Central Única de Trabalhadores

Sul21 – Antônio Castro: Piorou. Para todos. Para o Brasil

15 março, terça-feira, 2016 às 6:04 pm

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Protesto

Protesto

As grandes manifestações contra o Governo Dilma neste domingo trouxeram um novo, e muito preocupante, elemento à política brasileira. Não foi seu número de participantes ou sua intensidade. Estes não variaram muito em relação aos atos de março de 2015. À parte o exagero de setores da imprensa quanto aos manifestantes (100 mil em Porto Alegre? 1,4 milhão em São Paulo? Nem perto…) os atos foram , sim, expressivos, mas mesmo um ano depois ainda não conseguiram superar a barreira de classe.

Segundo o próprio Datafolha, em São Paulo 77% dos manifestantes tinham curso superior , 61% ganhava mais de 5 salários mínimos e 91% eram brancos. Continuam manifestações de classe média branca e afluente. A icônica foto do casal no Rio de Janeiro indo para a passeata com sua empregada doméstica impecavelmente uniformizada de branco carregando seus pimpolhos diz mais que 50 teses de doutorado sobre o caráter do 13 de março. Continuam movimentos de e para coxinhas. Foi, literalmente , mais do mesmo.

A grande e, repita-se, preocupante novidade, foi o fato de que Alckmin, Aécio , Marta Suplicy e outros líderes da Oposição foram vaiados e hostilizados pela massa de manifestantes. Se estes movimentos têm como centro unificador o afastamento da Presidenta Dilma, a hostilização dos líderes da Oposição deixa um recado terrível.Verdade que as raposas felpudas do PMDB não cometeram o erro de expor-se no domingo, mas não tenham dúvidas de que a reação em relação a Temer, Renan ou Sarney não seria muito diferente , eis que são identificados como “tendo ajudado ao PT”. Eduardo Cunha nem se fala, provavelmente ficou trancado em casa torcendo para que não lembrassem dele.

Tanto a saída do impeachment como a da ação do TSE para conseguirem um mínimo de legitimidade social dependem diretamente do prestígio popular dos atores da Oposição a quem caberá conduzir o processo de derrubada “ legal” do Governo Dilma. A campanha de rua, porém, vem sendo conduzida de forma a que se verifica também um acentuado desgaste destes líderes da Oposição.

No afã de destruir o PT e seu governo, a grande imprensa e os promotores destes atos vêm num crescendo de combate à política e desmoralização das instituições democráticas. Como o PT e as esquerdas parecem imbatíveis nos ritos democráticos, destruir estes se torna necessário para destruir a esquerda. O resultado é a inviabilização não só do Governo Dilma, mas de qualquer alternativa a este.

Sobra o endeusamento de Sérgio Moro, Janot e Cia., cada vez mais visível nas telas de TV e nas ruas. Mas qual é a condição de estabilidade institucional que pode, de verdade, trazer uma República Judicial dos Sem-Voto? Em primeiro lugar, o caráter justiceiro da Operação Lava-jato só consegue se manter com o constante aprofundamento das ilegalidades e das arbitrariedades. Estamos cada vez mais perto de uma deslegitimação jurídica desta ofensiva. Moro conta com a omissão de um STF acovardado pela grande imprensa , mas em pouco tempo não restará um professor de direito ou jurista que defenda seus atos.

Mas , principalmente, guardadas as devidas proporções e diferenças, já vivemos há pouco tempo atrás um governo de um caçador de ilegalidades, apoiado pela Rede Globo . Granjeou, de início, enorme popularidade mas, sem partido, sem relações políticas pelo país , sem base parlamentar , terminou por perder seu apoio social e caiu. Fernando Collor não foi derrubado pela corrupção. Foi, aliás, quanto a isto, absolvido pelo STF. Collor caiu porque ficou isolado no Planalto. Moro e Cia. conseguiriam fazer diferente? Governar é transigir, negociar, cortar, morder, assoprar e encantar. Um grupo que construiu sua força no autoritarismo e na chantagem midiática conseguiria triunfar nesta conjuntura? Creio que não. Um Governo Moro /Janot seria provavelmente ainda mais curto e instável que o de Collor.

Assim, a campanha patrocinada pela Rede Globo e seus aliados , que precisam da queda do PT para ter condições de superar suas crises financeiras e sobreviver, pode levar o Brasil para uma situação de completa instabilidade e ingovernabilidade. Não só para Dilma, mas para qualquer um que a venha suceder.

Este é o saldo do domingo, 13 de março. Enquanto o país derrete, alguns setores econômicos bancam a inviabilização da democracia , encaminhando o Brasil para uma situação de instabilidade tal que pode dar vazão a uma aventura justiceira e autoritária , certamente incapaz de construir uma estabilidade institucional e uma hegemonia social minimamente durável. Marx e Hegel (segundo o MP/SP) já diziam que a História costuma se repetir como farsa…

Antônio Escosteguy Castro é advogado e colunista do portal Sul21.

Fonte: Sul21