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Sul21 – Sergio Araújp: Da continência à saudação nazifascista

20 maio, quarta-feira, 2020 às 9:40 am

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Continência

Continência

Sul21 - Jair Bolsonaro, está mais do que provado, é um sujeito bélico. Alguém que se identifica com a filosofia de um homem-bomba. Aquele que acha (no caso dele tem certeza) que tudo se resolve na base da força. Foi assim na época em que cerrou fileira no Exército, ameaçando explodir quartéis como forma de pressão para o aumento dos soldos militares. Foi assim nas quase três décadas como deputado, quando se destacou pelas grosserias, ofensas, ameaças e idolatria por torturadores do regime militar. E está sendo assim na sua gestão à frente do Palácio do Planalto.

A começar pela defesa do armamento generalizado da população. Adepto da máxima do bandido bom é bandido morto, despreza o fato de que com sua intransigência com a crítica estimula a divisão dos brasileiros entre aliados (mocinhos), e inimigos, que são todos os que lhe fazem oposição. Nesse caso, o bandido abrange dois terços da população que não simpatizam com seu modo de agir e/ou de governar. Pelo menos é o que dizem as pesquisas.

E aí chegamos ao mote desse artigo. O apoio implícito que o presidente tem das forças armadas, simbolismo máximo do uso da força. Alguns dirão que ter militares participando do governo não significa a adesão da instituição. Por certo que não, mesmo que o núcleo palaciano esteja composto por militares.

Ocorre que o silêncio obsequioso, que alguns insistem em classificar como respeitoso, e a tolerância para com o uso do nome das Forças Armadas, até mesmo como forma de ameaça, como tem feito o presidente e seus fanáticos apoiadores, deixa transparecer algo como uma parceria velada. Parafraseando o provérbio romano sobre honestidade, às forças armadas não basta ser isenta, tem que parecer isenta.

Esta é a questão. Tem general dando palpite demais em assuntos relevantes que nada tem a ver com as suas obrigações constitucionais enquanto integrante das Forças Armadas. É sabido que historicamente os militares sempre se imiscuíram nas questões políticas, mas nesse momento, diante de um presidente que divide o país entre os nossos e os outros, como o cidadão comum vai conseguir distinguir a posição individualizada dos generais com a da instituição que representa?

Vejamos por exemplo o ex-comandante do Exército, general Villas-Boas, que tem servido de consultor do presidente. Como explicar que suas manifestações nas redes sociais, geralmente rebatendo críticas contrárias ao presidente ou ao governo, se trata de opinião pessoal, sem nenhuma identificação com o pensamento dominante no Exército, entidade até pouco tempo comandada por ele?

Em tempos normais, bastaria os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica se pronunciarem uma única vez reafirmando que estão focados exclusivamente no atendimento das atribuições constitucionais para que os boatos e temores sumiriam como fumaça. Mas estamos vivendo tempos normais? Faixas estão sendo expostas na praça dos três poderes pedindo a intervenção militar para fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Até mesmo um filho do presidente já disse que “basta um cabo e um soldado para fechar o STF”.

Agora mesmo, recentemente, um bando de fanáticos apoiadores, trajando roupas camufladas e boinas vermelhas, saudaram Bolsonaro com um gesto tipicamente nazifascista. Tudo isso na rampa de acesso ao Palácio do Planalto e na presença de 11 ministros, dentre eles três militares, os generais, Augusto Heleno, do GSI, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e o tenente-coronel da Força Aérea, Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia.

E nada se ouve e nada se lê por parte das lideranças das Forças Armadas sobre essas atitudes e iniciativas que se assemelham as praticadas por milicianos. Nem mesmo um gesto. E nas raras vezes que se manifestam, seja em entrevista ou postagem em rede social, é sempre na defesa intransigente de todos os atos e declarações do presidente. Em contrapartida a escassez de posicionamentos o ingresso de militares no governo é cada vez maior.

Uma das admissões mais recentes, em meio a pandemia do Covid-19, foi a do general Eduardo Pazuello, que assumiu como secretário-executivo e que com a exoneração do titular pasta, Nelson Tech, ocupa o cargo de ministro-interino da Saúde. “Leal” ao desejo do presidente e na contramão do posicionamento dos seus antecessores, todos médicos, coisa que ele não é, obedeceu a ordem de editar um protocolo permitindo o uso da cloroquina em casos iniciais de contaminação por Covid-19.

Como é regra na esfera militar, cumpriu à risca a máxima de que missão dada é missão cumprida. Se não for confirmado como titular, o certo é o general Pazuello terá vida longa no governo. Por bons serviços prestados ao presidente. Mas se por ventura desagradar Bolsonaro ou a um dos seus filhos será sumariamente demitido. Porque é assim que a banda toca. Que o diga os generais Santos Cruz, Floriano Peixoto, Paula Cunha e Franklimberg Freitas, afastados dos seus cargos sem nenhuma consideração com os seus currículos.

Essa é a questão. A presença dos militares, que está sendo útil à Bolsonaro, poderá ser considerada como um gran finale na carreira dos militares integrantes do seu governo? E a parcimônia crítica das Forças Armadas, terá auxiliado no fortalecimento e na melhoria da imagem da instituição perante o povo brasileiro e até mesmo externamente, ou ficará marcada negativamente na história? E mais significativo ainda, sua participação no governo Bolsonaro terá sido benéfica aos interesses da nação e dos brasileiros?

Duvido que alguma liderança militar se arrisque hoje a responder positivamente a estas perguntas. Então por que continuam correndo o risco? Alguns dizem que a presença dos militares no governo serve para arrefecer os arroubos autoritários de Bolsonaro. Se for isso desistam, não está dando certo. Por que embarcar numa nova aventura política? Por que então não dar continuidade aquilo que já vinha dando certo?

As Forças Armadas já demonstraram sua utilidade em tempos de paz, seja em missões internacionais, harmonizando zonas de conflito; seja no Brasil, participando de campanhas humanitárias, apoiando comunidades carentes residentes em áreas de difícil acesso; seja combatendo a entrada de drogas, armas e contrabando nas fronteiras com outros países; seja auxiliando na execução de obras de infraestrutura e outras iniciativas mais. E vejam, essa expertise nunca foi tão necessária como agora em meio a uma pandemia.

Não permitam que alguém que coloca seus interesses e os interesses da sua família acima dos interesses da nação e do seu povo macule uma imagem de bons serviços construída pelas Forças Armadas com muito denodo e patriotismo. Não deixem que a continência seja substituída pela saudação nazifascista. Protejam a democracia.

 

Sérgio Araújo é jornalista

 

Fonte: Sul21