação das políticas públicas de segurança.

O primeiro embate

Não tardou vir à tona que a manifestação no Colégio Rosário não havia sido um ato isolado. Em outras escolas particulares de Porto Alegre, atos semelhantes também foram realizados, contra e a favor da eleição de Bolsonaro. A situação levou a Câmara de Porto Alegre a realizar uma audiência pública sobre o tema. 

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Os integrantes da Associação Mães e Pais pela Democracia escolheram três porta-vozes para representar o grupo no debate. A audiência pública havia sido convocada por vereadores alinhados com o Escola sem Partido.

“Eles foram surpreendidos porque nós fomos em peso, tínhamos mais de 200 pessoas”, recorda Aline Kerber, ela mesma uma das oradoras. “Fomos preparados. Fizemos falas num nível bem embasado e o pessoal do Escola sem Partido foi pego de surpresa, ficaram mal no debate”, avalia.

“Fizemos a defesa do nosso posicionamento pela liberdade de aprender e ensinar, a liberdade de cátedra, contrário à ideia de se gravar professores”, explica a presidenta da AMPD. Ela critica a concepção dos adeptos do Escola sem Partido em serem contra a educação sexual e de gênero. “Eles acham que estão incitando alguém a fazer sexo… É um delírio, uma viagem, difícil até de contrapor.”

A partir da boa participação no debate na Câmara de Porto Alegre, o grupo ganhou destaque e aglutinou mais pais e mães, pessoas que não participam de partidos políticos ou outros movimentos e viram no grupo a oportunidade de exercer seu ativismo.

“A mídia então ficou muito ligada na gente. Aquilo que parecia difuso ganhou uma concretude com pessoas botando a cara para defender seus filhos”, afirma Aline, reconhecendo que a origem de tudo ter sido uma manifestação num colégio tradicional da capital gaúcha contribuiu para dar visibilidade ao movimento. “Normalmente, não se espera esse pensamento de pais da elite, o que é um absurdo, pois a elite deveria pensar em democracia e liberdade.”

Frentes de atuação

Prestes a completar um ano de existência, a Associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD) atualmente promove distintas atividades, como o Café Democrático, encontro para debater temas como gênero e sexualidade, ética, censura, violência, entre outros, no qual participam pais, mães e professores, sem a presença dos filhos. Com periodicidade mensal, o último foi realizado na Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro.

Divulgação

Lançamento oficial da Associação na Esquina Democrática no dia 8 de março

A AMPD também criou o Curso da Educação Democrática, um curso de extensão em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizado nas escolas públicas da periferia de Porto Alegre. Automutilação, suicídio e bullying têm sido os temas mais solicitados, debatidos por especialistas chamados para cada curso.

Em maio desse ano, a Associação realizou ainda o Festival da Democracia e da Liberdade, com show de diversos artistas gaúchos, entre eles o cantor e compositor Nei Lisboa, ícone da música portoalegrense e membro da AMPD. O evento reuniu mais de mil pessoas.

“Hoje somos atores políticos importantes, sobretudo na cena de Porto Alegre. Não imaginava que chegasse a algo tão grande. Acho que a gente se enquadra no que o (sociólogo) Boaventura de Sousa Santos fala dos ‘novíssimos movimentos sociais’, que não nascem dentro de partidos políticos, embora flertem e dialoguem com essa tensão dos partidos, que é fundamental. Vamos ter que ir pra luta, cada vez mais”, pondera Aline.

Outro caminho percorrido é a atuação de advocacy na Câmara de Porto Alegre e na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (Alergs), com a produção de estudos técnicos para subsidiar o debate relacionado a temas apresentados em ambas as Casas. Como exemplo, a proposta do vereador Wambert di Lorenzo (Pros), autor de projeto de lei que visa restringir a educação sexual nas escolas municipais, que deveria, segundo ele, ter autorização dos pais.

“Imagina…as crianças em geral são abusadas em casa, pelos pais, o padrasto…”, lamenta Aline, explicando que esse é o principal argumento da Associação. Outro trabalho tem sido o PL 170/2019, sobre educação domiciliar, proposto pelo deputado estadual Fábio Ostermann (Novo), apesar do Supremo Tribunal Federal (STF) já ter negado o reconhecimento do chamado homeschooling.

“O (partido) Novo está tentando que o Rio Grande do Sul seja o primeiro estado a regulamentar a educação domiciliar. Dizem que tem em torno de mil famílias (interessadas). Então, estamos disputando como uma política pública para mil famílias entra na agenda prioritária, num estado onde professores não recebem e terão benefícios cortados nessa reforma”, contesta. “A pauta é legítima? Pode ser, mas tem que ser legislada pela União.”

O governo do Rio Grande do Sul há anos parcela mensalmente o salário dos funcionários públicos e, recentemente, o governador Eduardo Leite (PSDB) enviou à Assembléia Legislativa um pacote que propõe mudanças drásticas e prejudiciais na carreira dos professores estaduais.

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Percalços

Até consolidar a atuação que tem hoje, os integrantes da Associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD) passaram por diferentes enfrentamentos. No dia 18 de fevereiro desse ano, para marcar a volta do ano letivo, o grupo decidiu realizar o Café Democrático nas cantinas de 28 escolas.

“Era um ato simbólico em defesa dos nossos filhos e dos professores, para que eles sentissem que nós estávamos ali, no primeiro dia de aula, dando apoio nesse momento complexo”, explica Aline Kerber, enfatizando a autocensura que começa a acontecer entre os professores, com medo de propor o debate de determinados assuntos.

