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Ao culpar os mais pobres, Guedes omite falta de ação do governo para impedir devastação ambiental

23 janeiro, quinta-feira, 2020 às 4:15 pm

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Fogo na floresta1 (2)

Fogo na floresta1 (2)

RBA – A declaração do ministro Paulo Guedes de que “o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza” e “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer” é uma afirmação “extemporânea”, “errada”, e que mostra o quanto o governo de Jair Bolsonaro é “despreparado” e “desqualificado”. As críticas são do professor do Departamento de Geografia e do programa de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) Wagner Ribeiro.

“Foi uma frase infeliz, deslocada do seu contexto de época, porque há quase 30 anos esse debate está superado”, ressalta o geógrafo em entrevista aos jornalistas Glauco Faria e Nahama Nunes, para a sua coluna na Rádio Brasil Atual.

O ministro da Economia representa o governo brasileiro no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que entre seus temas, discute formas de combate ao aquecimento global e às catástrofes climáticas ambientais decorrentes, principalmente, da emissão de gases do efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis. Em uma dessas atividades, realizada nesta terça (21), Guedes fez a simplificação, atribuindo aos pobres os impactos sobre o meio ambiente, diante de um encontro que reúne mais de 50 chefes de Estado e de governo.

Desde 1992 a ciência dá como superada a culpabilização da pobreza pela degradação ambiental, quando foi estabelecido o chamado socio-ambientalismo, como recorda Ribeiro. Logo no início dos anos 2000, o economista Juan Martínez Alier ressaltou o novo paradigma com a obra O Ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração, hoje um clássico, que além de desmistificar o ideário do século passado, mostrou que, na verdade, a população de baixa renda tem práticas ecológicas por sua própria condição.

“Hoje nós já sabemos que a grande questão posta em relação ao meio ambiente passa justamente pela capacidade de consumo, pelo consumo exagerado e pelo desperdício de materiais. Ou seja, o consumismo que se instala em larga escala a partir da segunda metade do século passado e está chegando hoje a níveis de exaustão”, explica o professor da USP sobre as causas da degradação ambiental.

Em 2015, um relatório da Oxfam confirmou essa análise, indicando que a pegada de carbono, deixada pelo 1% da parcela mais rica da população, pode ser 175 vezes maior do que a pegada de carbono deixada pelo 10% mais pobres.

Ainda assim, o ministro de Bolsonaro reiterou uma análise ultrapassada e que, na verdade, pode ser ainda entendida como uma manobra do próprio governo para omitir a sua falta de vontade política de combater o desmatamento, que só cresce em biomas brasileiro, assim como a grilagem de terras, que vem sendo favorecida pelo desmonte dos órgãos de fiscalização e com a publicação da MP da Regularização Fundiária, como mostram matérias da RBA.

Mais pobres são vítimas da degradação

“Estamos diante de um debate ideológico. Isso sim é um debate ideológico, porque querem nos convencer daquilo que não é interessante para a população brasileira e mundial. De fato a pegada ambiental das famílias mais abastadas é infinitamente superior em termos de alimentos uso de água. Para se ter uma ideia, um país como os Estados Unidos consome quase 200 vezes mais água per capita do que países como Gana e Moçambique. Querer culpar a pobreza por essas questões é muito desqualificado, ainda mais afirmar isso em um fórum internacional”, contesta o professor.

“A nossa imagem vai cada vez mais caindo por terra. Até que ponto nós vamos chegar? E vai nos dar muito trabalho para recuperar a imagem que nós tivemos há quatro, cinco anos”, reflete.

Em sua participação, Guedes ainda afirmou, ao comentar sobre o agronegócio, que o mundo precisa aumentar a produção de alimentos, mas para isso “é necessário aumentar a utilização de agrotóxicos”. “Outro absurdo”, como avalia Ribeiro. Ao contrário da informação do ministro, de acordo com o professor, o uso intenso de venenos vem degradando o solo, provocando erosão em diversas áreas, a perda de biodiversidade e afetando, principalmente, as populações mais pobres.

Como divulgou relatório da ONU, no início do ano, na avaliação do risco de inundação dos rios, o Brasil tem uma das maiores populações mais vulneráveis nesse aspecto. “Os mais pobres não são a causa (da degradação), eles são as vítimas de todo esse modelo que precisa ser revisto de produção e organização da vida, e que tem um nome: neoliberalismo associado ao capitalismo predatório”, sintetiza o geógrafo da USP.

Confira a entrevista na íntegra

 

Foto: Walter Campanato – Agência Brasil

 

Fonte: Rede Brasil Atual (RBA)