Porém, quatro dias antes, Aline recebeu um telefonema da direção do Rosário e foi chamada para uma reunião. Junto com outros colegas do movimento, se apresentou na escola. Escaldada com os acontecimentos pós-eleição, a direção queria saber o que era o tal Café Democrático e o que era o então incipiente Mães e Pais pela Democracia.

A reunião foi tensa. Ao final, Aline vaticinou: “Vocês ainda vão precisar da gente”, disse para a diretora da escola. Ela recorda que a diretoria achou que o grupo estava exagerando, que a escola em seus mais de 100 anos de atividades já havia passado por outros momentos difíceis. “Ela estava subestimando o fascismo”, avalia a atual presidenta da AMPD.

Tempos depois, o grupo soube que havia uma denúncia no Ministério Público Estadual (MPE) contra o movimento, movida por pais também do Rosário. O MPE entrou em contato e propôs fazer a mediação do conflito, proposta logo aceita pelos membros da AMPD. Todavia, os denunciantes não aceitaram e o imbróglio não foi adiante. “É só ‘ir pra cima’. Eles não te enfrentam, só latem”, afirma Aline Kerber.

No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, novamente o Rosário esteve no centro de outra polêmica. O colégio não aceitou cartazes das alunas e do grêmio estudantil sobre o tema em suas dependências. Proibiu, inclusive, lenços e outros adereços de cor vermelha. “Foi um momento duro”, recorda a presidenta da AMPD.

O grupo então decidiu cobrar explicações da escola: “Como assim vocês censuraram as meninas de fazer uma foto no pátio? Elas ficaram na sala de aula e não puderam sair?”, questionaram.

A escola respondeu que tinha sido para “o bem delas”. “Nós nunca entendemos, mas deve ter relação com o processo do Ministério Público e eles não quiseram de novo expor as crianças, mostrar a cara, porque provavelmente iria acontecer tudo de novo nas redes sociais.”

Em agosto, na volta às aulas depois das férias de julho, alguns membros do Escola sem Partido, em Porto Alegre – rebatizado de Escola sem Doutrinação –, realizaram uma manifestação diante do Colégio Rosário. No ato, foi distribuído um panfleto apócrifo acusando a escola de ser “marxista”, “comunista” e de promover “doutrinação”. “Marista sim, comunista não” e “Mais Champagnat! Menos Frei Betto e Leonardo Boff”, diziam faixas e cartazes usados no ato.

Filipe Lederhos/Divulgação

Manifestantes contrários à “doutrinação ideológica”

Amor e liberdade

Com o tempo, aos poucos, o jogo virou e hoje a Associação Mães e Pais pela Democracia e o colégio Rosário, origem de tudo, mantém uma relação cordial e proveitosa. Segundo Aline, a escola passou a compreender melhor o papel do grupo.

“Eles se deram conta de que estavam diante de fascistas, que sentavam à mesa com a bandeirinha do Bolsonaro, e a escola se deu conta do que estava em jogo, as cobranças, se deu conta de que havia dentro da escola esse patrulhamento ideológico de um grupo de extrema-direita, que parece que são onze pais”, explica, para logo emendar: “Nós somos 600 só dentro do Rosário”. A escola tem cerca de 3 mil alunos, o maior número dos últimos 20 anos.

Reprodução

Uma das peças da campanha “Quem grava o professor, tira a liberdade de aprender”

Em novembro, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, a Associação lançou o livro Educar com amor e liberdade — ensaios sobre maternidade, paternidade e política, pela Tomo Editorial. A obra contém artigos, crônicas e ensaios escritos por 24 pessoas. “O livro é sobre como nós educamos nossos filhos em alguns temas”, explica Aline.

Entre os assuntos, a teoria terraplanista, racismo, trabalho infantil, machismo, ser mãe e ser pai, o meio ambiente, economia, entre outros. Com tiragem de mil exemplares, mais da metade já foi vendida. O lançamento reuniu cerca de 350 pessoas num dia de forte chuva em Porto Alegre. Dias depois, a diretora do Colégio Marista Rosário solicitou um exemplar, pedido prontamente entregue.

“A nossa ideia é poder levar às bibliotecas das escolas. Hoje temos um olhar muito voltado para as escolas públicas, dialogar na ponta. Com outro jeito de falar, com outro posicionamento, acho que estamos furando algumas ‘bolhas’. A gente acredita muito nessa força pra virar esse jogo”, pondera a presidenta da Associação Mães e Pais pela Democracia.

Integrante do Fórum de Combate a Intolerância e ao Discurso de Ódio, criado pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF), Aline Kerber diz que o grande projeto para 2020 é a campanha “Quem grava o professor, tira a liberdade de aprender”, criada pelo Fórum.

São cartazes com as diretrizes legais que impedem a gravação dos docentes, com e-mail de denúncia caso isso ocorra. Os cartazes têm sido distribuídos nas escolas públicas e privadas. Segundo orientação do MPF, a proposta é colar o cartaz em locais de grande circulação.

A presidenta da AMPD enfatiza que o grupo é suprapartidário e reúne liberais, pessoas identificadas com a esquerda, a centro-esquerda, centro-direita, e a direita. “São democratas, isso é o que nos une.”

 

Fonte: Luciano Velleda – Rede Brasil Atual (RBA)